Pesquisar
,

A Rússia é a real razão para o Mali continuar a se afastar da França?

Uma nova onda anticolonial se estende pelas antigas colônias da França no Sahel, onde os debates se centram em romper com o domínio francês sobre suas economias e pôr fim à intervenção militar.

Uma nova onda anticolonial se estende pelas antigas colônias da França no Sahel, onde os debates se centram em romper com o domínio francês sobre suas economias e pôr fim à intervenção militar. Por Vijay Prashad | Globetrotter – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
Um soldado inglês opera uma metralhadora em um CH-47 em apoio à Operação Barkhane, liderada pela França, na região do Sahel. 29/03/2021. (Foto: UK MOD / Flt Lt Andy Donovan)

No 21 de novembro de 2022, o primeiro-ministro interino do Mali, coronel Abdoulaye Maïga, informou, via redes sociais, que o Mali decidiu “proibir, com efeito imediato, todas as atividades realizadas pelas ONGs que operam no Mali com financiamento ou apoio material ou técnico da França”. Alguns dias antes, o governo francês cortou a Ajuda Oficial para o Desenvolvimento (AOD) ao Mali por considerar que seu governo está “aliado aos mercenários russos do [Grupo] Wagner”. O coronel Maïga declarou que se tratam de “acusações fantasiosas” e um “subterfúgio destinado a enganar e manipular a opinião pública nacional e internacional”.

Durante 2022, as tensões entre França e Mali aumentaram. Em 2013, a antiga potência colonial regressou ao Mali com uma intervenção militar para combater o aumento da insurgência islamista na metade norte do país; em maio de 2022, o governo militar do Mali expulsou as tropas francesas. Essa decisão ocorreu após vários meses de acusações entre Paris e Bamako, que refletiam o aumento do sentimento antifrancês em toda a região africana do Sahel.

Uma nova onda anticolonial se estende pelas antigas colônias da França, onde os debates se centram em romper com o domínio francês sobre suas economias e pôr fim à intervenção militar. Desde 2019, os países que fazem parte da União Econômica e Monetária da África Ocidental e da Comunidade Econômica e Monetária da África Central foram retirando o controle francês sobre suas economias (por exemplo, em 2020, a França anunciou oficialmente que, para a África Ocidental, poria fim à obrigação dos países de depositar a metade de suas reservas de divisas no Tesouro francês através do antigo instrumento colonial do franco CFA). Segundo uma reportagem que circulou na África Ocidental e no Sahel – sustentada em um email enviado por um “assessor não-oficial” da ex-secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton –, uma das razões pelas quais o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, quis derrubar Muammar Gaddafi em 2011 foi o fato do líder líbio ter proposto uma nova moeda africana no lugar do franco CFA.

A França nega que o motivo desta tensão com o Mali se deva ao novo estado de ânimo anticolonial, atribuindo-a à proximidade do Mali com a Rússia. O exército do Mali tem estreitado cada vez mais seus laços com o governo e exército russos. O ministro da Defesa, coronel Sadio Camara, e o chefe do Estado Maior da Força Aérea, general Alou Boï Diarra, estão sendo considerados os “artífices” de um acordo alcançado em 2021 entre os militares malineses e o grupo Wagner para introduzir centenas de mercenários no Mali no contexto da campanha contra os grupos jihadistas.

Os soldados do grupo Wagner estão no Mali, mas não são a causa das desavenças entre Paris e Bamako. O temperamento anticolonial é anterior à entrada do grupo Wagner, que a França utiliza com desculpa para ocultar sua humilhação.

Continue lendo

Igreja na Cidade de Benin, estado de Edo, na Nigéria. (Foto: David Iloba / Peels)
O mito do genocídio cristão
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. (Foto: Official White House Photo / Daniel Torok)
Sobre a Doutrina Miami
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. (Foto: Daniel Torok / White House)
O Caribe tem duas opções: juntar-se à tentativa dos EUA de intimidar a Venezuela ou construir sua soberania

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina