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O engano do progressismo

Em vez de se contentar com o progressismo e com o que pode ser feito “na medida do possível”, deve-se trabalhar para transformar o impossível em realidade. Ao “mal menor” devemos opor o “bem maior”.
Em vez de se contentar com o progressismo e com o que pode ser feito “na medida do possível”, deve-se trabalhar para transformar o impossível em realidade. Ao “mal menor” devemos opor o “bem maior”. Por Sergio Rodríguez Gelfenstein | Misión Verdad – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
(Foto: Fernando Ramírez / @Fotografoencampana)

Assim como nas décadas de 1970 e 1980, quando a América Latina e o Caribe lutavam para se livrar das ditaduras de segurança nacional made in Washington, o movimento popular da região debate hoje a orientação política e ideológica que guiarão os combates ao neoliberalismo e ao imperialismo. É preciso dizer que isso é muito mais do que um debate teórico.

Apesar da situação hoje ser distinta, tendo em conta o desenvolvimento dialético dos acontecimentos, mais uma vez as forças revolucionárias se enfrentam com a busca por saídas reformistas para a crise. Esse pensamento se agrupa sob as ideias de fazer política “na medida do possível”, ou a satisfação de ter levado ao poder o “mal menor”.

Ambas escondem a incapacidade dos setores políticos mais avançados da sociedade de superar as dificuldades que conduzem à construção de uma alternativa popular e revolucionária. Ninguém poderá dizer que isso ocorre pelo abandono, por parte dos povos, de sua luta pela democracia, a paz e a igualdade. É muito fácil culpar os povos quando na realidade foram algumas elites políticas que paralisaram os processos. É visível o que aconteceu nos últimos anos na região, quando as organizações de esquerda, uma vez conquistado o governo, priorizaram alianças com a burguesia e a direita, deslocando os setores populares para um papel marginal de “objeto” das medidas governamentais, quando na verdade a cota de poder obtida deveria ter sido aproveitada para transformar o povo em sujeito de mudança na sociedade.

No caso do golpe de Estado contra Dilma Rouseff no Brasil, essa situação foi mais que evidente. Depois que a presidente se distanciou do movimento popular, ninguém saiu para defender o PT, seu governo ou ela mesma quando ela foi destituída.

Mas um elemento fundamental que marca a diferença entre o século passado e esse é que aquelas lutas foram desenvolvidas no marco da Guerra Fria e de um mundo bipolar, no qual o padrão ideológica era o que ordenava a política e, portanto, as relações internacionais. Hoje, emergiu uma grande quantidade de movimentos sociais que lutam por reivindicações setoriais, sugerindo que já não há necessidade de uma transformação radical da estrutura social que oprime e exclui as maiorias.

No plano internacional, a política de princípios – típica da Guerra Fria – que emanava da orientação ideológica dos governos, deu lugar ao interesse nacional (que em alguns casos se tornou uma necessidade de sobrevivência) para definir a ação internacional de alguns países.

Assim, na transição das ditaduras para os sistemas de democracia representativa de cunho neoliberal, na maioria dos quais a doutrina da segurança nacional continua presente em grande parte – se não em sua totalidade – como instrumento de dominação e controle do poder pelas elites, os setores reformistas saíram vitoriosos, iniciando processos de perseguição a sindicatos, imprensa livre, organizações sociais e partidos políticos, sob o pressuposto da necessidade de defender o status negociado, aceito e estabelecido que vem sendo chamado de “Estado de Direito”, que funciona apenas para um setor da cidadania.

Em grande medida, isso foi possível pela domesticação de líderes outrora populares, de esquerda e revolucionários que sucumbiram aos encantos da social-democracia europeia e da democracia cristã, que os transformaram em seus aríetes para a destruição de tudo o que cheirasse a revolução e socialismo. Na segunda metade da década de 1980, Washington descobriu com prazer o trabalho que esses partidos europeus haviam feito e acolheu a possibilidade de sair das já desacreditadas ditaduras para dar lugar a opções gatopardianas que mantivessem seus interesses intactos. Nessa medida, aprovava as transições democráticas e até as apoiava com fervor, aplacando a possibilidade de soluções populares para a crise da democracia que havia atingido quase toda a região.

Vale dizer que em meio a essa situação complicada e difícil, Cuba se manteve firme, defendendo seu processo revolucionário e conseguindo – digo isso sem nenhuma retórica – ser um farol que irradiava luz para aqueles que lutavam em toda a região, inclusive aos convertidos domesticados na Europa que se aproveitaram descaradamente da solidariedade da ilha caribenha.

A implantação de governos neoliberais aguçou os conflitos na sociedade cada vez que o capitalismo não foi capaz de resolver as necessidades mais básicas dos cidadãos. O “caracazo” de 1989 na Venezuela e o levante zapatista de 1994 no México – dois países que não estiveram sob a pressão das botas militares no governo – foram uma expressão clara de que o neoliberalismo não poderia estar associado ao domínio direto das forças armadas no poder, mas também a todo o arcabouço jurídico e político que a sociedade capitalista comporta.

Nessas condições, Hugo Chávez surgiu como expressão do povo e de setores militares cansados ​​de serem usados ​​para a repressão e a manutenção da ordem das elites. A vitória eleitoral de 1998 foi o estopim que fez explodir um sentimento e um desejo de transformação que a história fez coincidir na liderança de dirigentes que, em vários países, como disse Cristina Kirchner, “são mais parecidos com seus povos”.

Os evidentes sucessos sociais que, em maior ou menor grau, esses governos obtiveram e que em conjunto permitiram à região avançar em processos de integração que garantiram sua presença e protagonismo no mundo do século XXI, despertaram – mais uma vez – a preocupação da Casa Branca que, mobilizando as oligarquias regionais, a institucionalidade mercenária que não foi removida, os grandes meios transnacionais de incomunicação e as mentes subordinadas da direita, conseguiu deter temporariamente o processo iniciado nos últimos anos do século passado. Desta vez não foi necessário recorrer às Forças Armadas, bastou colocar a mídia e a “justiça” para funcionar enquanto se exacerbavam os conflitos internos entre os setores populares para arruinar tudo o que havia sido conquistado nas três primeiras décadas deste século.

Mas o fluxo neoliberal que voltou ao poder pelas mãos de Macri, Áñez, Bolsonaro, Lenin Moreno, Piñera e outros personagens semelhantes não teve solidez, pois se baseia no aval e apoio dos Estados Unidos na arena internacional e no apoio dado pela gestão da mídia para construir falsas verdades de um lado, além do peso dos militares e policiais que atuam como gendarmes, de outro. No que diz respeito ao aprendizado dos povos, sua consciência e sua capacidade organizativa superior (embora ainda insuficiente), o retorno ao momento do fluxo foi muito mais curto do que o tempo entre a queda de Allende em combate em 1973 e a vitória eleitoral de Chávez em 1998.

Nos últimos anos, uma expressão disso foi a vitória eleitoral de Andrés Manuel López Obrador no México, a volta dos peronistas ao governo na Argentina e do MAS na Bolívia, as vitórias de candidatos progressistas no Peru, Honduras e Santa Lúcia, a derrota do neofascismo no Chile, ao mesmo tempo em que Barbados rompeu com a subordinação pós-colonial da Grã-Bretanha, transformando-se em república e nomeando Sandra Mason como sua primeira presidente. Na mesma lógica, pode-se acrescentar que Lula no Brasil e Petro na Colômbia, candidatos progressistas da oposição, lideram as pesquisas antes das eleições que serão realizadas este ano nos dois países.

Vale dizer – e quero reiterar-lo – que tudo isso foi possível devido à resistência à dominação imperial dos povos de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Se esses países tivessem caído, a avalanche imperial teria passado impiedosamente sobre a América Latina e o Caribe. Isso me faz lembrar de José Martí quando, em 18 de maio de 1895, às vésperas do combate que o levou à morte, em carta a Manuel Mercado, ele dizia: “Já estou todos os dias em perigo de dar minha vida por meu país, e pelo meu dever – posto que o entendo e tenho forças para realizá-lo – de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendam por todas as Antilhas e caíam sobre todas nossas terras da América com mais essa força. Mais de 125 anos depois a situação é a mesma, com a diferença de que Cuba não está mais sozinha.

Mas eis que a direita e principalmente os Estados Unidos também aprenderam, também fazem as contas e também movimentam suas cartas. Assim, eles estão trabalhando para dividir a esquerda e separá-la afim de facilitar sua tarefa, que em nível estratégico visa evitar que a América Latina e o Caribe configurem um bloco de poder mundial.

Nessa medida, um novo perigo espreita os povos da região. Assim como no século passado, se busca a mediatização da luta dos povos para que seus êxitos não ultrapassem as mudanças cosméticas que permitam que as elites continuem ostentando seu poder, enquanto certos setores revestidos com um discurso de esquerda possam seguir fazendo política “na medida do possível”.

Podemos vê-lo no artigo escrito por Andrés Oppenheimer, porta-voz da extrema direita nos Estados Unidos, publicado no Nuevo Herald de Miami em 25 de dezembro, sob o título: “Gabriel Boric liderará uma nova esquerda latino-americana?” O autor cita Heraldo Muñoz, o inefável ministro das Relações Exteriores do governo de Michelle Bachelet – que o autor coloca como próximo de Boric – que teria afirmado que Boric “referiu-se ao regime venezuelano como uma ditadura e criticou a fraude eleitoral na Nicarágua”, acrescentando que: “ele tem convicções bastante sólidas em termos de democracia e direitos humanos.” Feito: os Estados Unidos e a direita chilena certificaram o papel que o novo presidente daquele país terá que desempenhar, não só internamente, mas também internacionalmente.

Mas à frente o artigo destaca: “Boric deverá mostrar independência do Partido Comunista. Seus críticos o pintaram como um jovem inexperiente que será controlado pelo Partido Comunista. Boric perderia muitos de seus eleitores mais moderados se acabasse sendo apenas um bonequinho de um partido da esquerda jurássica”.

O discurso que visa criar uma “nova esquerda” distanciada de Cuba, Nicarágua e Venezuela vem ganhando força, mesmo em setores “progressistas” da região. De autores de orientação “socialista” como o chileno Roberto Pizarro a intelectuais como o brasileiro Emir Sader, de quem não há dúvida sobre sua integridade intelectual, lemos artigos nos quais se apressam a visualizar uma esquerda latino-americana desprendida de Cuba, Nicarágua e Venezuela.

Leia também – Editorial: 2022, mobilização ou paralisia?

A irrupção do “progressismo” como ideia de libertação, embora não seja nova, ganhou força nos últimos tempos. A Internacional Progressista apoiada pelos setores do “imperialismo de esquerda” nos Estados Unidos que aspiram a devolver seu país ao caminho da “democracia” e da justiça social, a fim de tornar o império mais eficiente em sua intenção de subjugar à mundo, assumiu a batuta desta corrente.

Não devemos esquecer que a ideia de progresso surgiu da possibilidade que se dá à transformação da sociedade de forma gradual. Na realidade, o progresso deve levar à libertação total do ser humano das forças que o oprimem. Enquanto isso não for proposto, é um conceito vazio e enganoso. A Internacional Progressista teve sua contraparte na América Latina e no Caribe no “Grupo de Puebla”, que, embora conte com a participação de distintos e ilustres líderes políticos da região, gera dúvidas por ser é liderado por um mercenário chileno de reputação muito duvidosa que fez do “progressismo” um negócio e que mantém amizades próximas ao mesmo tempo com altas lideranças do chavismo, e com o ex-presidente Mauricio Macri. Suspeitamente, em nenhum dos dois casos participam cubanos, venezuelanos ou nicaraguenses.

Mais uma vez, levanta-se a disputa ideológica sobre o caminho que a América Latina e o Caribe terão que percorrer. Ou nós nos contentamos com o “mal menor” ou somos capazes de construir uma força política e social que produza as mudanças profundas que a sociedade precisa. Em vez de se contentar com o que pode ser feito “na medida do possível”, deve-se trabalhar para transformar o impossível em realidade. Como eu disse em um artigo anterior citando um amigo, ao “mal menor” devemos opor o “bem maior”.

Isso significa que nosso esforço deve ser direcionado para jogar em nosso campo, não naquele que o inimigo nos impõe. Em um momento em que muitos não querem se posicionar e a política se destina a ser definida entre a centro-direita, centro-esquerda ou centro, cabe aos setores mais avançados da sociedade construir o novo cenário de combate, como aconteceu nas ruas do Chile e da Colômbia.

O futuro libertador dos povos não está no progressismo. Está e continuará estando na revolução. Entendo que no caminho da vitória as alianças táticas devem ser feitas para unir forças, mas elas só terão esse caráter se forem assumidas a partir da hegemonia e do poder. Qualquer aliança construída a partir da fraqueza ou subordinação leva à subordinação dos interesses populares a outros, de setores ou grupos minoritários.

Espera-se que aqueles que assumem essas posições de mediação entendam a diferença entre os conceitos de estratégia e tática e os apliquem corretamente, sem esquecer que errar em sua aplicação leva a erros dolorosos de dimensões imprevistas para o movimento popular.

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