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As primeiras eleições palestinas em duas décadas mudarão algo?

A formação de uma ampla coalizão entre grupos rivais para as eleições de novembro tenta unificar a política palestina perante a ocupação e a devastação de Gaza

Qassam Muaddi
esde 7 de outubro de 2023, Israel proíbe de facto a política palestina organizada — por meio de prisões em massa, detenção administrativa, perseguição a líderes comunitários e criminalização da expressão política — mesmo enquanto eleições são anunciadas e coalizões formadas. (Foto: Hosny Salah / Pixabay)
esde 7 de outubro de 2023, Israel proíbe de facto a política palestina organizada — por meio de prisões em massa, detenção administrativa, perseguição a líderes comunitários e criminalização da expressão política — mesmo enquanto eleições são anunciadas e coalizões formadas. (Foto: Hosny Salah / Pixabay)

Os grupos palestinos, que passaram duas décadas em uma divisão acirrada — e, por vezes, violenta —, agora estão unindo forças antes das eleições anunciadas para novembro, formando a mais ampla coalizão política vista nos territórios ocupados em anos.

Após uma série de negociações no Cairo, formou-se a “Aliança das Forças Nacionais” com o objetivo específico de concorrer em conjunto nas próximas eleições legislativas palestinas. Essa coalizão inclui o Hamas, a Jihad Islâmica Palestina (JIP), a Corrente de Reforma Democrática (uma corrente dissidente da Fatah liderada por Mohammad Dahlan, ex-líder da Fatah em Gaza que atualmente reside nos Emirados Árabes Unidos), o Fórum Nacional Democrático (outra corrente dissidente da Fatah liderada pelo sobrinho de Yasser Arafat, Nasser Al-Qudwah) e os Comitês de Resistência Popular (uma organização com sede em Gaza fundada pelo ex-membro da Fatah Jamal Abu Samhadana em 2001).

Espera-se que as facções de esquerda palestinas, a saber, a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e a Frente Democrática para a Libertação da Palestina, anunciem nos próximos dias se irão aderir à coalizão.

A aliança, desencadeada por um decreto do presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, convocando novas eleições para o final de novembro, rompe com duas décadas de estagnação política que enfraqueceram a alavancagem política palestina em um momento de aceleração da anexação israelense.

De acordo com o Escritório Central de Estatísticas da Palestina (PCBS), cerca de 64% dos palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza têm menos de 30 anos – para a maioria, esta seria sua primeira experiência eleitoral.

Para muitos palestinos, a mera perspectiva de eleições é, por si só, uma chance de reunificar a política palestina e enfrentar de forma mais eficiente a destruição de Gaza e a anexação da Cisjordânia por Israel, sob uma liderança nacional unida. O fato da coalizão em si ser tão diversificada comprova isso: palestinos de todas as esferas desejam uma mudança após duas décadas de política palestina reduzida à divisão entre a liderança dominante da Fatah e o Hamas.

No entanto, nem as eleições nem as alianças políticas garantem uma liderança palestina unida ou um sistema político palestino restaurado. Qualquer que seja o resultado, ele terá que enfrentar sérios desafios internos e externos, incluindo interesses privados que se desenvolveram ao longo de anos de estagnação política, pressões internacionais para limitar a expressão política palestina, além das dificuldades inerentes às reformas democráticas sob ocupação militar.

Tudo isso está se dando em meio a um clima político que nunca foi tão hostil à vida política palestina. Desde 7 de outubro de 2023, Israel proíbe de facto a política palestina organizada — por meio de prisões em massa, detenção administrativa, perseguição a líderes comunitários e criminalização da expressão política — mesmo enquanto eleições são anunciadas e coalizões formadas. Um novo conselho legislativo, se é que algum dia se instalará, precisaria apresentar uma visão palestina unificada e um projeto para unir a Cisjordânia e Gaza, justamente no momento em que as condições para isso estão mais gravemente comprometidas.

Política reprimida

A atividade política sempre foi um risco para os palestinos sob a ocupação israelense. A maioria dos grupos políticos palestinos surgiu no contexto da resistência à ocupação e têm sido alvo de prisões, mesmo nos ramos sociais, em seus movimentos estudantis e ou nos sindicatos afiliados a esses partidos — incluindo partidos que nunca se envolveram em resistência armada, como o Partido do Povo Palestino (antigo Partido Comunista).

