Pesquisar

Os neoliberais não gostam do livre mercado, só querem que você acredite que gostam

Os neoliberais não têm problema algum com todo tipo de intervenção governamental que redistribua os rendimentos para cima. Eles só se enfurecem se a intervenção visa redistribuir daqueles que estão no topo para o resto de nós.

Os neoliberais não têm problema algum com todo tipo de intervenção governamental que redistribua os rendimentos para cima. Eles só se enfurecem se a intervenção visa redistribuir daqueles que estão no topo para o resto de nós. Por Dean Baker | CEPR – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
Bolsa de Valores de São Paulo. (Foto: Rafael Matsunaga)

Foi bastante frustrante ler um perfil recente de Noam Scheiber, no The New York Times, sobre Jaz Brisack, a jovem responsável por liderar a primeira campanha sindical bem-sucedida em uma loja da rede de cafés Starbucks. Brisack parece ser de fato uma pessoa impressionante, e é bom vê-la recebendo a atenção que seus esforços merecem. No entanto, Scheiber arruina seu perfil ao repetidamente escrever aos leitores que os neoliberais, que dominaram o debate político nas últimas décadas, querem o livre mercado. Nada poderia estar mais distante da verdade.

Vou começar a discussão pelo apoio deles à propriedade intelectual. Os monopólios de patentes e direitos autorais concedidos pelo governo dos EUA transferem várias centenas de bilhões de dólares anualmente de todos nós para os 10% mais ricos, especialmente para os 1% mais ricos. Bill Gates ainda estaria trabalhando por um salário todo mês se o governo não tivesse ameaçado prender qualquer um que fizesse cópias dos softwares da Microsoft sem a sua permissão.

Temos também a questão do “livre comércio”. Os neoliberais tornaram uma prioridade máxima facilitar tanto quanto possível a importação aos EUA de produtos manufaturados baratos de países em desenvolvimento. Isso custa milhões de empregos industriais internamente, e pressiona para baixo os salários de trabalhadores sem formação superior em geral.

Em contraste, se você defender a remoção de barreiras que dificultam que médicos estrangeiros atuem nos Estados Unidos, a maior parte dos neoliberais se tornarão magicamente estúpidos, como se não soubessem o que “livre comércio” significa. Os neoliberais alegremente apoiam a redução de barreiras de comércio que protegem os salários dos trabalhadores menos escolarizados, mas quando se tratam das barreiras que sustentam o pagamento de pessoas como eles, eles se tornam os maiores protecionistas.

O setor financeiro é outro exemplo. Quando as pessoas compram roupas e comida, na maior parte dos lugares, elas pagam impostos. Mas isso não se aplica quando se trata de compra de ativos financeiros. Suponhamos que nós acabássemos com o tratamento especial dispensado ao setor financeiro, impondo uma taxa bastante modesta de 0,1% sobre a venda de ações e outros ativos financeiros. Isso reduziria radicalmente os ganhos dos ricos de Wall Street, ao mesmo tempo que teria um impacto mínimo na capacidade do setor financeiro de realizar seus propósitos produtivos.

Também não é muito compatível com o “livre mercado” conceder ao Facebook e a outros gigantes de mídias sociais proteção contra processos de difamação que os meios de comunicação impressos e de televisão não desfrutam. Mark Zuckerberg e outros membros do Facebook seriam muito mais pobres sem essa proteção, mas nós nos aproximaríamos do “livre mercado” ao extingui-la.

 Leia também – O neoliberalismo em moratória 

Eu poderia prosseguir com muitos exemplos (veja outros em meu livro, Rigged) mas o ponto já está claro. Os neoliberais não têm problema algum com todo tipo de intervenção governamental que redistribua os rendimentos para cima. Eles só se enfurecem quando os governos intervêm de forma a redistribuir daqueles que estão no topo para o resto de nós.

É compreensível que eles queiram parecer grandes defensores do livre mercado. Afinal, soa muito melhor dizer que você favorece o livre mercado do que dizer que você é a favor de redistribuir as riquezas dos pobres e da classe trabalhadora para os ricos e milionários.

Mas a autodescrição dos neoliberais não é precisa, e pessoas como Scheiber não deveriam estar repetindo-na. Os neoliberais precisam ser expostos pelo quê realmente são.

Continue lendo

Uma guerra séria contra a economia das drogas começaria em Washington, em Wall Street e nas lojas de armas do sul dos EUA. (Foto: Shane McCoy / US Marshals)
A “Guerra às Drogas” teve mais a ver com guerra do que com drogas
Entre 2011 e 2019, Cuba passou por mudanças significativas por meio das reformas impulsionadas. No entanto, essas mudanças não trouxeram a dinamização necessária para a economia, mas sim o aprofundamento das assimetrias sociais, fenômeno que se articulou com o próprio descumprimento das metas de transformação propostas. (Foto: Pedro Lastra / RawPixel)
O ser ou não ser das reformas em Cuba
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso em Marietta, na Georgia. (Foto: Molly Riley / White House)
Tarifas por trabalho forçado: o novo engodo de Trump

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel