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Maternidades em Cuba: uma história de cuidado centrado no ser humano

Apesar de bloqueada por 60 anos, Cuba segue oferecendo às suas mães e bebês direitos e cuidados inexistentes ou inacessíveis nos Estados Unidos.
Apesar de bloqueada por 60 anos, Cuba segue oferecendo às suas mães e bebês direitos e cuidados inexistentes ou inacessíveis nos Estados Unidos. Por Melina Ivanchikova | Liberation – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
Futuras mães cubanas na Casa Maternal Leonor Pérez Cabrera, em Habana Vieja, Cuba. 3 de agosto de 2022. (Foto: Liberation / Gloria La Riva).

Eu viajei para Cuba pela primeira vez em julho de 2022, com um grupo de ativistas anti-bloqueio, para aprender sobre a revolução e o povo cubano. Dados os severos desafios enfrentados por conta do bloqueio econômico dos EUA, nós também levamos suprimentos médicos destinados às maternidades da ilha. Eu fiz entrevistas sobre o atendimento nas maternidades cubanas e compartilhei a dolorosa história do nascimento do meu primeiro filho e minha frustrante e ilógica separação dele no hospital durante dez dias. Trouxe para casa a visceral compreensão de como o cuidado médico centrado no humano é em comparação com o cuidado centrado nos lucros, e como minha experiência nos EUA deveria ter sido diferente.

Nosso itinerário incluía uma visita a uma maternidade em Santa Clara. Mas, por cautela, nosso grupo não pôde visitar a maternidade porque um membro do grupo testou positivo para COVID-19. Ela ficou isolada e foi bem cuidada durante esse período. Ao invés da visita à maternidade, os médicos e enfermeiras de uma clínica nas proximidades vieram nos visitar. Eles puderam descrever seu trabalho, responder nossas perguntas e aceitar nossas doações, um pequeno gesto de solidariedade contra o bloqueio. Apesar da escassez de suprimentos, as maternidades em Cuba continuam a oferecer um cuidado de alto nível. O bloqueio implacável e punitivo dos EUA sufoca a capacidade de Cuba de reabastecer suprimentos não renováveis ​​e necessários como os que trouxemos conosco em malas com 22 quilos de vitaminas pré natal, acetaminofeno, remédios para infecções fúngicas e muito mais. Ficamos felizes em entregar as doações médicas fornecidas a nós pelo Projeto Hatuey.

Médicos e enfermeiras de uma casa maternal de Santa Clara recebem vitaminas pré-natal e remédios da delegação. 27 de julho de 2022. (Foto: Liberation)

Compartilhei minha história e perguntei como teria sido ter meu filho em Cuba. Meu primeiro filho nasceu com um pequeno bucaro em seu pulmão, e foi internado na unidade de terapia intensiva neonatal por dez dias. O orifício no pulmão do meu filho fechou durante a noite, mas ele teve dois episódios de apneia que prolongaram sua permanência na UTI Neonatal, em um hospital localizado a uma hora de carro de nossa casa. Eu estava exausta após 23 horas de um trabalho de parto difícil. Apesar da importância de promover o vínculo mãe-bebê e coisas como o vínculo pele a pele entre pais e bebês anunciados em cartazes em qualquer maternidade, foi difícil conseguir isso em um ambiente hospitalar onde estávamos separados um do outro. Fui reduzida ao status de visitante dois dias após o parto, o tempo padrão de alta nos hospitais americanos. Em Cuba, nós dois teríamos sido cuidados e mantidos juntos pelo tempo que fosse necessário, me disse um dos médicos.

Em Cuba, com o triunfo da revolução, veio o esforço para libertar as mulheres da repressão social e econômica do passado. Em 1962, o primeiro programa-piloto para maternidades foi estabelecido como um centro abrangente de cuidados maternos para apoiar a saúde das mulheres rurais, e posteriormente expandido para atender qualquer mulher com gravidez de alto risco que precisasse do apoio que os centros pudessem oferecer.

