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Frei Betto: Borges e Flávio Bolsonaro no labirinto

O entrelaçamento de Flávio Bolsonaro e Vorcaro ilustra o labirinto político de onde a candidato tenta sair sem encontrar portas

Frei Betto
O senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro. (Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado)
O senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro. (Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado)

Há campanhas eleitorais que parecem estradas. Outras, labirintos. A de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, tem a segunda forma, pois quanto mais procura uma saída para o caso Daniel Vorcaro, mais corredores parecem conduzi-lo de volta ao mesmo ponto.

Jorge Luis Borges foi um dos grandes escritores sobre o labirinto. Em seu poema “Labirinto”, escreveu: “Não encontrará jamais uma porta. Você está dentro.” E em seguida: “O palácio abarca todo o Universo.”

 A imagem é extraordinariamente apropriada à conjuntura política atual. Em Borges, o labirinto não é apenas um lugar onde alguém se perde. É um lugar em que a própria ideia de saída pode ser uma ilusão. A pessoa está dentro, e cada tentativa de escapar pode conduzi-la a outra passagem do mesmo labirinto. 

Flávio Bolsonaro enfrenta precisamente esse problema. O episódio mais incômodo para sua campanha não é uma acusação abstrata, mas uma sequência de fatos e relações que reaparecem por diferentes portas. Em maio, mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil e, posteriormente, confirmadas pela Folha de S. Paulo, mostraram que Flávio procurou Daniel Vorcaro para obter recursos destinados ao filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Segundo a Folha, Vorcaro teria pago R$ 61 milhões de um montante que poderia chegar a R$ 134 milhões. 

O problema político está justamente na multiplicação dos corredores. Primeiro, Flávio Bolsonaro negou conhecer Vorcaro. Depois, vieram a público as mensagens trocadas entre eles. Surgiram então as explicações sobre o filme. Apareceram novas perguntas sobre os pagamentos. E, agora, outra informação acrescenta mais uma curva ao percurso: de acordo com reportagem da revista Piauí reproduzida pela Folha, o candidato utilizou durante a campanha um apartamento em São Paulo que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. 

Cada fato isoladamente pode receber uma explicação. O problema é a sucessão deles. Quando uma campanha precisa explicar repetidamente por que determinada pessoa, determinada operação ou determinado patrimônio aparece novamente em sua trajetória, a dificuldade deixa de ser apenas jurídica ou financeira. Torna-se narrativa. E eleição é também narrativa.

Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como candidato capaz de introduzir uma renovação política dentro do campo bolsonarista. Mas o passado familiar já constitui uma pesada bagagem. E o episódio Vorcaro acrescenta outra bagagem, porque o ex-banqueiro deixou de ser apenas um nome distante no noticiário econômico. A relação pessoal e financeira com o candidato passou a integrar a própria campanha.

Borges compreenderia a ironia. Em “A casa de Asterión”, o escritor transforma o labirinto em morada. O Minotauro não diz simplesmente que está preso, ele chama o labirinto de casa. E Borges escreve: “A casa é do tamanho do mundo. Ou melhor, é o mundo.” 

Eis o paradoxo, pois quando alguém vive tempo suficiente dentro do labirinto, já não sabe se procura a saída ou simplesmente muda de cômodo.

Na campanha de Flávio Bolsonaro, Vorcaro parece desempenhar o papel de um corredor que insiste em reaparecer. Quando se tenta falar de economia, ele aparece. Quando se fala de financiamento de filme, aparece de novo. Quando se fala de relações pessoais, reaparece. Quando se fala de transparência, ei-lo à mostra. Quando se fala de campanha eleitoral, seu nome desponta.

Há ainda a ironia adicional de o próprio filme destinado a celebrar a trajetória de Jair Bolsonaro — “Dark Horse” — acabar por se transformar em uma espécie de filme dentro do filme. A obra ainda nem chegou ao grande público, mas seus bastidores já ocupam o palco eleitoral.

Borges escreveu também, em “O outro, o mesmo”, sobre o “divino labirinto dos efeitos e das causas”. É uma expressão que serve para lembrar que, em política, não basta perguntar onde termina um fato. É preciso perguntar com que outros fatos conecta.

O candidato pode tentar mudar de assunto. Pode falar do Supremo, de Lula, da segurança pública, da economia, da liberdade. Pode acusar adversários de instrumentalização eleitoral do caso. Essas são estratégias legítimas de campanha. Mas a dificuldade elementar é que não se escolhe o labirinto em que se está quando os corredores são construídos pelos próprios acontecimentos.

A campanha de Flávio Bolsonaro pode até desenhar novos caminhos. Pode colocar placas, setas e mapas. Pode proclamar que encontrou a saída. Mas Borges nos ensina que existem labirintos sem porta. E talvez a pergunta mais simples seja justamente a mais difícil: onde termina Vorcaro e começa a campanha de Flávio Bolsonaro?

Enquanto essa fronteira não estiver suficientemente esclarecida pelos fatos e explicações documentadas, o candidato continuará percorrendo os mesmos corredores. E, como no poema de Borges, “Não encontrará jamais uma porta. Você está dentro.” O labirinto, afinal, não é apenas o lugar onde alguém se perde. É o lugar onde cada saída pode conduzir novamente ao centro. 

(*) Frei Betto é escritor, autor de “Anatomia do Poder” (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Revista Opera A Revista Opera é um veículo popular, contra-hegemônico e independente fundado em abril de 2012.

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