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Quando o dinheiro acaba: Hezbollah e a economia do desarmamento

Mais do que a força militar de Israel ou a diplomacia dos EUA, é a crise financeira do Hezbollah que acelera um processo de desgaste estrutural e quebra do contrato social no Líbano

Ali Salman
Uma bandeira do Hezbollah sobre um canhão abandonado nas Colinas de Golã. (Foto: Paul Keller / Flickr)
Uma bandeira do Hezbollah sobre um canhão abandonado nas Colinas de Golã. (Foto: Paul Keller / Flickr)

O acordo-quadro de Washington proposto ao governo libanês condiciona a retirada de Israel do sul do Líbano ao desarmamento verificado do Hezbollah. Zonas-piloto foram concebidas para testar se as Forças Armadas Libanesas poderiam substituir a presença territorial do Hezbollah. Oito rodadas de negociações resultaram em comunicados sobre retiradas sequenciais, mecanismos de verificação e coordenação de segurança. Toda a arquitetura diplomática parte do pressuposto de que o desarmamento é um problema militar que exige uma solução militar.

Mas não é. O desarmamento do Hezbollah já está em andamento, e seu mecanismo não são as Forças Armadas Libanesas (LAF), nem as zonas-piloto, nem o acordo-quadro. É o dinheiro. Ou melhor, a falta dele.

Nas últimas semanas têm surgido relatos de que o Hezbollah talvez não consiga mais pagar os 14 mil dólares que tradicionalmente fornece às famílias cujas casas são destruídas por ataques israelenses. Isso não é um pequeno transtorno operacional. É o colapso da arquitetura financeira que tem sustentado o contrato social da organização com sua base eleitoral por quatro décadas.

Esses pagamentos nunca foram caridade. Eram a transação por meio da qual o Hezbollah adquiria legitimidade, lealdade e o direito de manter um Estado paralelo em território libanês. Quando esse pagamento cessa, a transação fracassa. E quando a transação fracassa, a arquitetura institucional construída sobre ela começa a se desintegrar.

O estrangulamento financeiro é proveniente de três frentes simultaneamente, nenhuma das quais foi negociada em Washington, discutida em Roma ou incluída em qualquer acordo.

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A primeira é o colapso do regime de Assad. Por mais de duas décadas, a Síria serviu como corredor logístico do Hezbollah: armas, fundos e pessoal passavam por Damasco com a facilitação ativa do governo. A queda de Assad cortou esse corredor de forma permanente. O novo governo em Damasco não tem interesse em restaurá-lo. O canal geográfico que conectava os recursos iranianos à presença libanesa não existe mais.

A segunda é a guerra contra o Irã. Os ataques de 28 de fevereiro, o bloqueio naval norte-americano subsequente e o fechamento do Estreito de Ormuz custaram ao Irã cerca de 500 milhões de dólares por dia em seu pico. A capacidade do Irã de financiar sua rede regional foi prejudicada em nível estrutural. Mojtaba Khamenei herdou um Estado que havia sofrido o ataque militar mais prolongado de sua história. O orçamento do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) para operações externas — a mesma verba que financia o Hezbollah — concorre com a reconstrução interna, a reestruturação militar e a estabilização do regime. O Hezbollah não é o único aliado do Irã. É apenas um entre vários, e o conjunto de recursos disponíveis diminuiu drasticamente.

O terceiro fator são as sanções dos EUA. A ação do Departamento do Tesouro contra as redes financeiras do Hezbollah tem se intensificado progressivamente desde 2020, mas as designações de 2026 foram mais longe do que qualquer rodada anterior, visando não apenas instituições afiliadas ao Hezbollah, mas também as redes de hawala (transferências informais) e as empresas comerciais que constituem a base de receita doméstica da organização. As sanções têm como objetivo tornar operacionalmente oneroso movimentar dinheiro de, para ou dentro do ecossistema financeiro do Hezbollah. E elas estão surtindo efeito.

A convergência dessas três pressões produziu algo que décadas de campanhas militares israelenses, resoluções da ONU e regimes de sanções internacionais não conseguiram alcançar individualmente: uma crise estrutural na capacidade do Hezbollah de se sustentar financeiramente.

A história demonstra o que acontece com atores armados não estatais quando sua infraestrutura financeira entra em colapso. A comparação não é especulativa. É empírica.

A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) atingiu seu auge militar e institucional na década de 1980, operando um Estado paralelo no Líbano com hospitais, escolas, serviços sociais e uma força militar convencional.

Mas o declínio da OLP não começou com a invasão de Beirute por Israel em 1982, que foi uma derrota militar da qual a organização sobreviveu politicamente. Ele começou após a Guerra do Golfo de 1990, quando os países do Golfo cortaram o financiamento à organização, em retaliação ao apoio de Yasser Arafat à invasão do Kuwait por Saddam Hussein. A Arábia Saudita, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos haviam sido os principais patrocinadores financeiros da OLP.

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Quando o dinheiro parou de entrar, a capacidade institucional da organização colapsou em poucos anos. Os Acordos de Oslo de 1993 não foram fruto apenas da pressão militar israelense. Foram resultado do esgotamento financeiro da OLP. Uma organização que não podia mais pagar seus quadros, financiar seus serviços sociais ou manter sua infraestrutura institucional aceitou termos que havia rejeitado por décadas. A derrota militar enfraqueceu a OLP. O colapso financeiro a forçou a sentar-se à mesa de negociações.

A transição do Exército Republicano Irlandês (IRA) da luta armada para o processo político seguiu uma lógica financeira semelhante.