Maternidades para grávidas foram estabelecidas logo após a revolução para resolver um problema não exclusivo a Cuba: a necessidade de prover o cuidado médico pré-natal para mulheres com gravidez de alto risco que vivem distantes dos hospitais. Essas maternidades também foram comuns em muitos países africanos e latino-americanos que enfrentavam problemas similares. As condições de alto risco incluem ter tido uma cesariana anterior, morte fetal anterior, parto anterior com baixo peso, ruptura uterina, gravidez de gêmeos, etc.

Zulina Bustamante Sosa, uma cubana mãe de dois gêmeos residente em Havana, compartilhou sua experiência ao ser atendida numa dessas maternidades para grávidas onze anos atrás: “Minha experiência na maternidade foi difícil no começo. Não era fácil estar longe de casa, do meu marido e família. À medida que o tempo passou, entendi a importância de todo o cuidado que recebi ali.

Eles nos acordavam às 7 da manhã para medir nossa pressão, monitoravam nossas dietas – que eram diferentes a depender da situação, assim como eram diferentes os protocolos médicos. O médico fazia exames de rotina conosco diariamente. Havia apresentações educacionais e discussões, promovidas por diferentes profissionais da saúde, inclusive sobre cuidados preventivos, exercícios, estratégias para prevenir infecções durante a gravidez e a amamentação, e prevenção contra comportamentos arriscados. Até aulas sobre dar banho nos nossos bebês! Técnicos de uma clínica médica local faziam exames de sangue na própria maternidade, e nos levavam para a clínica para ultrassons e outros exames.

Fui admitida na maternidade pelo fato de ser minha primeira gravidez, e por eu estar grávida de gêmeos, o que é considerado de alto risco, apesar de eu nunca ter me sentido mal durante a gravidez. A médica discutia os resultados e análises dos exames de forma privada, com cada paciente, e era dela a decisão de dar alta às pacientes. Familiares e amigos podiam nos visitar todo dia. Eu fiquei lá da 20ª até a 38ª semana de gravidez , e então fui transferida para o hospital, onde fiquei por uma semana. Tudo foi planejado, inclusive a cesariana, que foi bem sucedida. Ao fim, fiquei tão confortável lá quanto estaria em casa, e hoje fico feliz de ter podido fazer isso, porque minhas filhas merecem.

Os médicos e especialmente as enfermeiras que cuidavam de nós todos os dias eram maravilhosas, disciplinadas e gentis. Eu ainda mantenho contato com algumas delas”, disse ela. A permanência padrão das pacientes em Cuba após o nascimento de seus filhos é de cinco dias, mas Bustamante e seus gêmeos estavam saudáveis ​​e prontos para ir para casa no terceiro dia, quando de fato foram. A maior parte das mulheres cubanas inicia sua licença maternidade pré-natal com 34 semanas de gravidez, ou 32 semanas, se estiver grávida de gêmeos.

Bustamante teve licença remunerada por um ano após seus bebês nascerem, até que entrassem na creche. O marido dela teve três meses de licença não-remunerada. A licença remunerada média em Cuba é de 17 a 18 semanas, incluindo a licença pré-natal, embora a licença materna e paterna remunerada esteja disponível por um ano. Ela voltou ao trabalho ao fim daquele período. O novo Código de Famílias cubano e as mudanças na lei permitiram que a licença seja transferida para qualquer pessoa que cuide do bebê, seja um avô, pai, tia ou tio. Um referendo nacional aprovou o Código de Famílias em setembro.

Meu filho permaneceu na UTI neonatal por oito dias mais. Eu queria amamentá-lo, e os primeiros dias de aprendizado de como fazer a pega e estabelecer uma rotina exigiam tentativas aproximadamente a cada duas horas. Não havia acomodações na UTI neonatal, apenas um quarto para uso diurno, com um sofá disponível para todas as famílias com bebês na UTI. Os administradores permitiram que eu usasse o sofá à noite, contanto que não ocupasse o quarto durante o dia.

