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Comunicação e política revolucionária (parte II)

A construção e coordenação harmônica de um intrincado aparato editorial, composto por uma ampla rede de veículos de propaganda, é um dos desafios da comunicação revolucionária.
A construção e coordenação harmônica de um intrincado aparato editorial, composto por uma ampla rede de veículos de propaganda, é um dos desafios da comunicação revolucionária. Por Jones Manoel | Revista Opera
Um trabalhador gráfico lê uma edição recém-impressa do jornal “Pravda”.

No artigo passado refletimos, de um ponto de vista conceitual, os problemas da agitação e propaganda, visando a construção da Revolução Brasileira. Neste artigo, tocando em questões mais concretas, vamos examinar um problema específico: a agitação e propaganda no âmbito da internet. Este artigo, assim como o anterior, não é totalmente original. Mais uma vez, usamos como base um escrito do camarada Gabriel Landi, fazendo algumas poucas modificações.

A primeira questão a ser posta é que o problema deve ser examinado a partir de uma perspectiva leninista e não de um abstrato “uso progressista” das redes. Assim, para compreender a importância desse tema, devemos demarcar com nitidez o nosso ponto de vista. Os camaradas do Party for Socialism and Liberation resumiram bem a questão (em um artigo que deve ser referência obrigatória para todo militante em nossa época):

“As mídias sociais representam desafios consideráveis para a forma do partido leninista e para o movimento socialista em geral. Elas criam um potencial ilimitado para comunicações horizontais entre membros, para fofocas e insinuações no interior do movimento e para a vigilância da vida dos membros (orientação política, estado de ânimo, finanças, atividades românticas, etc). Também difundem o espontaneísmo na comunicação do Partido (em comparação com publicações impressas, que são criadas, produzidas e distribuídas centralmente por uma liderança destacada). Ao contrário de um jornal, as redes sociais permitem que os membros escolham quais artigos querem distribuir, escrevam suas próprias manchetes acima das manchetes do Partido e distribuam seus próprios artigos, escritos por eles mesmos ou por outros, sem qualquer discussão e avaliação coletiva do Partido.”

As questões organizativas em torno da comunicação revolucionária têm grande importância teórica e prática para aquilo que conhecemos como leninismo. Em Que fazer?[1], Lênin defende que devemos “recusar o apelo imediato à ofensiva” revolucionária e, antes, “exigir a concentração de todos os esforços para recrutar, organizar e mobilizar um exército permanente”. Para tanto, “a atividade essencial de nosso Partido, o palco de sua atividade, deve consistir em um trabalho que seja possível e necessário tanto nos períodos de explosões mais violentas como nos de calma absoluta, isto é, deve consistir em um trabalho de agitação política unificada para toda a Rússia, que ilumine todos os aspectos de vida e dirija-se às massas em geral”.

Na época em questão, Lênin destaca que esse trabalho seria inconcebível “sem um jornal que interesse a todo o país e apareça com bastante frequência”. Portanto, “a organização a ser constituída por si mesma em torno desse jornal, a organização de seus colaboradores (no sentido amplo de palavra, isto é, todos aqueles que trabalham para ele) estará pronta para tudo, para salvar a honra, o prestígio e a continuidade no trabalho do Partido nos momentos de grande ‘depressão’ dos revolucionários, e para preparar, determinar o início e realizar a insurreição armada do povo”.

Lênin compreendeu a relação entre o desenvolvimento espontâneo da luta de classes e a formação da consciência de classe revolucionária: apenas assentando a organização dos revolucionários sobre as bases de um trabalho coordenado de luta ideológica seria possível, por um lado, assegurar a firmeza ideológica de todo o trabalho comum na luta política e econômica, contribuindo para a elevação da consciência de classe do proletariado a um patamar revolucionário (e disso decorre o princípio da máxima centralização da propaganda em torno do Órgão Central); e, por outro lado, aprimorar o próprio nível organizativo dos revolucionários. Daí a concepção do jornal como organizador coletivo e agitador-propagandista coletivo.

