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O que vem a seguir para Donald Trump?

Assim que abandonar a Casa Branca protestando, Trump lutará contra a irrelevância política e uma montanha de denúncias criminais.

Assim que abandonar a Casa Branca protestando, Trump lutará contra a irrelevância política e uma montanha de denúncias criminais. Por Nicolás Zyssholtz | Notas Periodismo Popular – Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera
(Foto: Gage Skidmore)

Não conseguir um segundo mandato é algo extremamente raro para um chefe de Estado em um sistema presidencialista. Sem ir muito longe, Mauricio Macri foi o primeiro caso sul-americano da história. Nos Estados Unidos isso ocorreu em algumas ocasiões, e em todos os casos aconteceu a mesma coisa: ninguém voltou ao cargo.

Apenas no século XX, William Howard Taft, Herbert Hoover, Gerald Ford (que havia completado o mandato de Richard Nixon), Jimmy Carter e George H. W. Bush fracassaram na busca. O único que continuou sua carreira política de maneira exitosa foi o primeiro, que em 1921 se tornou membro da Suprema Corte de Justiça. Carter, embora nunca tenha voltado a ter peso na esfera local, se converteu em um ator importante a nível global através da sua fundação, voltada para o monitoramento de eleições. Bush, por sua vez, continuou seu legado através dos seus filhos: Jeb, governador da Flórida entre 1999 e 2007, e sobretudo George W., presidente entre 2000 e 2008.

Diante desse cenário, o que espera Donald Trump a partir de 20 de janeiro de 2021? Por definição, a presidência é o auge da carreira de um político estadunidense. Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama, antecessores imediatos de Trump, se aposentaram no final dos seus segundos mandatos. É verdade que os dois primeiros políticos tinham rifado a maior parte do seu capital político, mas o terceiro não.

Embora ainda não tenha aceitado abertamente sua derrota para Joe Biden, a transição já começou e Trump sabe que lhe restam alguns dias na Casa Branca. Deu a entender, inclusive, que buscará ser o candidato republicano em 2024, quando tiver 78 anos.

Além da idade, o presidente cessante enfrenta um problema de difícil solução para conseguir esse objetivo: fora do período eleitoral, a política estadunidense deixa muito pouca margem de movimento para atores por fora do âmbito parlamentar. Ele, que apesar de ter se convertido no líder do Partido Republicano não é um homem do partido, se veria obrigado a construir um espaço por fora.

A primeira opção, a mais óbvia, é voltar ao seu habitat natural, que o tornou uma opção viável para o Salão Oval e que ele nunca abandonou durante o mandato: as redes sociais, especificamente o Twitter. Porém, claro, quatro anos é muito tempo e a rede social do passarinho, que, por ação ou omissão, fez muito pela construção da sua figura política, hoje está em guerra aberta contra Trump. É uma possibilidade real que, uma vez terminado seu mandato, sua conta – que tem 88 milhões de seguidores – seja bloqueada permanentemente.

E então? O submundo da ultradireita na internet é fértil, e sua mensagem tem grande aceitação nesse ramo, mas não deixa de ser um nicho. O contrário, para apelar à massa, seria manter um papel que soube ter durante boa parte do seu mandato: o de orador.

Fox News, o canal de notícias a cabo mais visto do país e usina do pensamento conservador, foi um aliado fundamental ao longo da presidência de Trump e sempre teve um espaço disponível para ele. Porém, na noite das eleições, foi produzida uma ruptura que já era sentida no ambiente. O gatilho foi a decisão do canal de Rupert Murdoch de anunciar que Joe Biden havia vencido a eleição apertada no estado do Arizona.

Sem a Fox ao seu lado, pode ser a chance de realizar um antigo sonho, desde a época em que era uma estrela de reality show: fundar seu próprio canal de televisão. Uma aventura virtualmente impossível em um mercado que, embora seja menos monopólico que o argentino, é muito fechado. Oprah Winfrey, indiscutível diva da televisão estadunidense e uma figura tão ou mais popular que qualquer presidente, lançou em 2010 seu próprio canal; embora tenha sobrevivido, a Oprah Winfrey Network é uma emissora secundária, com um público limitado e incapaz de competir com as grandes redes.

De qualquer forma, a luta de Trump seria para manter sua relevância política ao regressar à terra firme, ou ao mais próximo de uma planície que uma pessoa com a sua biografia possa pisar; mas esse não é o único problema que poderá enfrentar.

Há pelo menos seis processos abertos contra ele. Já sem a imunidade outorgada pela posse presidencial, poderia enfrentar um acontecimento inédito na história estadunidense: ser o primeiro ex-presidente indiciado em um processo criminal.

As possibilidades nesse cenário são amplas: há causas por abuso sexual, por pagar para acobertar esses abusos, por fraude fiscal e fraude imobiliária.

Trump, ao sair protestando da Casa Branca, terá vários caminhos abertos. Provavelmente conseguirá evitar a irrelevância, uma meta que perseguiu durante toda a vida. Sua capacidade de voltar a ocupar um lugar na política é muito mais duvidosa.

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