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Março quente no Paraguai

Em meio à corrupção, pobreza, e colapso na pandemia, povo do Paraguai pede a renúncia do militar e presidente Mario Abdo Benítez.

Em meio à corrupção, pobreza, e colapso na pandemia, povo do Paraguai pede a renúncia do militar e presidente Mario Abdo Benítez. Por Pedro Brieger | Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico – Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera 
(Foto: Alan Santos/PR)

 

No último 5 de março, milhares de pessoas se mobilizaram no Paraguai para pedir a renúncia do presidente Mario Abdo e do seu vice-presidente Hugo Velázquez. A pandemia foi o estopim de uma situação mais geral de pobreza e corrupção que afeta o país governado pelo mesmo partido há décadas. 

A multidão foi para a rua de novo em março, como em 1999, quando ocuparam as ruas para protestar pelo assassinato do vice-presidente Luis María Argaña em plena luz do dia a pedido de alguém do seu próprio partido, o que levou à renúncia do presidente Raúl Cubas Grau, também da mesma sigla. O presidente do Senado assumiu o seu lugar, completando o mandato presidencial até 2003. Todos eles eram da Alianza Nacional Republicana (ANR), mais conhecida como Partido Colorado. Com maiúsculas. 

O Paraguai é um país atormentado por paradoxos. Seu desenvolvimento industrial autônomo no século XIX permitia vislumbrar um futuro luminoso; não contavam, porém, que os seus vizinhos – Argentina, Brasil e Uruguai -, a pedido da grande potência que era a Inglaterra, se juntariam para evitá-lo, no que ficou conhecida como a Guerra da Tríplice Aliança. As sequelas da guerra, que ocorreu há 150 anos, ainda não cicatrizaram e no país ninguém esquece que morreram quase todos os homens que habitavam o solo guarani.

É paradoxal que muitos dos seus vizinhos vejam o Paraguai com desprezo por ser hoje um dos mais pobres da região, em vez de admirar a sua capacidade de resiliência e o fato de serem bilíngues, mesclando o castelhano e o guarani em uma mesma frase, algo pouco comum no mundo. 

Também é verdade que o Paraguai sofreu cerca de 20 golpes de estado no século XX, e que foi governado pelo ditador Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989, uma das ditaduras mais largas do continente, derrubada por Andrés Rodriguez, cunhado de Stroessner e membro do seu partido. De lá pra cá, até hoje, todos os governantes eleitos foram do Partido Colorado – com exceção de Fernando Lugo, deposto por um golpe de estado parlamentar em um julgamento “express” em julho de 2012. Que paradoxo. O único que não era colorado. 

Um outro paradoxo gira em torno da soja. O Paraguai está entre os cinco maiores exportadores do mundo. No entanto, as terras e a riqueza que dela se extraem se concentram em poucas mãos. De nada adianta se gabar por ter um modelo agroexportador se seus benefícios não são compartilhados, e se o sistema sanitário colapsa diante de uma pandemia.

#EstoyParaElMarzo2021 é o slogan mobilizador que relembra o Março Paraguaio de 1999. Agora há vozes que se levantam para pedir um julgamento político contra o presidente e seu vice-presidente. O grande paradoxo é que, depois de décadas de governos do Partido Colorado, é muito possível que uma renúncia de Abdo traga outro governante do mesmo partido. Como em 1999. A história mudará desta vez?

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