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Exatamente 18 anos após golpe contra a Venezuela, Pompeo e Abrams alertam que outro está por vir

Apesar das sanções, o governo venezuelano provou ser muito mais capaz de lidar com a pandemia de coronavírus do que o governo Trump.

por Alan Macleod | Mintpress – Tradução de Fabyola Alves para a Revista Opera
(Foto: Gage Skidmore)

No décimo oitavo aniversário do golpe apoiado pelos EUA contra o governo da Venezuela, altas autoridades norte-americanas anunciaram que o povo venezuelano deveria se preparar para outra ofensiva iminente. “O objetivo é substituir a ditadura ilegítima do [presidente Nicolás] Maduro por um governo de transição legítimo que possa realizar eleições livres e justas para representar todos os venezuelanos. Chegou a hora de Maduro ir”, anunciou o secretário de Estado Mike Pompeo.

No sábado, dia 11 de abril, há exatamente 18 anos após os EUA terem apoiado um golpe brevemente bem-sucedido contra Hugo Chávez, o emissário norte-americano da Venezuela e especialista em golpes Elliott Abrams alertou que se Maduro resistisse à implementação do chamado “governo de transição”, sua saída seria muito mais “perigosa e abrupta ”, ameaçando-o efetivamente com outra tentativa de assassinato, como a que os EUA apoiaram implicitamente em 2018.

Os EUA recentemente aumentaram suas sanções contra a Venezuela e enviaram navios de guerra para a região para impor um bloqueio.

A frase “governo de transição” tem sido bastante usada ultimamente; a Casa Branca vem descrevendo o governo Añez da Bolívia como tal. Añez chegou ao poder em novembro graças a um golpe apoiado pelos EUA contra o presidente Evo Morales. Desde então, esse “governo de transição” massacrou manifestantes, tirou a Bolívia de vários tratados internacionais e suspendeu por tempo indeterminado as eleições. Assim, não foi surpresa quando Maduro rejeitou o mesmo destino que seu aliado, Morales. “Nós iremos cuidar da Venezuela”, respondeu ele, “Sr. Abrams, acalme-se.” 

Maduro está bem ciente do histórico de golpes dos EUA em seu país, tendo participado de uma contra-demonstração que derrubou com sucesso o golpe de abril de 2002. Documentos obtidos através da Lei da Liberdade de Informação mostram que os líderes do golpe na época viajaram para Washington várias vezes durante os meses que antecederam o evento, onde receberam aconselhamento e treinamento de autoridades norte-americanas. O financiamento da NED (National Endowment for Democracy) e da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) para os grupos que o realizaram quadruplicou em 2002 e depois quadruplicou novamente em 2003. O governo dos EUA sabia incontestavelmente, pelo menos em 6 de abril, que um golpe conduzido por aqueles que eles vinham financiando e treinando estava prestes a ocorrer. Mas, em vez de alertar o governo, eles imediatamente endossaram os eventos, alegando falsamente que o presidente Chávez havia massacrado seu próprio povo e depois renunciado.

Desde então, Washington nunca mais parou de tentar remover o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) do poder, recusando-se a aceitar a validade das eleições presidenciais amplamente elogiadas em 2013 e 2018, financiando praticamente todo o espectro da oposição doméstica por duas décadas. Várias outras tentativas de golpe menos bem-sucedidas foram cumpridas com no mínimo aprovação tácita norte-americana, incluindo ondas de violência terrorista em 2014 e 2017, uma tentativa de assassinato fracassada contra Maduro em 2018 e quatro outras tentativas de golpe no ano passado pelo presidente autodeclarado Juan Guaidó.

O governo Trump também aumentou as sanções do governo Obama à Venezuela, provocando mais de 100.000 mortes, de acordo com um relator especial norte-americano da ONU que visitou o país, descrevendo-as como semelhantes a um cerco medieval e declarando Trump culpado por crimes contra a humanidade.

O trabalho de vida de Abrams tem sido usar o poder do governo dos EUA – abertamente e secretamente – para derrubar estados soberanos através de golpes, sanções e genocídios. Em seu primeiro dia como Secretário de Estado Adjunto de Direitos Humanos e Assuntos Humanitários durante o governo de Ronald Reagan, em 1981, ele entrou em ação, encobrindo o infame massacre de El Mozote em El Salvador, que foi conduzido por um esquadrão da morte criado, armado e treinado por Washington. Desde então, ele é arquiteto de “guerras sujas”, genocídios e mudanças de regime na Guatemala, Nicarágua, Colômbia e Panamá, entre outros. Como Jon Swartz, do The Intercept, escreveu, “A escolha de Abrams envia uma mensagem clara à Venezuela e ao mundo: o governo Trump pretende brutalizar a Venezuela, enquanto produz uma corrente de retórica untuosa sobre o amor dos Estados Unidos pela democracia e pelos direitos humanos. ”

Quando a deputada Ilhan Omar trouxe à tona parte dessa história durante o Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados de 2019 no ano passado, ele pareceu indignado, quase sem palavras.

Apesar das sanções, o governo venezuelano provou ser muito mais capaz de lidar com a pandemia de coronavírus do que o governo Trump. Mesmo antes de qualquer caso confirmado, Maduro declarou estado de emergência de saúde, cancelando voos estrangeiros e proibindo aglomerações. No dia do primeiro caso, escolas, teatros e restaurantes foram fechados e o uso de máscara tornou-se obrigatório. O governo criou um banco de dados nacional e uma página na web onde cidadãos com sintomas poderiam informar as autoridades sobre sua condição. Mais de 20.000 pessoas que se inscreveram foram imediatamente visitadas por médicos em suas casas. O país registrou apenas 181 infecções e 9 mortes.

Embora os últimos comentários de Pompeo e Abrams sejam uma grave ameaça à soberania da Venezuela, elas não são novidade, pois os venezuelanos ouvem declarações semelhantes há quase duas décadas. Se elas serão bem-sucedidas onde administrações anteriores não foram, ainda resta ver.

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