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Naama Lazimi, a nova ‘diva’ da esquerda israelense: tão progressista que só defende o apartheid

Naama Lazimi, a parlamentar feminista e social-democrata que normaliza o apartheid e o colonialismo, mas é a aposta da ‘esquerda’ israelense para as eleições de outubro

Jonathan Ofir
A política israelense e membro do Knesset Naama Lazimi. (Foto: Knesset / Wikimedia Commons)
A política israelense e membro do Knesset Naama Lazimi.
(Foto: Knesset / Wikimedia Commons)

Talvez você ainda não tenha ouvido falar dela, mas Naama Lazimi é a número 2 do partido sionista de “esquerda” israelense, Democratas, liderado pelo ex-general e vice-chefe do Estado-Maior do Exército Yair Golan.

Mas Lazimi vai um passo além de Golan, que é conhecido por ter defendido a fome indiscriminada dos palestinos em Gaza após os eventos de 7 de outubro. Ela, por sua vez, abandonou a defesa do genocídio; em vez disso, clama pelo retorno ao bom e velho apartheid.

É claro que, atualmente, em Israel, o simples fato de defender o apartheid já coloca alguém na extrema esquerda, e por isso Lazimi está sendo celebrada como uma nova lufada de mudança. O jornal liberal Haaretz a aclamou como “a superestrela da esquerda israelense, e ela quer o poder” em um extenso perfil da política no início deste mês, com pouco mais de 7.500 palavras.

A esquerda tem apresentado, em geral, maus resultados nas pesquisas antes das próximas eleições israelenses, marcadas para 27 de outubro deste ano — mas o mesmo ocorre com a atual coalizão de direita. O maior adversário do Likud de Benjamin Netanyahu, no momento, é o partido Yashar, de Gadi Eisenkot, com cerca de 24 das 120 cadeiras nas pesquisas. Eisenkot, aliás, é o arquiteto da Doutrina Dahiya, uma política de assassinatos indiscriminados que tem orientado o atual genocídio em Gaza. Enquanto isso, a chapa “Juntos”, de Naftali Bennett e Yair Lapid, que em abril parecia destinada a conquistar 25 cadeiras, caiu desde então para menos de 15.

Assim, sem nenhum partido capaz de garantir uma maioria clara, a esquerda busca um candidato que possa atrair uma base israelense mais ampla — e Naama Lazimi sabe como fazer isso.

Um “acordo político sem um Estado palestino”

No último dia 24, Lazimi participou do programa “This Morning”, da emissora pública Kan, onde expôs sua visão política em relação aos palestinos: “É necessário buscar um acordo político que não crie um Estado palestino” no próximo mandato, disse ela.

Bem, pelo menos ela pode ser considerada honesta.

Como escrevi há quase uma década, um Estado palestino sempre foi uma ficção para os sionistas. Até mesmo Yitzhak Rabin, exatamente um mês antes de ser assassinado em 1995, garantiu ao parlamento israelense que os Acordos de Oslo (que muitos acreditavam ter como objetivo uma “solução de dois Estados”) resultariam em “menos do que um Estado” no que diz respeito à Palestina.

Esse sempre foi um ponto fundamental do sionismo. O sionismo, sendo o empreendimento colonialista que sempre foi, não tinha como objetivo permitir a existência da Palestina, mas sim substituí-la pela supremacia judaica de Israel.

E, no que diz respeito a ser sionista, Lazimi se orgulha disso. O perfil do Haaretz cita seu encontro com educadores beduínos, no qual ela explicou o que o sionismo significava para ela:

“Quero lhes dizer algo como sionista. O sionismo que eles [sionistas de direita e religiosos] trouxeram para cá é um sionismo distorcido. O sionismo, como eu o entendo, significa direitos iguais para todos que vivem no país. No que me diz respeito, o tratamento injusto da sociedade árabe, não apenas da sociedade beduína, é algo que vai contra o sionismo.”

Essa declaração é, por si só, uma grande distorção do sionismo. A igualdade de direitos é um anátema para o apartheid israelense, do rio ao mar. A limpeza étnica ocasional e até mesmo o genocídio dos palestinos sempre se basearam no entendimento de que os palestinos são uma “ameaça demográfica”, porque o sionismo precisava de sua expulsão ou desaparecimento para estabelecer uma maioria política e demográfica judaica.

