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Culpar o lucro, absolver a tecnologia?

É certo que a busca por lucro contribui para tornar as tecnologias mais hostis, mas devemos indagar se a sua própria forma e usos fazem sentido para a humanidade
Timothy Erik Ström
O supercomputador Frontier, o mais rápido do mundo, localizado no Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos EUA. (Foto: OLCF at ORNL / Flickr)

Mais um dia, mais uma polêmica sobre as big techs. No momento em que escrevo estas palavras, o Conselho de Segurança da ONU acaba de concluir um relatório no qual diz que não podemos confiar a inteligência artificial às grandes empresas de tecnologia, e que a pesquisa comercializada é uma “ameaça à paz internacional, à segurança e à estabilidade global”. Uma rápida olhada nas manchetes das últimas 24 horas e vejo que o The Australian acaba de publicar um artigo intitulado “As grandes empresas de tecnologia estão explorando nossos filhos para obter lucro“, o Business Insider publicou um artigo intitulado “O modelo de negócios que alimenta as empresas de tecnologia do Vale do Silício pode ser ilegal” e o TechWire Asia informa sobre as 219 mil pessoas que foram demitidas pelas principais empresas de tecnologia este ano.

Depois, há o lançamento da enfadonha rede social Threads, da Meta, e o declínio do Twitter; os escritores e atores de Hollywood em greve contra a inteligência artificial e as propostas miseráveis dos produtores; os efeitos negativos dos feeds algorítmicos sobre a saúde mental e a amplificação algorítmica do neonazismo; a desigualdade desenfreada e a postura de bilionários que se comportam como pequenos imperadores; os esquemas de criptopirâmides em ruínas e a quebra do Silicon Valley Bank; os ataques mortais de drones e o apartheid automatizado; o esquema ilegal de avaliação de dívidas Robodebt, adotado pelo governo australiano, e o desastre social em câmera lenta da chamada “economia de bicos”. E por aí vai. Em resumo, as coisas estão ruins e estão piorando rapidamente.

Sendo assim, certamente há alguma validade na ideia de que estamos em meio a um processo generalizado de enshittificaiton [“merdificação” em tradução livre], como Jeff Sparrow observou em um artigo recente publicado no The Guardian. Ele começa esse artigo explorando as maneiras pelas quais tanto o Twitter quanto o Threads são piores agora do que as soluções oferecidas por ambas as empresas em meados dos anos 2000. Para defender seu ponto de vista, ele culpa diretamente a busca por lucros das empresas de tecnologia como responsável por sufocar a inovação, e afirma que “a tecnologia em si desempenha um papel relativamente menor”. Implícita nesse argumento está a atitude usual da esquerda segundo a qual a tecnologia e suas forças produtivas podem ser separadas de seus usos e contextos sociais. No entanto, como essas novas tecnologias continuam a se acumular umas sobre as outras, pode ficar mais difícil continuar a se apegar a essa crença.

Colocar a culpa na busca do lucro também simplifica o funcionamento real do setor de tecnologia. Atualmente, as ações das grandes empresas de tecnologia estão em níveis absurdos: a Apple, a atual líder do setor, tem uma valorização de mercado de mais de três trilhões de dólares. Isso é quase o mesmo que a quantidade incrivelmente grande de dinheiro que os EUA gastaram em sua guerra contra o Iraque. Essas cifras imensas só são possíveis após anos de flexibilização qualitativa e de uma revolução na oferta de dinheiro liderada pelo Federal Reserve dos Estados Unidos em sua tentativa ingênua de consertar a economia global, quebrada após a Crise Financeira Global. Grandes quantidades desse dinheiro acabaram em um setor de investimentos cada vez mais inchado – bancos, empresas de gestão de ativos, fundos de hedge, fundos de pensão –, todos a serviço dos ricos e dos muito ricos. A posse de ações segue uma curva exponencial, sendo que a grande maioria das pessoas no mundo não possui nenhuma ação e os mais ricos entre os ricos devem quantias alucinantes. As grandes instituições de investimento, então, usam o “dinheiro grátis” que lhes é dado pelo Federal Reserve dos EUA para aumentar os preços das ações de tecnologia e, portanto, a riqueza no papel de seus clientes ricos. Isso quer dizer que o setor das big techs é uma imensa bolha especulativa, que começou a cambalear agora que a torneira da flexibilização qualitativa foi fechada após a onda de gastos com a COVID-19.