Frente a essa situação impossível e com meu corpo exaurido pelo parto, um dos médicos da UTI procurou me encorajar a buscar paz interior e não ficar estressada, pelo bem do meu filho, me avisando de que, se não o fizesse, o leite não sairia. Suas gentis palavras não foram suficientes para aliviar o sofrimento psicológico e físico que experimentei pela separação de meu filho durante aquele momento tão importante, algo que deveria ter sido facilmente remediado.

Neste momento, nos Estados Unidos, a saúde das mulheres está sob ataque em estados ao longo de todo o País, em virtude do julgamento da Corte Suprema sobre o caso Dobbs v. Jackson, que anulou e derrubou o julgamento Roe v. Wade, que garantia o direito ao aborto legal. Mesmo antes disso, a crise de mortalidade maternal nos Estados Unidos estava bem documentada: os EUA têm a mais alta taxa de mortalidade maternal entre os países desenvolvidos, com muitas destas mortes sendo por causas evitáveis. As mulheres negras têm três vezes mais chances de morrer do que as mulheres brancas. Histórias de comentários racistas e xenofóbicos, falta de escuta médica e fatos ainda piores para pessoas de cor, e para as mulheres negras em particular, são prevalentes em todo o sistema de saúde dos EUA. Não há suficiente apoio pós-parto, nem prestadores de cuidados maternais suficientes (ginecologistas e parteiras). Em 2019, por exemplo, os EUA tinham onze ginecologistas e quatro parteiras disponíveis para cada 1 mil nascimentos, enquanto a Suécia tinha 12 e 66, respectivamente. O pagamento das contas médicas e o acesso ao cuidado médico também é um problema para o povo. Uma lei estadunidense de 1993 estabeleceu a licença médica e familiar: 12 semanas de licença não-paga. Nos EUA, é difícil ter direito a uma licença médica remunerada, e a manutenção do emprego não é uma garantia. Nenhum destes problemas é enfrentado por qualquer pai ou mãe cubanos, que além de terem o direito à licença remunerada, também têm o direito a manter seus empregos.

Comparar os índices de saúde dos Estados Unidos e Cuba é como comparar maçãs e laranjas. Um dos países é possivelmente o mais poderoso e mais desenvolvido do mundo, enquanto o outro é estrangulado pelo bloqueio estadunidense há 60 anos. Ainda assim, as taxas de mortalidade neonatal, infantil precoce e infantil são maiores nos EUA do que em Cuba: as mortes por 1 mil nascidos em 2017 nos EUA foram de 3.4, 5.4 e 6.3, respectivamente, em comparação com 2.4, 4.1 e 5.1 em Cuba. A expectativa de vida também é maior em Cuba. O alto nível educacional quanto a questões médicas e cuidado básico preventivo para a população, além do fato dos médicos e enfermeiras servirem o povo em seus bairros, em um sistema de saúde integrado, contribuem para estes indicadores positivos.

Enquanto nos EUA a luta contra a repressão social e econômica das mulheres persiste, em Cuba o cuidado médico é gratuito para todos, a educação universitária é gratuita para qualquer um que a deseje, e os empregos são garantidos. O bloqueio dos EUA contra Cuba supostamente prossegue em protesto às violações de direitos humanos. Claramente, trata-se de uma mentira, como demonstram estes e outros exemplos. Os EUA devem remover as sanções contra Cuba, retirar Cuba da lista de “estados patrocinadores do terrorismo” e normalizar as relações diplomáticas e comerciais com a ilha. Enquanto isso, nos Estados Unidos, devemos nos focar em tornar o direito ao aborto uma realidade, melhorar o cuidado médico para mães e bebês, e tornar a saúde gratuita e acessível para todos; direitos humanos básicos que Cuba já provê para seu povo.

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