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O presidente, Marielle Franco e o Atentado da rua Joaquim Palhares

Da última vez que que o um atentado político ocorreu no Rio de Janeiro, o presidente se suicidando frente à tentativa dos militares em forçá-lo a renunciar.

por Pedro Marin | Revista Opera
(Foto: Iconographia / Reprodução)

Na madrugada do dia 5 de agosto de 1954, em Copacabana, no Rio de Janeiro, tomou forma o famoso Atentado da rua Tonelero. A versão oficial da história conta que o atentado tinha como alvo o jornalista e político reacionário Carlos Lacerda, que acabou com um tiro no pé. O major-aviador Rubens Florentino Vaz, guarda pessoal de Lacerda, no entanto, teve um destino mais dramático, e acabou morto.

19 dias separaram o dia do atentado do 24 de agosto, data em que o presidente Getúlio Vargas – de quem Lacerda era feroz opositor – se suicidou, mudando para sempre os destinos da Nação. É que, nestas duas semanas (não um ano), apurou-se o envolvimento de Climério Euribes de Almeida, membro da guarda pessoal do presidente, e de Gregório Fortunato, chefe da guarda e homem de confiança de Getúlio. Chegou-se inclusive a citar o nome de Lutero Vargas, filho de Getúlio, como mandante. Lutero não foi indiciado.

O fato do presidente nada saber sobre o atentado, e todas as coincidências serem só coincidências – fabricadas ou não – não impediu que no dia 22 daquele mês um grupo de brigadeiros, reunidos no Clube de Aeronáutica, exigissem a renúncia de Getúlio, nem que no dia seguinte (23), a alta oficialidade da Marinha apoiasse a exigência, nem que começasse a circular o “Manifesto dos generais” em que o Exército se alinhava às duas outras armas. Neste mesmo dia, o vice-presidente Café Filho anunciou seu rompimento com Getúlio. No dia seguinte, a bala no peito, o povo na rua, e o Café na mesa presidencial  – por baixo dela, os milicos.

Na noite do dia 14 de março de 2018, na rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, Rio de Janeiro, a vereadora do PSOL Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados em um atentado. Um ano depois, a investigação chegou nos autores dos assassinatos: o sargento reformado da PM Ronnie Lessa, que teria disparado, e o ex-PM Elcio de Vieira Queiroz, que dirigia o carro. Lessa mora no mesmo condomínio em que morava o presidente Jair Bolsonaro no Rio de Janeiro; mais especificamente, três casas à frente. Segundo o delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, sua filha teria namorado um dos filhos do presidente.

A polícia chegou a Lessa por meio de uma denúncia anônima no dia 15 de outubro de 2018. Denúncia prestada por quem? Sem dúvidas uma pergunta relevante. Sem dúvidas uma pergunta sem resposta. Ou melhor: coincidência sem resposta.

Dizia o velho Marx que a história se repete: primeiro como tragédia, depois como farsa. Da farsa em 1954 se fez tragédia. Da tragédia de 2018, que se fará?

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