Uma tal obra de construção partidária em torno de um jornal asseguraria a constituição de uma rede de agentes “que se formasse por si própria trabalhando para a criação e a difusão de um jornal comum”. Ao mesmo tempo, reforçaria os laços com as massas operárias, em geral, e com todas as camadas da população descontentes com a ordem vigente. Uma ação assim concebida buscava ensinar a todos os organismos do partido revolucionário, em todos os pontos da imensa Rússia, a manter entre si relações mais regulares e, ao mesmo tempo, mais clandestinas; relações estas que dariam origem à efetiva unidade de ação do partido; uma unidade sem a qual seria impossível discutir coletivamente o plano de insurreição e tomar, às vésperas dessa insurreição, as medidas preparatórias necessárias – que deveriam ser mantidas no mais rigoroso sigilo (tanto quanto a estrutura logística de distribuição desse jornal revolucionário).

Contudo, ao longo do século XX, a humanidade revolucionou seus meios de comunicação em uma escala sem precedentes, o que teve graves consequências para o jornalismo da “Era da Prensa”. Devemos ter em nossas mentes que Lênin formulou seu plano de organização revolucionária em torno de um jornal impresso, em uma época em que a prensa de Gutenberg ainda representava a mais avançada forma de produção em massa de comunicação existente. No século posterior, a disseminação do rádio, cinema e televisão forneceu à classe burguesa armas ainda mais poderosas na divulgação de sua visão de mundo e de seus valores.

No entanto, a emergência desses meios de comunicação não podia ter, ainda, nenhum impacto modificador sobre as concepções leninistas de organização. Por quê? Porque os custos incomparavelmente maiores da produção e da difusão audiovisual (além da regulamentação estatal mais restrita sobre a rádio e a TV no espaço aéreo nacional) impediam, sobre as bases da propriedade privada dos meios de produção, que a classe trabalhadora se apoderasse sistematicamente desses novos meios de comunicação e fizesse deles uma ferramenta tão cotidiana quanto o mimeógrafo. Quando muito, tomando de assalto o controle de emissoras, organizações de vanguarda puderam veicular comunicados (como a Rádio Libertadora) ou transmitir comandos (como na Revolução dos Cravos). Diversas rádios comunitárias surgiram e desapareceram ao longo dessa época, sem qualquer papel de destaque na organização política em âmbito mais geral, nacional; os canais de televisão ficaram reservados, quando muito, aos sindicatos mais conciliadores e legalizados, integrados ao Estado burguês. A organização da militância revolucionária seguiu baseando-se firmemente no jornalismo impresso leninista, a despeito das dificuldades imensas em fazer frente, por esses meios, ao arsenal audiovisual da classe dominante.

Quando fala em “crise do jornalismo”, a burguesia, em especial aquela da indústria da comunicação, está falando na crise do “modelo de negócios” do jornalismo impresso. O surgimento da internet e das mídias digitais desembocou na necessidade de revolucionar tecnicamente seus meios de distribuição da comunicação escrita. A burguesia responde a “crise do jornalismo” com demissões em massas nas redações; reorientação de seus modelos de arrecadação publicitária; flexibilização dos manuais de procedimentos jornalísticos a fim de responder à velocidade não mais diária, mas instantânea, da produção e difusão de comunicação na internet, etc.

Mas também a imprensa proletária, em especial a imprensa revolucionária, sofre os efeitos da crise que a internet (e as mídias digitais, redes sociais, etc.) faz pesar sobre o jornalismo impresso. Ocorre que, no nosso caso, o significado desta crise é completamente distinto.

Vejamos, por exemplo, a questão da produção de conteúdo audiovisual. Para a burguesia, essa questão se solucionou há muito com maciços investimentos na compra de equipamentos e da força de trabalho de especialistas técnicos, atores, roteiristas, etc. Para as organizações políticas proletárias, contudo, essa questão se coloca a uma escala significativa apenas hoje, com o barateamento dos meios de produção desses conteúdos mas, principalmente, dos meios de difusão (que não mais dependem de gigantescas antenas transmissoras, mas apenas da inserção e veiculação mediante redes sociais e páginas virtuais). É natural, portanto, que estejamos realizando, agora, tarefas (práticas e teóricas) que a classe burguesa pôde começar a solucionar a seu favor há muitas décadas.

A questão é especialmente problemática do ponto de vista organizativo. Nesse plano, para a burguesia, as questões são de uma envergadura menor, demandando recalibragens marginais: uma recomposição quantitativa e qualitativa da força de trabalho na indústria da comunicação, o abandono de determinadas técnicas em favor de outras, etc. Isso porque, no essencial, a crise do jornalismo burguês não põe em questão as relações entre os proprietários privados dos meios de comunicação e os produtores de comunicação assalariados e pequeno-burgueses. No processo de produção e difusão da comunicação, permanece valendo a regra da subsunção real e formal do trabalho ao capital como forma de organização do trabalho. Modificam-se os trabalhos concretos, mas não as formas gerais das relações de trabalho (em poucas palavras: o patrão manda e os empregados obedecem).

A imprensa revolucionária, por outro lado, nunca se baseou nessa dinâmica. Ao contrário, e isso mesmo no auge da profissionalização do jornalismo militante, a imprensa partidária comunista sempre se baseou na organização, centralizada por um órgão ideológico nacional, de uma imensa rede de colaboradores (tanto redatores quanto distribuidores). Com o advento da internet, contudo, as facilidades abertas à produção e difusão individual criam enormes dificuldades organizativas.

Nas décadas precedentes, um publicista que almejasse ver um artigo seu difundido entre seus camaradas trabalhadores em escala nacional deveria, antes de tudo, submetê-lo ao órgão central de uma organização, que servia como organizador da homogeneidade ideológica e da polêmica partidária. O distribuidor, por sua vez, não tinha a opção de difundir apenas este ou aquele artigo de sua preferência, e ainda pior: escrever manchetes suas em conjunto com o artigo difundido (como se faz nas redes sociais).

É justo afirmar, portanto, que aquilo que hoje é chamado de “crise do jornalismo” atinge todas as classes da sociedade burguesa, ainda que de maneiras distintas. O resultado dessa crise do jornalismo impresso, portanto, é para os leninistas uma combinação de crescentes oportunidades em nossa difusão e, ao mesmo tempo, graves dificuldades organizativas ao nosso trabalho comum de agitação e propaganda. Ainda que muitas vezes esse trabalho não centralizado seja promovido com firmeza estratégica e espírito de partido, segue sendo problemático do ponto de vista dos métodos o ainda insuficiente planejamento e execução coletiva desse trabalho (do ponto de vista da utilização do jornalismo revolucionário como meio de organização de nosso trabalho comum). Não se trata, evidentemente, de impor a abstenção aos propagandistas partidários que já realizam de forma bem-sucedida esse trabalho na internet. Se trata, ao contrário, de dar suporte coletivo e organizado a esse trabalho deles e de muitos outros propagandistas que cada organização política precisa formar neste âmbito, nos marcos de um planejamento e de uma divisão do trabalho comum. E, com isso, inclusive, ampliar a organicidade entre os publicistas proletários que atuam nestas mídias, mas ainda seguem politicamente desorganizados.

No entanto, para além desses problemas mais propriamente partidários com os quais os leninistas se deparam na comunicação virtual, há mais um outro que vitima todos os comunicadores, sejam aqueles que militam em um partido democraticamente centralizado ou aqueles que concebem de forma distinta de nós, leninistas, a questão organizativa: o problema da dependência em relação aos intermediários. Facebook, Youtube, Instagram, Twitter, cada um desses é em si uma empresa capitalista, com seus próprios interesses e liberdades.

Quem acompanha as experiências de cerceamento virtual aos conteúdos produzidos pela TeleSur e outras fontes ligadas aos governos de Venezuela, Rússia, etc. sabe suficientemente bem que as redes sociais não são uma mera “esfera pública” horizontal, como acreditam os liberais, pós-modernos e liberais de esquerda. São, ao contrário, meios privados, e propriedade de meia dúzia de monopólios midiáticos (normalmente dos Estados Unidos, um braço da política externa do imperialismo). Em outras palavras: permitem a “qualquer um” acessar amplos públicos, mas sempre pela intermediação de uma empresa com completo acesso às nossas comunicações e poder de cerceamento delas, mediante critérios nada transparentes. São, além disso, empresas que passam a possuir nossos dados, nossa localização, etc.

Podemos dar por certa uma limitação estrutural desses meios para a difusão de uma comunicação revolucionária. Seus algoritmos beneficiam a difusão de fontes alinhadas aos monopólios da comunicação, ou financiadas fartamente por empresas, e a qualquer tempo esses monopólios podem unilateralmente decidir pela nossa censura. A fórmula é simples: aproveitar ao máximo as oportunidades oferecidas pela internet, mas nunca esquecer o papel imperialista e burguês desses monopólios da comunicação.

É preciso que haja, entre os revolucionários, determinadas políticas de segurança digital. Isso é um fato. Mas essas políticas de segurança não podem impedir a amplitude de nossa comunicação nesses meios e, ainda que necessárias, não devem também superestimar os riscos desses meios. O risco de ter nossas comunicações expostas a esses monopólios atinge especialmente questões logísticas – geolocalização de aparelhos, de quadros dirigentes, informações operacionais sobre planejamento de ações sigilosas, etc. É preciso limitar ao máximo a disponibilidade de informações nossas desse tipo para tais veículos, aproveitando-os ao mesmo tempo para a difusão de nossas proposições e de nossa teoria – sem perder de vista a necessidade de sua expropriação e socialização democrática (a Revolução Brasileira terá, como uma de suas tarefas centrais, limitar ao máximo a atuação desses monopólios e criar veículos nacionais de comunicação e uso das ferramentas da internet).

Por isso mesmo, também, rechaçamos a tendência ao abandono dos veículos impressos em favor dos puramente digitais. Segundo dados do IBGE de 2021, 40 milhões de brasileiros não têm acesso à internet e ainda devemos considerar os que têm um pacote de dados limitadíssimo. Ao mesmo tempo, a internet apresenta um potencial limitado para a agitação associada à luta sistemática nos locais de trabalho dos setores estratégicos do proletariado. Pode ser usada como um meio dos trabalhadores difundirem suas posições e buscarem apoio entre o conjunto do povo disperso, mas funciona mal como meio de comunicação de uma vanguarda com a massa dos trabalhadores de uma determinada categoria, ou de um determinado bairro ou local de concentração.

É possível convocar uma greve por Whatsapp, mas o trabalho sistemático de formação e educação da massa dos trabalhadores por suas direções sindicais e políticas demanda o contato permanente, cotidiano, que a mera agitação e propaganda de Facebook, por exemplo, não pode proporcionar. Assim, as redes sociais dificilmente serão ponto focal da agitação sindical e econômica, servindo mais para a agitação em torno de pautas mais políticas, para a convocação de manifestações de massas, etc. Por outro lado, sendo um modal relativamente barato, permite uma massificação significativa de nossa propaganda teórica, que deve ser promovida de modo paciente e sistemático. Combinado a isso, os revolucionários devem promover sua agitação também por meio de materiais impressos sintéticos, em linguagem popular e de não tão custosa impressão, que cheguem às massas de modo mais focalizado e planejado.

Assim, temos diante de nós o vislumbre de um colossal desafio: a construção e coordenação harmônica de um intrincado aparato editorial, a ser concebido em sua unidade e integralidade, composto por uma ampla rede de veículos de propaganda (e, em menor grau, agitação) virtual, combinado a um órgão publicístico nacional de periodicidade regular e ampla circulação (que pode ser complementado a nível local por meio de folhetos avulsos, volantes, abordando temas regionais), em torno do qual deverá se organizar a agitação revolucionária. Nada impede que o conteúdo impresso seja veiculado também no formato digital – mas o inverso pode resultar em um material impresso excessivamente propagandístico e de linguagem mais rebuscada.

Eis, em suma, alguns dos desafios colocados à organização de uma intervenção publicística coordenada dos revolucionários brasileiros nestes tempos de dispersão digital. Certamente esses apontamentos não esgotam, e nem pretendem esgotar, esses desafios ou as respostas necessárias a eles. Mas, estabelecendo abertamente uma polêmica camarada entre os revolucionários, buscamos contribuir para colocar na ordem do dia os verdadeiros e urgentes desafios da Revolução Brasileira no âmbito da comunicação. 

Notas:
[1] –  Existem muitas edições de Que fazer? de Lênin. Usamos a da Boitempo para fazer essa citação (2020, p. 83-84).

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