No entanto, grande parte disso não assume a forma tradicional de geração de lucros. Por exemplo, a Meta não paga dividendos a seus investidores externos. O mesmo acontece com muitas empresas de tecnologia, sem mencionar aquelas que nunca tiveram lucros, como a Uber, que perdeu 9,14 bilhões de dólares no ano passado. Elas não estão proporcionando lucros diretamente aos proprietários capitalistas externos; pelo contrário, sua contribuição para a desigualdade vem por meio dos circuitos instáveis das finanças especulativas. Nessa zona, a acumulação é mais importante do que o lucro. A compra de ações dá às empresas de tecnologia o poder de crescer, mas elas não devolvem o lucro ao proprietário das ações – a menos que o proprietário opte por vender essas ações e, mesmo assim, não pode vender muitas de uma vez, caso contrário, seu valor pode despencar, como aconteceu quando a Meta perdeu 230 bilhões de dólares de valor em um único dia em 2022 (o que é aproximadamente o mesmo que a capitalização de mercado total da Toyota). Além disso, as empresas de tecnologia controlam rigorosamente o “lucro” que alegam obter, trilhando uma rota que busca ao mesmo tempo tranquilizar os investidores quanto ao seu poder sobre o futuro e resistir aos apelos para pagar dividendos ou permitir que seus investidores tenham muita influência sobre a direção dos negócios. Grande parte do dinheiro que elas movimentam é gasto na recompra de ações, em uma tentativa de aumentar seu valor, e enormes quantias são investidas em seu verdadeiro jogo – pesquisa e desenvolvimento tecnocientífico – conforme descrevi em um artigo publicado no ano passado pela New Left Review. Essa pesquisa tecnocientífica é a fonte distintiva de seu poder, e uma das características do capitalismo cibernético. Ela gera muito dinheiro, mas seus objetivos não podem ser reduzidos a isso, uma vez que é orientado para dominar a natureza – e reorganizá-la até mesmo em nível molecular ou subatômico. O objetivo explicitamente declarado de colonizar o espaço tem mais a ver com conquista e, no caso do trabalho sobre inteligência artificial, com a tentativa de criar uma vida artificial ou até mesmo construir uma entidade com inteligência semelhante à de um deus. A audácia é impressionante.

Isso não quer dizer que os lucro não seja importante, mas sim que ele é mais complexo, abstrato e sistemático do que geralmente é apresentado como sendo. Na verdade, se a busca pelo lucro estivesse realmente comandando o show, grande parte do atual setor de tecnologia já teria seguido há muito tempo o caminho dos aviões Concorde – uma tecnologia viável, mas sem congruência entre oferta e demanda. Os preços maciços das ações isentam as grandes empresas de tecnologia da necessidade de lucro, permitindo que elas financiem generosamente a pesquisa, adquiram concorrentes em potencial, se envolvam em corrupção legalizada (ou seja, lobby) e assim por diante.

Da mesma forma, vale a pena investigar o movimento de absolver a tecnologia, um truque comum em comentários de esquerda que não ajuda a elucidar nossa situação. A primeira parte dessa alegação parece imaginar que essas plataformas de mídia social poderiam ter progredido a patamares cada vez maiores se suas respectivas empresas não tivessem que ganhar dinheiro. Embora seja evidente que a busca do lucro seja distorcida, perturbada e ruinosa por uma série de razões – especialmente sob condições de capitalismo monopolista e consumismo excessivamente difundido –, ela, por si só, não oferece um poder explicativo adequado, mesmo em um comentário escrito rapidamente para um público amplo.