A Primeira Intifada, entre 1987 e 1993, gerou uma explosão irreversível de ativismo político, criando um espaço para a expressão política no âmbito da política palestina, mesmo sob a Autoridade Palestina, fundada na esteira dos Acordos de Oslo. Até mesmo o Hamas, que se opôs aos Acordos, aderiu a essa estrutura em 2006, concorrendo a vagas no conselho legislativo da Autoridade Palestina.

Após 7 de outubro de 2023, a repressão de Israel à política palestina aumentou drasticamente. O número de detidos palestinos nas prisões israelenses dobrou – passando de 5 mil na véspera de 7 de outubro para mais de 10 mil até o final de 2025, metade deles mantidos em custódia sem acusação, sob “ordens de detenção administrativa”.

“As prisões se estenderam a ex-detentos, ativistas sociais, líderes comunitários e, basicamente, qualquer pessoa com um papel de liderança em sua comunidade”, disse Ayah Shreiteh, do Clube dos Prisioneiros Palestinos, ao Mondoweiss. “Antes de 7 de outubro, as condições de detenção dos prisioneiros palestinos já vinham se deteriorando, mas depois disso tudo piorou.”

Shreiteh detalha que, nas prisões israelenses, “a quantidade e a qualidade da comida se deterioraram, os guardas prisionais israelenses fazem batidas nas celas semanalmente, às vezes diariamente, a negligência médica se tornou generalizada e as celas com uma área média de cinco ou seis metros quadrados, que normalmente abrigavam até seis presos, agora estavam lotadas com nove a 12 presos”. Essa situação, somada aos relatos de agressão sexual contra prisioneiros palestinos nas prisões israelenses, aumentou os riscos de qualquer tipo de atividade política na sociedade palestina, especialmente sob a bandeira de partidos ou grupos organizados.

Esse impacto ficou evidente na fraca participação nas eleições municipais de abril no início deste ano. Durante as eleições locais anteriores, em 2022, Nablus tinha seis listas eleitorais, Hebron tinha seis e Ramallah tinha cinco. Este ano, apenas duas listas concorreram em Hebron, enquanto em Nablus e Ramallah não houve disputa alguma, já que apenas uma lista se registrou para cada cidade.

As forças em disputa

O Hamas, que liderou o ataque de 7 de outubro, tem sofrido a maior pressão direta da ação repressiva de Israel e da devastação de Gaza. Com a destruição de Gaza e o esmagamento das forças de combate do Hamas, levando-o posteriormente a aceitar o princípio, antes inaceitável, do desarmamento diante da urgência da reconstrução, o grupo perdeu grande parte de sua capacidade de defender seu programa tradicional, centrado na resistência armada. Por meio de sua aliança com outras forças — incluindo correntes dissidentes da Fatah com fortes bases de apoio dentro da própria Fatah —, o Hamas está tentando retornar como uma força de oposição à liderança dominante de Abbas.

Os Comitês de Resistência Popular (CRP) permaneceram à margem da política eleitoral desde sua formação como grupo de resistência armada em 2001, enquanto a Jihad Islâmica Palestina (JIP) historicamente se mostrou desinteressada em eleições ao longo de seus 40 anos de existência. Ambos os grupos têm sua principal base social em Gaza e um legado de resistência independente do Hamas. Sua aliança com o Hamas sinaliza a construção de um projeto político de resistência que se estende além do próprio Hamas.

O aspecto mais surpreendente dessa aliança é a inclusão da “Corrente de Reforma Democrática”, de Muhammad Dahlan. O ex-líder da Fatah em Gaza construiu sua reputação como ex-oficial da inteligência palestina, cuja repressão ao Hamas em Gaza no final da década de 1990 e início dos anos 2000 o tornou o principal adversário interno do grupo islâmico na época. Ele mantém forte apoio entre a base da Fatah em Gaza.

O Fórum Nacional Democrático, de Naser al-Qudwah, completa a aliança. Ex-diplomata, médico e sobrinho do falecido líder palestino Yasser Arafat, ele se apresenta como um estadista que defende uma linha institucionalista e legalista, com apoio entre as classes médias-altas palestinas.

