“Considerando que a humanidade deve à criança o melhor que tem a oferecer…” — Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, 1959
Houve crianças iraquianas antes de Gaza, antes de Hind Rajab. Antes do Irã e do bombardeio à Escola de Minab. Crianças iraquianas morrendo aos milhares, chegando a 500 mil, em consequência das sanções econômicas da ONU apoiadas pelos EUA e das guerras no Iraque. Os governos expressaram “preocupação”. Acadêmicos e juristas internacionais chamaram aquilo de genocídio. A ex-secretária de Estado do governo de Bill Clinton, Madeleine Albright, disse que era um preço que valia a pena pagar.
Quem somos nós? Que universo é esse em que se escreve repetidamente em defesa das crianças, da “criança”, como se elas fossem uma causa política? É o novo anormal, em que cada dia traz notícias de crianças sofrendo, feridas e morrendo, no Iraque, na Ucrânia e no Sudão. Em Gaza e na Cisjordânia ocupada, no Irã e no Líbano, para citar alguns.
A criança fica presa em um carro, é morta a tiros; fica soterrada sob os escombros de sua casa bombardeada, de sua escola ou do hospital onde acabara de nascer. Fica ferida, sem olhos, braços e pernas; sem pais e irmãos, tias e tios. Fica sem todas as pequenas e grandes “coisas” que são, que deveriam ser, a vida de uma criança. Estão doentes e não há médicos nem remédios; estão com fome e não há comida nem água potável. Não há escola, nem mesquita, nem igreja, e o bairro não existe mais. Fora de casa, em uma barraca ou na rua, transferidas à força de um lugar para outro. Que tipo de mundo é esse, que tipo de cultura? Que coração se recusa a proteger e, pior ainda, ataca intencionalmente “a criança”, juntamente com as pessoas e instituições que oferecem os cuidados e a proteção necessários para sustentar a vida da criança?
Embora o instinto — que alguns chamam de maternal — ajude a garantir o futuro de uma espécie, cuidar dos próprios filhos não significa necessariamente cuidar de todas as crianças. Essa enorme responsabilidade foi assumida por governos e organizações internacionais; as crianças precisam de proteções especiais garantidas porque são “…inocentes, vulneráveis e dependentes”. A Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC, 1990), o documento de direitos humanos mais amplamente endossado da história, comprometeu os líderes mundiais a dar às crianças “prioridade” no acesso a recursos humanos e financeiros e a conhecimento técnico para lidar com questões críticas, tais como: pobreza, educação, saúde infantil e materna e proteção durante conflitos armados. Com grande alarde, eles reafirmaram essas aspirações, clamando por um mundo “adequado” para as crianças em 2002, na Sessão Especial da ONU sobre a Infância, o maior encontro já realizado para uma Sessão Especial da ONU.
A desconexão entre as palavras e as ações, bem como com a situação real das crianças em 2002, quando a Sessão Especial foi convocada, não passou despercebida por aqueles de nós que se preocupavam com o Iraque e com as crianças iraquianas. Estima-se que meio milhão delas tenham morrido. Houve um aumento alarmante de malformações congênitas e cânceres infantis, sobrecarregando um sistema médico já sob pressão. A saúde geral das crianças iraquianas, medida pela Taxa de Mortalidade de Crianças Menores de 5 Anos (U5MR) — “…o indicador mais significativo do estado das crianças de uma nação…” — havia diminuído em 160% na década desde a adoção da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC). Foi, de longe, o maior declínio no bem-estar das crianças em qualquer país do mundo. E isso, assim como a destruição generalizada do Iraque e da sociedade iraquiana, foi provocado pela guerra e sustentado pelas severas sanções econômicas da ONU, apoiadas pelos EUA, impostas justamente pela agência que se comprometia a assumir a responsabilidade pelas crianças do mundo.
O direito internacional falhou em proteger as crianças iraquianas; há décadas vem falhando com as crianças palestinas, apesar de sua situação de fragilidade sob a ocupação israelense ser bem documentada. E agora, assistimos enquanto as crianças — já em situação precária — em Gaza e na Cisjordânia ocupada, sofrem atrocidades inimagináveis. “Atrocidade no sentido comum do termo, evocando simplesmente o choque e o horror que a maioria sentiria diante de um dano humano tão enorme e gratuito; uma circunstância em que seria difícil não rejeitar as justificativas” (Joy Gordon, Invisible War: The United States and the Iraq Sanctions, 2010).
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A ONU e as organizações de direitos humanos se lamentam e emitem condenações. Alguns não chamam o que está ocorrendo de genocídio. A maioria que poderia ajudar a pôr fim a essa catástrofe permaneceu inerte — incluindo mulheres, mães e organizações globais de saúde e direitos humanos —, e assistiu à ocupação e ao genocídio matarem e mutilarem milhares e milhares de crianças palestinas e suas famílias. Assistiram enquanto a Palestina em si se tornava inabitável. Permaneceram em silêncio enquanto justamente aqueles que buscam proteger as crianças palestinas são tratados e perseguidos como terroristas.
As comoventes promessas das declarações da ONU e suas aspirações em nome das crianças não deram em nada. Estamos sendo submetidos a uma forma de violência global sobre a qual Joy Gordon alertou: a de “uma única nação” ou, no mundo de hoje, duas nações — os EUA e Israel — “sequestrando uma instituição de governança internacional, substituindo os interesses e a vontade da comunidade internacional por sua própria agenda”. Isso não pode continuar.
De acordo com o Ministério da Saúde, 73.386 palestinos — incluindo 21.000 crianças — foram mortos na Faixa de Gaza e outros 174.256 ficaram feridos entre 7 de outubro de 2023 e 9 de agosto de 2026. Isso inclui 1.258 mortes e 4.295 feridos entre o anúncio de um acordo de cessar-fogo em 10 de outubro de 2025 e 9 de agosto de 2026. Sabemos, todos sabem, que este não é o mundo “adequado para as crianças” prometido pelos líderes globais na ONU há cerca de 30 anos, mas ainda assim prosseguimos. Estou sem palavras. O que mais pode ser dito que ainda não tenha sido dito, ou escrito que ainda não tenha sido escrito? Que poema ou artigo investigativo, que relato pessoal poderia, de alguma forma, pôr fim a essa carnificina?
Em 1915, Henry James declarou: “A guerra esgotou as palavras; elas enfraqueceram, deterioraram-se…” A Dra. Salma Al-Hadad, chefe da unidade de oncologia pediátrica do Hospital Universitário de Bem-Estar Infantil em Bagdá desde 1992, compartilhava dessa opinião. Após anos de entrevistas revelando as dificuldades para salvar um número crescente de pacientes com cânceres cada vez mais complexos, sem sequer dispor dos medicamentos e da tecnologia mais básicos, ela ficou em silêncio. “Os momentos extremamente difíceis que vivi ao longo desses anos”, escreveu ela em um e-mail de meados de 2000, “me deixaram em silêncio. Não encontro palavras para comentar.”
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O universo moral tem uma dívida profunda para com o povo da Palestina, que não se calou nem deixou de documentar as atrocidades cometidas contra ele. Eles pagam por isso todos os dias com suas vidas e, em muitos casos, com a vida de outros membros da família. Eu me exorto a seguir em frente. Temos que saldar essa dívida rompendo o silêncio, mesmo quando sentimos que não há mais nada a dizer. O silêncio não pode ser uma opção para aqueles que sentem o peso das atrocidades cometidas contra crianças.
“Todas as pessoas”, escreveu Tolstói, “vivem, não por causa de qualquer cuidado que tenham consigo mesmas, mas pelo amor que outras pessoas têm por elas”. Se realmente nos importamos com “a criança”, precisamos redobrar nossos esforços em prol delas.




