Vale a pena pensar nisso por meio de um experimento de raciocínio retórico. Imagine se a Meta magicamente não precisasse ganhar dinheiro (mas de alguma forma ainda tivesse um enorme apoio financeiro para manter sua vasta infraestrutura). Os salários exorbitantes da alta gerência seriam cortados e os 3,81 bilhões de pessoas que usam os amplos serviços da Meta – metade da humanidade – estariam livres da exibição de anúncios. Isso eliminaria uma pequena, mas gritante, parcela da desigualdade, e removeria um dos principais caminhos para a propaganda consumista altamente direcionada, o que seria muito bem-vindo. Mas e depois? Ainda teríamos o vício generalizado em mídias sociais e os níveis crescentes de solidão, relatados quase diariamente, que têm uma relação fortemente correlacionada/causal com o uso dessa tecnologia? As mídias sociais são fundamentalmente tecnologias de ausência: elas substituem as relações cara-a-cara – a principal maneira de se relacionar com os outros durante quase toda a história da humanidade – por interações baseadas em telas sem corpo. As relações de ausência têm uma longa história, mas o que importa aqui é o domínio relativo dessa forma de relacionamento e a diferença qualitativa da mediação da comunicação por tecnologias por meio da tela negra. Um especialista entrevistado pela Radio National esta semana enfatizava a importância das interações face a face como sendo constitucionais ao tipo de criatura que as pessoas são e vitais para combater a sensação de isolamento que as pessoas sentem hoje em dia. O problema aqui não é o lucro, nem a comunicação descorporificada, mas sim o predomínio de formas de interação mediadas pela tecnologia.

Um problema intransponível que certamente continuaria a atormentar o setor de tecnologia, mesmo que ele estivesse livre da necessidade de obter lucro, são suas consequências ecológicas gigantescas. Existe uma ilusão muito profunda de que o maquinário de computação não tem um custo – que de alguma forma ele existe fora da rede da natureza. Esse é um ponto cego intencional que precisa ser levado em conta se quisermos coabitar neste planeta em rápido aquecimento. É necessário fazer uma análise materialista adequada dos computadores para ver a quantidade intensa de energia incorporada nas tecnologias digitais e a escala de resíduos que elas produzem. Um pequeno vislumbre disso pode ser visto em algumas das reportagens sobre a natureza intensamente dispendiosa do Bitcoin, que usa anualmente 150 terawatts-hora de eletricidade – aproximadamente o mesmo que a Argentina inteira, com sua população de 45 milhões de pessoas. Se sairmos dessa criptomoeda específica para o mundo digital globalizado mais amplo, a quantidade de energia desperdiçada, de paisagens mineradas, de rios poluídos e de ar carregado de carbono será impressionante.

A questão é que qualquer forma de maquinário de computação em rede que pudesse existir adequadamente além do capitalismo como o conhecemos seria completa e totalmente diferente dos conglomerados antissociais de mídia de consumo que dominam o presente. Que tipo de sociedade socialista priorizaria os intensos esforços e recursos necessários para criar uma tecnologia que permitisse a transmissão ao vivo de infinitos vídeos de alta definição sob demanda para dispositivos móveis atomizados? Essa meta duvidosa só faz sentido em uma sociedade hiperindividualizada que prioriza uma “conveniência” estreita e fetichista da tecnologia e a “escolha do consumidor” acima de tudo. É preciso um fracasso social de várias gerações para produzir os relógios iWatch, uma personificação da desigualdade, da alienação e da insustentabilidade em um único símbolo de status.

No mundo da tecnologia, o lucro atua como um grande “enshittifier” [“merdificador”], mas precisamos pensar criticamente também sobre a materialidade das próprias tecnologias: a alienação que elas contêm e sua natureza poluente e de uso intensivo de recursos. Isso não significa que poderíamos ou deveríamos abandonar totalmente os computadores e caçar alimentos com machados de pedra, ou qualquer outra reação automática que os apologistas das grandes empresas de tecnologia gostem de apresentar quando confrontados com uma crítica estrutural. Em vez disso, precisamos de uma relação radicalmente diferente com a tecnologia: uma relação que respeite a escala humana, que seja localizada e justa. Isso envolverá grandes transformações culturais, mudando as formas como praticamos a vida cotidiana, bem como uma séria reformulação das estruturas atuais de poder de decisão – e um confronto direto com a busca pelo lucro. Essa não é uma tarefa fácil, mas uma parte importante do desafio, e uma oportunidade, é desenvolver estruturas interpretativas que possam identificar o que há de peculiar em nossa situação atual.

(*) Timothy Erik Ström é autor de “Globalization and Surveillance” (Globalização e Vigilância) e editor da Arena Online. Seus escritos podem ser encontrados também no site The Sorcerer’s Apparatus

(*) Tradução de Pedro Marin

ARENA Fundada em 1963 como um fórum de debate da "Nova Esquerda" da Austrália, a Arena é uma revista trimestral.

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