Pesquisar
,

Ernesto Cardenal: De revolução em revolução

Falecido no último domingo, o poeta, sacerdote e revolucionário Cardenal foi um dos mais importantes nomes da Teologia da Libertação na América Latina.

por Victoria García | Notas Periodismo Popular – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
(Foto: Jimelovski Platano Macho)

Formado em Filosofia e Letras na Universidade Autônoma do México, Ernesto Cardenal regressou em 1950 à Nicarágua, onde participou ativamente da oposição ao regime de Anastasio Somoza. Em 1956 foi ordenado sacerdote e no ano seguinte fundou, no arquipélago de Solentiname, uma comunidade na qual realizou uma leitura coletiva do Evangelho com os camponeses locais.

A transcrição desses diálogos foi publicada com o título O Evangelho em Solentiname. Na introdução do livro, afirma: “Estes comentários foram feitos durante a ditadura somocista […] Eu disse que esses são comentários marxistas do evangelho, e que é o evangelho interpretado à luz da revolução”.

Sua obra poética é muito extensa. Queria fazer, como ele mesmo formulou em uma entrevista de 2015, “uma poesia muito democrática […] que se entenda, uma poesia do povo”. Admirador do norte-americano Ezra Pound, pensava a linguagem poética como um entranhado polifônico que podia conter “de tudo”: anedotas, documentos oficiais, nomeações, pedaços de cartas e telegramas, piadas, ideias econômicas e sociais, anúncios comerciais. Tudo isso unido sob o impulso das grandes inspirações poéticas de Cardenal: o cristianismo e a revolução.

Junto a outro poeta, José Coronel Urtecho, cunhou o termo “exteriorismo” para se referir a esse projeto poético, que apontava ao concreto e buscava tomar distância da poesia “interiorista” e abstrata. Talvez uma de suas expressões mais belas desse projeto seja o poema “Oração para Marilyn Monroe”, de 1965: “Perdoa-a, Senhor, e perdoe-nos a nós / por nossa 20th Century / por esta Colossal Super-Produção em que todos trabalhamos”.

Em 1979, quando triunfou a Revolução Sandinista, Cardenal foi designado ministro da Cultura, cargo que exerceu até 1987. Sua colaboração com a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) lhe garantiu uma reprovação pública do papa João Paulo II em 1983 e, no ano seguinte, sua suspensão no exercício do sacerdócio. Em 1994, se distanciou da FSLN, por diferenças com a direção de Daniel Ortega.

Sua grande obra poética é Canto Cósmico, de 1992, onde recupera uma variedade de discursos científicos, literários, religiosos, históricos, míticos e coloquiais para compor uma visão totalizante do universo, sua versão poética de Gênesis, a evolução e o Apocalipse. Também ali a aproximação cristã se acopla à visão revolucionária: “No princípio / antes do Big Bang / era a Palavra. Não havia luz / a luz estava dentro das trevas / e saiu a luz das trevas / e se afastou em duas / e esse foi o Big Bang / ou a primeira Revolução”.

A Palavra – a poesia, o Verbo – está no princípio e no final da vida de Cardenal. “A poesia foi minha vida”, afirmou alguma vez. Também a revolução o acompanhou até seus últimos dias: “Toda a humanidade viveu de revolução em revolução, desde que começou a falar […] Tudo o que a humanidade foi adquirindo foi por meio da revolução”.

Poesia, sacerdócio e revolução foram em sua obra facetas de uma mesma coisa: formas intensas do sagrado.

Continue lendo

O período mais longo dos EUA sem conflito bélico durou apenas cinco anos, entre 1935 e 1940, devido ao isolacionismo a que foi condenada pela Grande Depressão. (Foto: U.S. Army / Ken Scar, 7th Mobile Public Affairs Detachment)
Frei Betto: os EUA e as guerras
Soldados do Exército da República Islâmica do Irã durante desfile em 2019. (Foto: Amir Hossein Nazari / Tasnim)
O Irã tem o direito de se defender
No início da manhã de 25 de fevereiro, uma lancha rápida não identificada entrou em águas cubanas. Quando a Guarda Costeira cubana se aproximou para identificar a embarcação, a tripulação da lancha abriu fogo sem aviso prévio. Os agressores, armados com fuzis de assalto e coquetéis molotov, feriram o comandante da patrulha cubana antes que os guardas revidassem em legítima defesa. (Foto: Pixnio)
Outro ataque terrorista a Cuba: a guerra de 66 anos que Washington se recusa a encerrar

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina