Pesquisar
, ,

O dia em que Brizola fez Shimon Peres “bater em retirada”

Apaixonado na exposição de seus conceitos políticos e na ideologia que defendia visceralmente, Brizola era um reformista confrontador.

por Fabiano Post | Revista Opera

“Poucos líderes políticos foram tão amados, ou odiados, como Brizola. Para uns, grande herói popular; para outros, um demagogo populista.”

Talvez esse parágrafo, da contracapa do livro “Brizola”, de Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro, seja a epítome sobre a exuberante dimensão da personalidade de Leonel de Moura Brizola, líder do movimento da Legalidade que postergou por três anos o golpe militar no Brasil.

Diga-se que, amado ou odiado, faz falta uma personalidade singular como a de Leonel Brizola no atual, combalido, cenário político brasileiro e principalmente para a desorientada esquerda deste país. Ele era um “amalgamador” das esquerdas e também um implacável autocrítico.

Apaixonado na exposição de seus conceitos políticos e na ideologia que defendia visceralmente, era um reformista confrontador; profundo conhecedor do panorama político, social e econômico do país e dos anseios populares intrínsecos a eles.

Foi virtuoso nos caminhos entre as ideias. Dono de uma exposição oral abundante e retórica fervorosa, ambas, repletas de signos, figurações e expressões gaudérias caricatas, que o tornavam uma personalidade exótica dentro e fora do país, porém sempre estimado e respeitado entre seus aliados e adversários. Sabia colocar os pingos no “is” e pessoas em seus devidos lugares, se necessário fosse, sem a arrogância típica dos comandantes.

O texto que se segue, extraído da obra supracitada, conta a pitoresca história do dia em que Brizola, em uma reunião da Internacional Socialista (IS) na Suécia, no início de 1979, a convite de Mário Soares, então primeiro-ministro de Portugal e seu padrinho na IS, pediu um inesperado aparte e ateou fogo nas tratativas da proposta do chanceler austríaco-judeu Bruno Kreisky para que a OLP (Organização para Libertação da Palestina) de Yasser Arafat tomasse assento como membro observador na IS; a contragosto do então líder do Partido trabalhista de Israel (Ha-Avoda), Shimon Peres.

“Mario Soares havia convidado Brizola a participar, como observador, daquela reunião, e Clóvis Brigagão o acompanhou como assessor e intérprete para o inglês, principalmente. Brigagão costumava resumir bem as falas de Brizola, mas este achava que Clóvis não dava todas as palavras que estavam sendo ditas. E o Brigagão lhe respondia que o inglês é uma língua que reduz muito as frases, mesmo assim sentia-se que Brizola não ficava satisfeito com a explicação. Naquele clima de inverno sueco, o ambiente era demasiadamente tenso. Alguns eram partidários da ideia de se aceitar a entrada da OLP, inclusive Willy Brandt, que presidia a reunião com Kreisky. Outros, como o PS francês de François Mitterrand, não estavam tão firmes em se alinhar com a proposta. Arafat encontrava-se hospedado no mesmo local, mas fora do plenário da reunião, esperando o momento propício para ser convidado a entrar no salão e, como observador, ser homenageado pela cúpula da IS.

A discussão seguia seu curso, uns a favor, outros contra a OLP e Arafat. Durante um intervalo para o café e o descanso necessário, dentro daquele ambiente demasiadamente crítico, Shimon Peres e seus companheiros vieram conversar com Brizola e saudá-lo de forma amigável e até efusiva. Clóvis fez a tradução resumida da conversa para Brizola e parecia que eles estavam em um ambiente fraterno. No final da tarde, todos já bastante esgotados e sem que se chegasse a uma conclusão sobre a entrada ou não da OLP na IS, Brizola, subitamente, levantou a mão e pediu a palavra.

Clóvis lembra-se de ter ficado arrepiado e de ter lhe soprado uma frase:

– Governador Brizola, esse assunto não é…

Mas ele já iniciara sua prosa… Partiu da constatação de que o fenômeno do terrorismo de grupos deveria, sim, ser totalmente condenado e alongava seu discurso – com a tradução de sentido geral e curta que lhe desagradava – com comparações e casos… Até que, passados mais de dez minutos, destacou que havia também que se condenar o terrorismo de Estado, referindo-se ao caso de Israel…

A reação foi instantânea… o grupo dos trabalhistas israelenses, liderado por Shimon Peres, levantou-se de suas cadeiras, abrindo as portas do salão, batendo-as com força e retirando-se do plenário… Alguns membros de outros partidos movimentaram-se pela sala. Bruno Kreisky, que comandava a reunião na mesa central, viu-se diante de uma situação descontrolada. Instalou-se uma confusão e a reunião não mais voltou a ter ordem. A dispersão foi, pouco a pouco, se alastrando e o final foi melancólico, sem que se aprovasse qualquer resolução. Brigagão apenas sussurrou no ouvido de Brizola:

-Governador, esse assunto não era para nosso calibre…

E ele, resposta pronta:

-Mas temos que nos posicionar sobre todos os assuntos que nos interessam.”

O PDT (Partido Democrático Trabalhista) é o único partido brasileiro com assento permanente de membro pleno na IS. Brizola manteve fortes vínculos com a IS até sua morte em 2004.

 

Continue lendo

Os conflitos armados de alta intensidade — caracterizados por altos níveis de letalidade (mais de mil vítimas fatais por ano) e graves impactos em termos de deslocamento da população, destruição de infraestruturas e consequências no território — representaram 50% dos casos em 2025. (Foto: Justin Connaher / U.S. Air Force)
2025, o ano com mais guerras da última década
Imagem do relatório "A Predatory State", do Coletivo Feminista Palestino e da Internacional Progressista, que documenta a violência sexual de Israel contra palestinos desde 1948. (Imagem: Reprodução / A Predatory State)
Como Israel tem usado a violência sexual como arma do colonialismo de 1948 até hoje
"Um mês após nosso noivado, foi anunciado o cessar-fogo de outubro de 2025. Mas, mais uma vez, nada mudou de verdade. Com as viagens de entrada e saída de Gaza praticamente impossíveis, ainda estamos esperando para nos reunirmos." (Imagem: Estúdio Gauche)
Gaza: o amor em tempos de genocídio

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel