Pesquisar
,

Peru: Congresso propõe formalmente destituição de Pedro Castillo

Pressionado à direita e dentro de sua própria coalizão no Peru, Castillo enfrenta complexo quadro político de forças divididas, instituições cooptadas e profunda instabilidade.

Pressionado à direita e dentro de sua própria coalizão no Peru, Castillo enfrenta complexo quadro político de forças divididas, instituições cooptadas e profunda instabilidade. Por Instituto Samuel Robinson | Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

Parlamentares de três partidos de direita apresentaram na última quinta-feira, 25 de novembro, perante o parlamento, um pedido de destituição para remover o presidente de esquerda Pedro Castillo, que tem apenas quatro meses no poder, alegando suposta “incapacidade moral” para exercer suas funções.

Detalhes

Com 28 assinaturas, duas a mais do que as necessárias para iniciar o processo ante o plenário do Congresso, a moção de “vacância” foi apresentada por parlamentares dos partidos Avanza País, Fuerza Popular e Renovación Popular, que representam um terço do parlamento.

Mas sua admissão a debate no plenário não está garantida, já que essa etapa exige 40% dos votos a favor entre parlamentares presentes. E para destituir um presidente são necessários 87 votos de um total de 130 parlamentares, informa o jornal El Comercio.

Contexto

A provável destituição de Castillo se dá no terreno fértil da judicialização, sobreposição de poderes e conflito institucional estrutural no Peru.

O parlamento unicameral do Peru é dominado por uma oposição de direita, enquanto o partido governista Peru Libre (marxista) é a primeira minoria, com 37 votos.

A líder da oposição e ex-candidata presidencial, Keiko Fujimori, anunciou na sexta-feira que seu partido, Fuerza Popular, segunda bancada no Congresso (24 votos), apoiará o pedido de impeachment.

“No Fuerza Popular, acreditamos que este governo tem demonstrado uma incapacidade permanente de liderar o país”, disse Fujimori no Twitter.

A extrema-direita do Renovación Popular também apoia a demissão, pela qual convocou uma marcha neste sábado (27).

Crise

A possível destituição de Castillo está no ar desde o dia seguinte à sua eleição, quando os partidos de direita acusaram fraude apesar do endosso eleitoral.

Castillo, que assumiu a presidência em 28 de julho e cujo mandato termina em julho de 2026, é criticado por sua falta de direção e constantes crises ministeriais. Em menos de 120 dias no cargo, ele mudou uma dúzia de ministros e enfrenta divisões na coalizão que o apoia.

Por quê é importante

As tendências de esquerda moderada da coalizão, que não lograram alcançar uma liderança nacional presidencial por seus próprios meios, aliaram-se com o Peru Libre em apoio a Castillo e, uma vez que ele assumiu o poder, pressionaram por várias mudanças no governo para atingir mais cotas dentro dele, aproveitando a composição que resultou no parlamento. Em tese, para solidificar o governo e garantir a estabilidade política do Congresso.

Castillo cedeu em grande medida, mudando de ministros e de posições em questões de política interna e externa, mas seu futuro está em suspenso, pois a fraca coalizão no parlamento será testada contra a possibilidade de vacância que, se falhar, certamente não será a única.

Para justificar suas medidas, Castillo aludiu à “governabilidade” e à união das forças de sua coalizão. Mas, em poucos meses de mandato, diante de uma possível vacância, sua permanência reside no estonteante e complexo quadro político caracterizado por forças divididas, instituições cooptadas e profunda instabilidade. E isso se explica por múltiplas causas, como mudanças nas lealdades, corrupção e posições inconstantes em todos os espectros da política. Por outro lado, o povo peruano, que expressou sua vontade nas urnas, não vê seu mandato representado no parlamento, nem nas manobras e interesses da alta política.

Continue lendo

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante comemoração do 250º aniversário da Marinha dos EUA. (Foto: Daniel Torok / White House)
Por que Trump enviou seus navios de guerra para a Venezuela?
(Washington, DC - EUA 19/03/2019) Presidente da República Jair Bolsonaro assina o livro de visitas da White House. (Foto: Alan Santos/PR)
A Maré de Raiva da extrema-direita latino-americana
Igreja na Cidade de Benin, estado de Edo, na Nigéria. (Foto: David Iloba / Peels)
O mito do genocídio cristão

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina