Pesquisar
, , ,

Perspectivas econômicas para o Sul: uma pandemia de austeridade

Após breve expansão de gastos durante pandemia, FMI pressiona que países da América Latina adotem políticas de austeridade. Brasil seria um dos países mais atingidos.

Após breve expansão de gastos durante pandemia, FMI pressiona que países da América Latina adotem políticas de austeridade. Brasil seria um dos países mais atingidos. Por CELAG – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
(Foto: Leonardo França / Brasil de Fato)

A crise da COVID-19 provocou um curto período de estímulos fiscais (2020), e um longo e tortuoso período de austeridade (2021-25) nos países em desenvolvimento. O gráfico 1 mostra o número de países em desenvolvimento que fizeram ou planejaram fazer cortes em gastos públicos nos últimos 15 anos.

Número de países em desenvolvimento que reduziram o gasto público (ou que planejam fazê-lo). 2009, média de 2010-19, 2020 e média 2021-2025.

Em 2009, somente 41 países tinham iniciado planos de ajuste fiscal. Em 2010, frente à crise global, esse número subiu para 67. Para 2020, em meio à crise sanitária e os planos de estímulo fiscal, a cifra caiu para 20 países. Mas, logo após o breve lapso de expansão de gastos, no período de 2021-25, mais de 84 países fizeram ou planejam fazer cortes em seus orçamentos. Isso significa uma verdadeira epidemia de austeridade no mundo em desenvolvimento.

Entre 2020 e 2022, o Fundo Monetário Internacional (FMI), em seus relatórios, recomendou doze tipos de políticas de austeridade a nível global. Como mostra o gráfico 2, em 77% dos países da América Latina e do Caribe o FMI pressionou por uma focalização dos programas de transferência social, em 65% deles propôs cortes nos salários dos funcionários públicos e em 62% uma reforma no sistema de previdência.

Políticas de austeridade sugeridas pelo FMI para a América Latina e Caribe (% dos países); 2020-22.

A esse primeiro grupo de reformas seguem o aumento dos impostos indiretos (58% dos países), cortes em subsídios (54%) e privatização dos serviços públicos (50%).

Os níveis da dívida externa pública vêm crescendo na região, e com isso cresce o poder de chantagem do FMI em relação à América Latina e Caribe. Por isso, tudo indica que estas doze políticas se concretizarão nos próximos anos, como efeito da escravidão pelo endividamento da América Latina e Caribe.

 Leia também – O lugar do Brasil e da Petrobras na nova geopolítica energética 

A intensidade (ou pressão) do FMI em relação à austeridade varia de acordo com o país (gráfico 3). A intensidade da austeridade do FMI foi medida a partir da razão entre o número de políticas sugeridas pela organização em cada país em relação ao total de políticas propostas por ela entre 2020-22. Por exemplo, do coquetel de doze medidas sugeridas, o Fundo recomendou onze delas ao Equador, resultando em um nível de intensidade de austeridade de 92% (gráfico 3).

Porcentagem de políticas de austeridade sugeridas pelo FMI tendo em vista as doze medidas propostas. 2020-22.

Nessa “razão de intensidade” se sobressaem os casos do Brasil, Peru, Colômbia e México, que, apesar de serem países onde as políticas de “prudência” e contenção fiscal vêm sendo aplicadas sistematicamente durante anos, ainda assim são solicitados a aplicar mais medidas de austeridade pelo FMI: com taxas de 75% de intensidade no caso do Brasil, 67% no Peru e 50% na Colômbia e México. O “Estado mínimo” nunca é suficiente para o receituário do Fundo Monetário.

Os países nos quais o FMI pôs menor intensidade na sua proposta de austeridade são Nicarágua, Granada, e São Vicente e Granadinas, nos quais a razão de intensidade ronda a linha dos 20%. Igualmente, os países do Caribe registram uma razão de intensidade média de 44%, enquanto os países da América Latina registram uma média de 47%.

Referências:
Ortiz, I. y Cummins, M. (2022). “End austerity. A global report of budget cuts and harmful social reforms in 2022-2025”. Initiative for Policy Dialogue (IPD). Disponível em: https://pop-umbrella.s3.amazonaws.com/uploads/0d4bcf52-376c-4b16-83cb-4e1489d5a52a_Austerity_Ortiz_Cummins_FINAL_26-09-2022.pdf

Continue lendo

Os conflitos armados de alta intensidade — caracterizados por altos níveis de letalidade (mais de mil vítimas fatais por ano) e graves impactos em termos de deslocamento da população, destruição de infraestruturas e consequências no território — representaram 50% dos casos em 2025. (Foto: Justin Connaher / U.S. Air Force)
2025, o ano com mais guerras da última década
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso em Marietta, na Georgia. (Foto: Molly Riley / White House)
Tarifas por trabalho forçado: o novo engodo de Trump
Imagem do relatório "A Predatory State", do Coletivo Feminista Palestino e da Internacional Progressista, que documenta a violência sexual de Israel contra palestinos desde 1948. (Imagem: Reprodução / A Predatory State)
Como Israel tem usado a violência sexual como arma do colonialismo de 1948 até hoje

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel