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A mensagem dos tanques

A mensagem trazida por tanques a Brasília não era endereçada a Bolsonaro, nem foi só um convite. É uma afirmação de força do Partido Fardado.

A mensagem trazida por tanques a Brasília não era endereçada a Bolsonaro, nem foi só um convite. É uma afirmação de força do Partido Fardado. Por Pedro Marin | Revista Opera
Comboio com veículos blindados e armamentos passa pela Esplanada dos Ministérios. (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

A mensagem que a coluna de tanques, caminhões e jipes entregou nesta terça-feira (10) na Praça dos Três Poderes, em Brasília, obviamente não era endereçada ao presidente Bolsonaro e ao ministro Braga Netto, nem seu conteúdo é resumível a um convite ao exercício militar em Formosa, Goiás, que as Forças Armadas realizarão.

A carta é endereçada às instituições, aos juízes, deputados e senadores; às oposições, de sociais liberais a comunistas; aos partidos, movimentos sociais, sindicatos; aos trabalhadores, pais, mães, crianças e, quem sabe, bichos – com exceção dos gorilas – e árvores – ao menos as que sobraram.

O conteúdo da carta é simples: “Se nada puderam fazer agora, frente aos blindados, o que poderiam fazer amanhã? Que tanques têm os nobres senadores? Apoiando-se em que fuzis proferem as excelências vossas sentenças? O Brasil nos pertence”.

A esta altura pouco importa se seus remetentes buscarão sustentar o presidente em uma aventura golpista ou se distanciarão quando convier, se os vende-pátrias gostam mais de votos impressos ou de urnas eletrônicas, se ex-ministros crêem ou não na possibilidade de um golpe. O recado é que podem forçar e não precisam rogar, como diria Maquiavel.

Indignações parlamentares, protestos editoriais, reprimendas judiciais, frentes amplas, este artigo mesmo: o Partido Fardado declara, e com razão, que nada disso importa. “Na força não existe erro ou ilusão; ela é a verdade manifesta”, como disse Napoleão. Declaram-se senhores da situação, e só a eles cabem vereditos, sejam quais forem. Podem até ser embusteiros, mas o conteúdo do blefe é que ou os calamos à força, ou sob a força nos calam: cobrar o blefe sem ter força também constitui um blefe.

São muitas as razões do passado para o desfile de canalhas no presente. Começam numa “redemocratização” pactuada e tutelada; se estendem num esquecimento conivente do fator militar; respingam na estúpida ideia de que equipar gorilas com brinquedos novos (e novos territórios, como o Haiti) seria suficiente para afastá-los da política; se consolidam na crença de que um “golpismo institucional” não rearranjaria o sistema político por inteiro. Há também razões mais vigentes: a convicção em mágicos “freios e contrapesos”, em “outros tempos” ou numa redenção vinda do norte; a opção da burguesia frente a uma “escolha muito difícil”; presidentes da Câmara que consideram o desfile uma “coincidência trágica” (tragicamente coincidente com o papel das Forças Armadas no Brasil desde 1889); a oposição, enfim, resignada a um papel em que seu ato mais ousado é pedir por uma frente ampla e tudo o que tem a declarar frente aos tanques é: “se tem alguém sério aqui tem que nos ajudar.”

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