Juntas, essas forças representam um sério desafio à liderança dominante de Mahmoud Abbas, da Fatah, e de seu vice-presidente, Hussein al-Sheikh, que monopolizaram a representação palestina nas últimas duas décadas. Se a PFLP e a DFLP, ambas de esquerda, se unirem à coalizão, o desafio seria avassalador. Isso poderia resultar em um de dois cenários já conhecidos: Abbas poderia cancelar as eleições, como fez em 2021, ou, caso as eleições ocorram, um governo de coalizão seria formado e os países ocidentais o boicotariam por causa da participação do Hamas e da JIP. Foi o que aconteceu em 2006.

Mas se um novo conselho legislativo conseguir formar um novo governo e exercer sua autoridade legislativa e de fiscalização, ele enfrentaria um conjunto totalmente diferente de desafios.

Pressão internacional e interesses privados

Essas eleições não ocorrem no vácuo. Os EUA e os países europeus vêm pressionando a Autoridade Palestina há algum tempo para que realize reformas. Dois anos depois, o plano de paz de Trump incluiu a mesma exigência.

Em novembro de 2025, um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que a Autoridade Palestina precisa “implementar reformas” para continuar recebendo ajuda da UE.

Em resposta a essas exigências, a Autoridade Palestina já revogou seu programa de apoio financeiro às famílias das pessoas mortas ou presas pelas forças israelenses. A Autoridade Palestina também concordou, em 2024, em remover dos livros escolares conteúdos que se referissem à Palestina histórica ou à história da luta palestina.

Essa pressão parece ser um dos fatores por trás da alteração mais significativa na lei eleitoral palestina, aprovada por decreto presidencial no mês passado: qualquer candidato ou grupo que concorra às eleições deve aderir à plataforma política da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o que significa que aceita todos os acordos assinados com Israel e adere à estrutura da solução de dois Estados por meio de negociações mediadas pelos EUA como o único caminho para a criação de um Estado palestino. A condição já está gerando controvérsia.

Limites da liberdade política sob ocupação

Um novo conselho legislativo também enfrentaria desafios que vão além da política interna. A situação da Faixa de Gaza e sua relação com o chamado “Conselho da Paz” do presidente dos EUA, Donald Trump; as violações de Israel aos acordos assinados por meio da expansão das atividades de colonização para áreas da Cisjordânia supostamente sob controle da Autoridade Palestina; e as mudanças nas leis de licenciamento de terrenos e construções que facilitam a anexação — todas essas são questões políticas que qualquer novo órgão eleito teria de abordar. Tudo isso estaria sujeito à pressão dos EUA, da União Europeia e dos países árabes, que têm influência e interesse em conter qualquer nova tomada de posição política palestina.

“O novo conselho legislativo talvez tenha que entrar em conflito com interesses privados internos palestinos, mas também com a ocupação israelense e, possivelmente, com países ocidentais que estão pressionando por reformas e que definiriam os limites e a direção dessas reformas”, disse Isam Abdeen, advogado e defensor dos direitos humanos, ao Mondoweiss.

Para Mustafa Barghouthi, as novas eleições são mais do que uma competição política. “Essas eleições dizem respeito ao direito do povo palestino à participação democrática, que lhes foi negada por muitos anos e, portanto, precisam ser livres, sem condições políticas”, disse o secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina ao Mondoweiss. “As próximas eleições precisam ser uma ferramenta, não apenas para reunir os palestinos, mas também para servir como meio de resistir aos planos israelenses, sendo o primeiro deles a separação entre Gaza e a Cisjordânia.”

Barghouthi acrescentou que “é necessário haver um diálogo nacional para chegar a um acordo sobre esses pontos básicos, a fim de garantir que as eleições cumpram seu objetivo”.

Embora as eleições palestinas sejam uma demanda genuína e de longa data dos palestinos, sua eficácia e o alcance da mudança continuam vinculados à capacidade da Palestina de manter uma vida política livre, independente e inclusiva – uma condição básica que se torna muito difícil diante da continuidade da ocupação israelense e da ameaça de anexação total e deslocamento.

Mondoweiss O Mondoweiss é um site independente que fornece informações aos leitores sobre os acontecimentos em Israel/Palestina e sobre a política externa dos EUA. O site fornece notícias e análises sobre a luta dos palestinos pelos direitos humanos que não estão disponíveis na mídia convencional.

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