Pesquisar
,

Índia: governo Modi concede em vitória histórica para os camponeses

A luta dos camponeses na Índia teve um salto dramático em novembro do ano passado, quando 250 milhões de indianos tomaram parte em uma greve geral nacional.

A luta dos camponeses na Índia teve um salto dramático em novembro do ano passado, quando 250 milhões de indianos tomaram parte em uma greve geral nacional. Por Zara Azad | Liberation News – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
(Foto: Randeep Maddoke)

No dia 19 deste mês, o governo de extrema-direita do primeiro-ministro indiano Narendra Modi cedeu, e concordou em revogar três políticas pró-corporativas que haviam sido aprovadas em setembro de 2020 contra os interesses dos trabalhadores agrícolas, após a oposição massiva de centenas de milhões de fazendeiros e trabalhadores rurais da Índia.

O BJP, partido político do primeiro-ministro, está sendo forçado a fazer essas significantes concessões sob a pressão de um movimento de massas que sustentou protestos e ocupações durante um ano inteiro, desde novembro de 2020. Aproximadamente 700 lavradores perderam suas vidas durante essa luta heróica.

A luta dos camponeses na Índia teve um salto dramático em novembro do ano passado, quando 250 milhões de indianos – agricultores e trabalhadores dos setores privado e público – tomaram parte em uma greve geral nacional que talvez tenha sido a maior da história humana. Amplos setores da classe trabalhadora indiana se puseram ao lado dos camponeses em greve.

Desde então, dezenas de milhares de fazendeiros e trabalhadores agrícolas participaram de acampamentos de protesto nas fronteiras da capital da Índia, Nova Delhi, nas condições mais duras – enfrentando frio extremo, chuva e calor em meio a uma pandemia. Esperando a ação do governo, centenas de camponeses morreram durante o ano. O movimento também foi reprimido violentamente pela polícia e submetido à violência da direita.

As ocupações são lideradas pelo coletivo Samyukt Kisan Morcha, que representa mais de 40 sindicatos e associações de trabalhadores. Fundamental para o sucesso do movimento foi a unidade forjada entre camponeses e trabalhadores ao longo de linhas geográficas, religiosas e culturais no processo de construção e avanço da luta.

Apesar do anúncio do governo Modi de que as três leis seriam revogadas, os camponesas continuam a sua luta, já que outras demandas fundamentais permanecem sem resposta. Os líderes do movimento estão sendo cuidadosos, tendo em vista o histórico do BJP em fazer falsas promessas. As três leis ainda precisam ser oficialmente revogadas pelo parlamento em dezembro.

Além da revogação das leis de setembro de 2020 sobre os camponeses, as demandas-chave do movimento incluem a reversão da Lei de Modificação da Eletricidade, para impedir que o setor de energia seja privatizado, e o estabelecimento de um Preço Mínimo de Suporte para todos os produtos agrícolas.

O Preço Mínimo de Suporte é um preço mínimo garantido que o governo pagaria ao comprar safras, independentemente do valor de mercado. Ele é fundamental para aliviar o pesado fardo do endividamento carregado pelos agricultores indianos.

O movimento dos camponeses se transformou em uma força massiva de resistência à agenda neoliberal do governo Modi, que visa dizimar o setor público e privatizá-lo. A vitória contra as leis agrícolas de Modi é uma vitória contra as corporações do agronegócio. No centro deste movimento está a luta dos fazendeiros para manter o controle e a autonomia sobre o setor agrícola do país contra o domínio de corporações estrangeiras e instituições econômicas e políticas lideradas pelo imperialismo.

Sem a determinação absoluta, perseverança, sacrifício e organização militante de milhões de agricultores e trabalhadores indianos, esta primeira vitória não seria possível. À medida que a luta continua, essa luta dos trabalhadores que se desenrola no sul da Ásia serve de inspiração para seus companheiros em todo o mundo.

Continue lendo

Soldados do Exército da República Islâmica do Irã durante desfile militar em setembro de 2011. (Foto: Reza Dehshiri / YPA / Wikimedia Commons)
Nem rendição nem acordo: a guerra no Irã entra na sua terceira semana
O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, durante marcha do Dia da Vitória, em fevereiro de 2017. (Foto: Mohammad Mohsenifar / Mehr News)
O objetivo de Israel no Irã não é apenas a mudança de regime, mas o colapso completo
Cerimônia de chegada do corpo de seis soldados norte-americanos mortos por ataques iranianos no Kuwait. (Foto: Emily J. Higgins / White House)
Washington quer uma saída; o Irã não está abrindo a porta

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina