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A saudade de Mario Benedetti

Expoente da literatura latino-americana, Benedetti encontrou a morte reconciliado com a vida: sem exílio e abraçado pelos seus no Uruguai.
Expoente da literatura latino-americana, Benedetti encontrou a morte reconciliado com a vida: sem exílio e abraçado pelos seus no Uruguai. Por Federico Dalponte | Notas – Periodismo Popular – Tradução de Fernanda Rosa para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila
(Foto: Casa de América)

Numa longa entrevista, daquelas que se tornam clássicas, Mario Benedetti recordou o primeiro de seus experimentos literários: “É um livro ruim… – disseram-lhe – mas de um bom poeta”.

E então ele tentou de novo. E cada vez melhor. Investiu, colocou dinheiro do próprio bolso, escreveu sobre seu escritório, sobre o mundo que conhecia. Fez-se escritor na força de vontade.

Pertenceu à geração de Juan Carlos Onetti, outro gigante da literatura uruguaia, e contemporâneo também de Eduardo Galeano, cuja simbiose começava com o fanatismo futebolístico pelo Nacional, e terminava com o amor inveterado à causa latino-americana. “O norte é quem ordena, mas o sul também existe”, escreveu certa vez para que nós possamos repeti-lo tantas, outras tantas vezes mais.

Benedetti foi um literato raro, excepcional, desestruturado, com segurança suficiente para jogar com as palavras sem que elas se rebelassem. Dizia o que queria e como queria. Festejou sem disfarces a morte dos ditadores, falou ao Uruguai com a dor do exílio, relatou o amor e suas fases a partir de uma postura contra-hegemônica, escreveu a José Martí, a Salvador Allende, aos desaparecidos. Nesse sentido, a história do personagem sequestrado pela ditadura em sua obra “Primavera num espelho partido” (Companhia das Letras) é essa síntese perfeita do romantismo cru, dolorido, mas também real, atravessado pela vida política. 

Ao mesmo tempo, e na mesma vida, Benedetti foi outro. Teve facetas menos conhecidas. Foi um ensaísta lúcido e vivaz e um recitador apaixonado por sua própria obra – na versão solitária em estúdio de gravação, e bem acompanhado, ao vivo, pelo violão de Daniel Viglietti. E até se deu ao luxo de, no idioma alemão, brincar de ser ator com Eliseo Subiela. A expressão da arte sem limites.

E como se fosse pouco para um mero mortal, Benedetti também foi um jornalista extraordinário. Além de peças históricas, como sua entrevista com o poeta revolucionário Roque Dalton, escreveu numerosas colunas que até hoje surpreendem por sua atualidade. Capitalismo, imperialismo, Guerra Fria, comunismo. Benedetti não deixou um tema por abordar, com o primor de uma escrita incomparável e com o compromisso de um militante da esquerda global. Seu livro “Perplejidades de fin de siglo” evidentemente trata disso. 

Hoje o mundo ainda chora pelo escritor incomparável. Vários anos se passaram desde a sua morte, em 2009, e as palavras do uruguaio ainda fazem falta. Para os que sentem saudade dele, fica o consolo de saber que Benedetti ainda vive em Montevidéu: no bar da rua San José, onde escrevia, no jardim botânico dos apaixonados, ao caminhar pela Avenida 18 de Julho, ao aproximar-se do calçadão para escutar o rio.

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