E quanto à ocupação? No perfil do Haaretz, a entrevistadora, Moran Sharir, pergunta: “Seu partido não abandonou a bandeira da luta contra a ocupação?”.

“Em vários momentos, sim”, ela responde.

“Nos últimos quatro anos.”

“Não. Nos últimos quatro anos, fomos o único partido a abordar essa questão”, ela responde. “Veja bem, também há diferentes nuances dentro do partido sobre isso, e tudo bem. Não há uma linha única. É próprio de um partido democrático permitir uma variedade de pontos de vista.”

“Onde você se situa nesse espectro?”, Sharir insiste.

“Faço parte tanto do discurso de segurança e diplomacia, que vê a separação como o caminho para a segurança, quanto do discurso dos direitos humanos, que também exige normas universais, judaicas e humanas aqui”, responde Lazimi.

“Separação”, no sentido que Lazimi descreve, é objeto de um amplo consenso em Israel. Outra palavra para isso é apartheid.

Justificando o genocídio

Sharir questiona Lazimi sobre sua posição em relação ao genocídio em Gaza, que ele define como uma “catástrofe humanitária” devido à fome e ao “assassinato indiscriminado de crianças, mulheres e idosos”, bem como à “retórica genocida por parte de pessoas no governo, na mídia e nas forças armadas”.

Lazimi ficou na defensiva. “Nós nos manifestamos contra isso. Mesmo que não tenha sido com a intensidade que você esperava.”

“Esqueça a intensidade. Como é que eu não ouvi falar disso?”, retrucou Sharir.

“Nós nos manifestamos bastante. Acho que Yair [Golan, líder dos Democratas] é a figura mais proeminente que desencadeou uma discussão pública sobre o assunto”, gaguejou Lazimi.

 Leia também – Como Israel tem usado a violência sexual como arma do colonialismo de 1948 até hoje

Sim, o mesmo Yair Golan que disse, alguns dias após 7 de outubro, que “é proibido permitir um esforço humanitário” em Gaza e defendeu que “precisamos dizer a eles: até que os [reféns] sejam libertados, da nossa parte, vocês podem morrer de fome. É totalmente legítimo”.

Ele deu continuidade a essa frase memorável mais de um ano depois com outra declaração genocida: “todos nós gostaríamos de acordar numa manhã de primavera e descobrir que 7 milhões de palestinos que vivem entre o mar e o rio simplesmente desapareceram”.

Ele fez questão de esclarecer que esse não era um sonho realista, o que significa que a esquerda sionista está admiravelmente disposta a abandonar o genocídio porque ele não é viável.

A liberal sentimentalista que diz “é complexo”

Mas Lazimi também se mostra entristecida com Gaza.

“Esqueça a estratégia por um momento. Como você se sentiu, em um nível humano, em relação às coisas que foram feitas em Gaza? Como cidadã, como pessoa, como mãe”, pergunta Sharir.

“Às vezes, quando leio investigações jornalísticas, fico com dor no coração, sejam elas sobre Gaza ou sobre nós”, diz ela. “A questão é o que aconteceu ao longo do caminho, o que deixamos para trás, quanta terra arrasada. É claro que tenho reflexões sobre isso.”

Mas ela se apressa em matizar sua solidariedade. “No fim das contas, somos uma sociedade que teve de lidar com uma realidade em múltiplas frentes, em todos os sentidos”, ela se esquiva. “Essa realidade em várias frentes nem sempre deixa você com a capacidade de olhar da forma mais imparcial possível para as coisas que estão acontecendo, e sinto pesar por isso também… Mas tenho que aceitar que estamos lidando com tudo simultaneamente.”

Foi essa “sobrecarga”, afirma Lazimi, que “não permitiu que a sociedade israelense observasse de perto o que estava acontecendo”. Israel era, afinal, “uma sociedade assolada por desastres”.

“Vocês precisam entender”, quase dava para ouvi-la dizer. “Vocês precisam entender a necessidade de cometer genocídio.”

Com habilidades tão poderosas de manipulação sionista, não é de se admirar que ela seja uma superestrela da esquerda. Ela pode um dia se tornar primeira-ministra.

Mondoweiss O Mondoweiss é um site independente que fornece informações aos leitores sobre os acontecimentos em Israel/Palestina e sobre a política externa dos EUA. O site fornece notícias e análises sobre a luta dos palestinos pelos direitos humanos que não estão disponíveis na mídia convencional.

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