Pesquisar
, ,

Euromaidan: um ano após o golpe

por Pedro Marin | Revista Opera

Há um ano, durante uma viagem do então Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, a oposição ucraniana, com a legitimidade trazida pelas violentas manifestações em Kiev, derrubava um governo democraticamente eleito com um processo de impeachment inconstitucional, aprovado pelo Parlamento.

Desde então, mais de 5 mil morreram em meio à guerra civil que assola o país. A hyrvna, moeda ucraniana, tem perdido seu valor abruptamente – em 2014 caiu 40% em relação ao dólar. O PIB foi reduzido em 10%, e a inflação chegou a 19%.

A Ucrânia teve que pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional – que aprovou um empréstimo de 17 bilhões ao país. Sem a ajuda internacional, a economia seria reduzida em 10%. Com a ajuda, assegura o primeiro-ministro da Ucrânia, a redução será de pelo menos 3%.

O golpe na Ucrânia teve como principal motivação a iniciação de um acordo econômico do país com a Rússia. Hoje, o país se ajoelha perante a Europa, os EUA e o FMI, pedindo por dinheiro e armas.

Mas o pior está por vir. As tensões com a Rússia aumentam a cada dia. O exército ucraniano, que combate no leste do país, é derrotado repetidamente (a derrota mais recente foi em Debaltsevo, aonde frente a uma ofensiva dos combatentes do leste, o exército ucraniano foi obrigado a deixar a cidade) e algum dia o fantasma do FMI irá a Kiev, como foi em tantos países europeus e latino-americanos, e cobrará o povo da Ucrânia pela “ajuda” fornecida.

O novo governo

A catástrofe militar e econômica se soma ao completo desastre político do país. O novo governo da Ucrânia, que deveria acabar com a corrupção e melhorar a economia do país, é formado por pessoas como:

Arseniy Yatsenyuk; foi Ministro da Economia de 2005 a 2006, Ministro de Relações Exteriores em 2007, e Presidente do Parlamento de 2007 a 2008. Hoje é primeiro-ministro. Yatsenyuk é criador da fundação “Open Ukraine”, que ostenta entre seus parceiros a National Endowment for Democracy, desde 2009, a International Renaissance Foudation; de George Soros, e a OTAN, desde pelo menos 2011, entre outros. Yatsenyuk foi citado como favorito para o novo governo em uma conversa telefônica vazada entre Victoria Nuland, Secretária Assistente do Estado Americano, e Geoffrey Pyatt, Embaixador dos EUA na Ucrânia.

Arsen Avakov; empresário armênio e atual Ministro de Assuntos Internos, foi governador da Carcóvia de 2004 a 2010. Em janeiro de 2012, é acusado de transferir ilegalmente 55 hectares de terra, e é colocado na lista de procurados pela INTERPOL.

Natalia Ann Jaresko; americana e atual Ministra de Finanças da Ucrânia, trabalhou de 1992 a 1995 no Departamento de Estado Americano. Foi membra do conselho da fundação Open Ukraine, citada acima, além de CEO e sócia-fundadora da Horizon Capital, também parceira da fundação de Arseniy Yatsenyuk.

O atual Ministro de Política Social, Pavlo Rozenko; trabalhou de 2010 a 2011 como um expert no Razumkov Center, um think tank ucraniano com orçamento médio anual de 600 mil dólares. O think tank assina em 2010 um documento intitulado “A aliança com a qual gostaríamos de colaborar e ser parte”, hospedado no site da OTAN, na qual se defende, entre vários pontos, a “[…]filiação [da Ucrânia à OTAN] como um ponto essencial para a segurança nacional.”

Aivaras Abromavičius; Ministro do Desenvolvimento Econômico e Comércio da Ucrânia, é sócio da multinacional do setor de investimentos East Capital. Em entrevista à BloombergView em janeiro desse ano, se demonstrou favorável a cortes em gastos públicos.

O Ministro de Política de Informação, Yuriy Stets; trabalhou como produtor-chefe no Channel 5, canal de televisão cujo proprietário é Petro Poroshenko, atual Presidente da Ucrânia. A criação do “Ministério da Verdade”, como alguns críticos chamam, foi amplamente criticado como um ataque à liberdade de imprensa. Dunja Mijatovic, representante da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), também se colocou contrária a criação do Ministério por essa razão.

Serhiy Kvit; Ministro da Educação e Ciência da Ucrânia, é membro da organização paramilitar de extrema-direita Tryzub, cujo líder era Dmytro Yarosh (hoje líder do Setor Direita).

O Ministro da Juventude e Esportes da Ucrânia, Ihor Zhdanov; também trabalhou no Razumkov Centre de 1995 a 1997 e depois de 1999 a 2005. Em 2004 trabalhou como analista da campanha eleitoral de Viktor Yushchenko, líder da chamada “Revolução Laranja” e opositor de Viktor Yanukovich.

Conclusão

Um ano se passou, e tudo mudou para pior. A população no leste vive mal, e a do oeste também. O sonho de uma “nova Ucrânia” defendido por manifestantes durante o Euromaidan não passava de uma série de sombras projetadas na população encavernada pela União Europeia e os EUA, em parceria com seus serviçais em Kiev. Para isso não houveram limites. Reviveram Stephan Bandera, o fascismo e o ultranacionalismo ucraniano. Incendiaram pessoas vivas, destruíram sedes de partidos e espancaram comunistas. Bombardearam e bombardeiam civis, censuram e atacam jornalistas. Não resta alternativa à Ucrânia; ou a Junta de Kiev é derrubada e os planos do Comandante Mozgovoi são colocados em prática, ou um futuro assombroso recairá sobre o país.

Continue lendo

Os conflitos armados de alta intensidade — caracterizados por altos níveis de letalidade (mais de mil vítimas fatais por ano) e graves impactos em termos de deslocamento da população, destruição de infraestruturas e consequências no território — representaram 50% dos casos em 2025. (Foto: Justin Connaher / U.S. Air Force)
2025, o ano com mais guerras da última década
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso em Marietta, na Georgia. (Foto: Molly Riley / White House)
Tarifas por trabalho forçado: o novo engodo de Trump
Tela principal do app de IA Replika (Foto: Reprodução / Replika AI)
Minha namorada é uma IA, e ela me deixou

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel