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Sanções de Biden ao Afeganistão ameaçam matar mais civis que 20 anos de guerra

Com mais da metade da população do Afeganistão sofrendo insegurança alimentar aguda, as sanções de Biden podem matar mais que as bombas.

Com mais da metade da população do Afeganistão sofrendo insegurança alimentar aguda, as sanções de Biden podem matar mais que as bombas. Por Mark Weisbrot | CEPR – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
Um garoto afegão no campo de refugiados em Mazar-i Sharif, em 2001. (Foto: ONU / Luke Powell)

Quando o presidente dos EUA, Joe Biden, decidiu retirar os soldados norte-americanos do Afeganistão no ano passado, muitos veículos de imprensa o apedrejaram. Os republicanos juntaram-se à tendência, dizendo que a retirada foi um “desastre absoluto”.

Mas sair do Afeganistão foi o certo a ser feito.

Na realidade, o verdadeiro erro é o oposto: a administração Biden não acabou com a guerra, mas a continuou por outros meios, que estão se mostrando ainda mais violentos e desestabilizadores. As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e seus aliados estão causando fome generalizada e severa neste país desesperadamente pobre.

7 bilhões de dólares em reservas do banco central

A não ser que essas sanções sejam revertidas em breve, se estima que mais pessoas morrerão de seu impacto econômico no próximo ano do que o número de mortos em 20 anos de guerra.

A sanção econômica mais destrutiva é o confisco, por parte dos EUA, de 7 bilhões de dólares em reservas internacionais pertencentes ao banco central do Afeganistão. Essas reservas são necessárias para importações de itens essenciais, como comida e remédios, mas também para que o banco central afegão possa manter a estabilidade econômica e o sistema financeiro funcionando.

Grupos de ajuda humanitária tentando distribuir comida e salvar a vida das pessoas não podem, em muitos casos, mover os fundos necessários, e o sistema de saúde tem colapsado.

Dados do Banco Mundial divulgados em fevereiro mostram que os preços dos alimentos aumentaram a uma taxa anual estimada de 40% desde agosto do ano passado, colocando os alimentos fora do alcance de muitos afegãos pobres.

Crianças “em risco de morte por desnutrição aguda grave”

Como resultado dessa perturbação econômica, que inclui a perda de bilhões de dólares em ajuda humanitária, 22,8 milhões de pessoas – mais da metade da população afegã – estão enfrentando insegurança alimentar aguda. Isso inclui um milhão de crianças menores de 5 anos que estão “em risco de morrer por desnutrição aguda grave”, de acordo com a UNICEF.

Não está claro por que razão o governo Biden impôs sanções tão devastadoras ao Afeganistão. As sanções não parecem ter como objetivo derrubar o Talibã. Em vez disso, pode ser que o governo Biden, após sua má experiência política com a retirada militar, não queira correr o risco de parecer “suave” com o Talibã.

Trata-se de um erro de cálculo político, bem como um erro moral. Os efeitos letais das sanções norte-americanas contra outros países têm sido majoritariamente ignorados porque as sanções são amplamente mal interpretadas como formas de punir governos, em vez de populações inteiras. Mas o caso do Afeganistão está começando a corrigir essa má compreensão.

As organizações humanitárias mais influentes estão explicando a sombria cadeia de causalidade sobre a população.

David Miliband, ex-secretário de Relações Exteriores britânico e chefe do Comitê Internacional de Resgate, que tem 3 mil funcionários no Afeganistão, disse ao Senado dos EUA no mês passado: “A causa imediata dessa crise de fome é a política econômica internacional adotada desde agosto, que cortou os fluxos financeiros não apenas para o setor público, mas também para o setor privado no Afeganistão”.

Durante a mesma audiência no Senado, Graeme Smith do International Crisis Group disse aos senadores: “Vocês precisam abordar a razão pela qual as pessoas estão com fome, que é o colapso da economia, principalmente devido às restrições econômicas ocidentais”.

Familiares das vítimas do 11 de setembro

No dia 11 de fevereiro, a administração Biden lançou uma ordem executiva para alocar os fundos do banco central do Afeganistão: metade deles (3,5 bilhões de dólares) seriam usados em “benefício do povo afegão”, e a outra metade seria para as famílias das vítimas do atentado terrorista de 11 de setembro, que aguardam o resultado das ações judiciais.

Em outras palavras, nada dos 7 bilhões de dólares que Washington está segurando seria devolvido ao banco central. Dessa forma, o governo continua com a destruição da economia afegã e a consequente fome em massa. Nenhuma ajuda externa compensará isso e, até agora, não está claro como o povo afegão se beneficiará dos  3,5 bilhões de dólares reservados para ele.

Quanto aos processos pendentes, isso parece ser uma distração política. As questões legais não estão resolvidas e podem levar anos para o serem. Quantas pessoas pobres no Afeganistão deveriam morrer para proteger o governo dos EUA da possibilidade de acabar tendo que fazer um pequeno acréscimo ao seu orçamento para essa compensação? Parentes de vítimas do 11 de setembro que falaram publicamente sobre essas questões disseram, enfaticamente, que não querem tirar dinheiro das pessoas no Afeganistão.

Terreno fértil para terroristas

A Human Rights Watch imediatamente criticou a ordem executiva, notando que “as restrições ao sistema bancário” estão “intensificando a já séria crise de direitos humanos no país”. Outros grupos e especialistas preocupados com questões humanitárias também fizeram declarações.

Se o Afeganistão continuar a cair neste pesadelo de fome, sofrimento e morte, o governo Biden não escapará sem culpa por isso, assim como pela crise dos refugiados. Estima-se que mais de um milhão de afegãos tenham fugido desde agosto.

A administração Biden também será culpada se o resultado for um estado falido que permita o estabelecimento de um centro de atividade e recrutamento terrorista, como ocorreu na Síria quando da emergência do Estado Islâmico. Cerca de 50 membros do Congresso avisaram Biden em uma carta que o colapso econômico do Afeganistão em decorrência das sanções dos EUA “pode criar espaços sem governo, e habilitar ressentimentos contra os EUA, produzindo um terreno fértil para grupos como o ISIS ganharem força”.

Evidentemente, a razão mais importante para pôr um fim a esse pesadelo é o fato dessas sanções estarem pondo em risco a vida de centenas de milhares, possivelmente milhões, de pessoas inocentes.

Mas se há figuras na administração Biden olhando à questão em termos estritamente políticos, os riscos políticos decorrentes da destruição da economia afegã são muito maiores que qualquer possível consequência das reclamações republicanas sobre a devolução dessas reservas. Que, afinal, pertencem ao banco central e aos afegãos.

Quanto mais rápido isso for feito, junto do descongelamento do dinheiro do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, mais rápido a economia afegã poderá ser recuperada – como David Beasley, líder do Programa Alimentar Mundial, notou. E mais civis – especialmente crianças, que são desproporcionalmente mortas pela escassez severa de alimentos – poderão viver.

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