A capacidade operacional do IRA dependia de redes de financiamento que se estendiam desde as comunidades da diáspora irlandesa-americana até a Líbia, passando tambe organizações criminosas por toda a Europa. Quando essas redes foram sistematicamente desmanteladas por meio de operações de inteligência, sanções financeiras e pressão diplomática na década de 1990, a capacidade da organização de sustentar uma campanha militar prolongada diminuiu.

O Acordo da Sexta-Feira Santa de 1998 foi negociado por uma organização que havia concluído, em parte por meio de cálculos financeiros, que a luta armada havia chegado a um ponto de redução dos retornos. As armas do IRA não foram apreendidas. Elas foram desativadas por uma organização que não tinha mais recursos para arcar com a infraestrutura necessária para utilizá-las.

A trajetória do Hezbollah está começando a se assemelhar a esses precedentes. A organização mantém uma capacidade militar significativa: seu arsenal de foguetes, embora reduzido, não está esgotado. Sua estrutura de comando, embora prejudicada por assassinatos seletivos, não entrou em colapso. Seus combatentes, embora em número reduzido, permanecem operacionalmente ativos. Mas a capacidade militar sem sustentabilidade financeira é um ativo que se desvaloriza. As armas exigem manutenção. Os combatentes precisam de salários. As famílias requerem compensações. Os serviços sociais exigem financiamento. As redes de inteligência requerem orçamentos operacionais. Cada uma dessas funções custa dinheiro, e todas estão agora sob pressão de restrições financeiras que a organização nunca enfrentou simultaneamente.

O pagamento de 14 mil dólares é o indicador que revela a mudança estrutural. O Hezbollah sustentou guerras com Israel em 2006, 2024 e 2026 sem nunca deixar de indenizar sua base eleitoral pelas perdas em tempo de guerra. O pagamento era a prova de que a organização podia absorver punições militares sem perder sua base social. Se esse pagamento falhar, a mensagem para a comunidade xiita não é que o Hezbollah tenha sido derrotado militarmente. É que o Hezbollah não pode mais cumprir o contrato social que justificava sua existência como um Estado paralelo. Mas a resposta não será uniforme, porque a base de apoio do Hezbollah não é uniforme. A organização repousa sobre dois pilares: uma base clientelista que segue o dinheiro e um núcleo ideológico que segue a doutrina. A família cuja casa foi destruída e que não recebe nada vai reavaliar sua lealdade. O combatente cujo salário está atrasado vai ponderar suas opções. Esses são os apoiadores transacionais, e eles se afastarão. Mas o crente que se juntou por causa da Velâyat-e Faqih, por causa da teologia da resistência, não irá embora quando o dinheiro acabar, porque o Hezbollah não é uma organização para ele, mas uma expressão de dever religioso. Ele ficará e poderá se radicalizar. O colapso financeiro não dissolve um movimento ideológico. Ele o destila. Ele elimina a periferia e concentra o núcleo. O que resta depois que o dinheiro acaba é menor, mais pobre e mais perigoso: uma organização que perdeu seu estado de bem-estar social, mas manteve seus combatentes mais comprometidos.

A trajetória da OLP confirma isso. Após o colapso financeiro da década de 1990, o aparato institucional da OLP desmoronou, mas seus resquícios ideológicos deram origem ao Hamas. A transição do IRA gerou facções republicanas dissidentes que rejeitaram os acordos de paz. O desarmamento financeiro não elimina a ameaça. Ele a transforma.

A previsão é mais estrutural do que dramática. O Hezbollah não entrará em colapso em um único evento. Ele se desgastará. Esse desgaste seguirá uma sequência específica. Primeiro, os serviços sociais se reduzem: menos pagamentos, reconstrução mais lenta, redução da oferta de serviços educacionais e médicos. Em segundo lugar, as redes de clientelismo se enfraquecem: menos empregos, menos contratos, menos favores distribuídos pelos canais institucionais da organização. Em terceiro lugar, o apoio eleitoral enfraquece: eleitores que não receberam nada do Hezbollah durante a crise começam a explorar alternativas – incluindo o movimento Amal –, candidatos independentes ou a abstenção. Em quarto lugar, o recrutamento diminui: jovens que teriam se filiado a uma organização que oferecia salário, status e pertencimento institucional percebem que o salário está atrasado, o status está menor e a instituição está passando por dificuldades.

Essa sequência não exige que as Forças Armadas Libanesas (LAF) disparem um único tiro. Não exige que o acordo-quadro seja implementado. Não exige a retirada israelense nem pressão americana. Exige apenas a continuidade das condições que já existem: Assad fora do poder, o Irã enfraquecido, sanções cada vez mais rigorosas e a base de receita encolhendo mais rapidamente do que os compromissos relacionados a despesas podem reduzir.

O acordo-quadro de Washington está negociando o desarmamento de uma organização que está sendo desarmada por seu próprio balanço patrimonial. A arquitetura diplomática é elaborada, as negociações são extensas e os comunicados são detalhados. Nada disso é o mecanismo que determinará o futuro do Hezbollah. O mecanismo é mais simples, mais silencioso e já está em andamento: uma organização que não consegue mais se sustentar financeiramente acabará por se tornar incapaz de se manter. O acordo-quadro atribuirá a si mesmo o mérito por um processo que não gerou. O verdadeiro desarmamento terá ocorrido no intervalo entre o último pagamento de salários e o primeiro pagamento não efetuado. É nesse intervalo que os atores não estatais vão ao encontro de seu fim. E o Hezbollah, pela primeira vez em sua história, está exatamente nesse ponto.

Middle East Monitor

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