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Quem são as gangues que podem estar ligadas ao assassinato de candidato no Equador?

Segundo autoridades, Villavicencio foi morto por membros de organizações criminosas. Estratégias falhas de repressão fizeram gangues se multiplicar no país
Pedro Marin
Vídeo divulgado no Twitter em que supostos membros da Los Lobos reivindicam assassinato de candidato. Outro vídeo emergiu negando a ação. (Foto: Reprodução / Twitter)

Três de ao menos 12 tiros disparados na última quarta-feira (09/08) durante um comício realizado na cidade de Quito, capital do Equador, atingiram o candidato presidencial Fernando Villavicencio, do Movimento Construye, na cabeça. Villavicencio se retirava do evento político, que aconteceu em um colégio, e se dirigia para uma caminhonete quando foi morto. “Ele faleceu quase que automaticamente”, disse um de seus parentes à rádio Centro.

Além do candidato de centro-direita ao menos nove pessoas ficaram feridas em meio ao tiroteio. Um suposto autor do ataque também morreu, após ser ferido na troca de tiros com policiais que faziam a segurança do candidato. Seis suspeitos foram detidos pelo assassinato de Villavicencio, e o ministro do Interior, Juan Zapata, declarou que todos são estrangeiros e que pertencem a uma facção criminosa, embora não tenha especificado qual.

Fernando Villavicencio era um ferrenho crítico do “correísmo”, tendência política ligada ao ex-presidente progressista Rafael Correa, tendo sido inclusive condenado a 18 meses de detenção por difamação contra o ex-presidente. Foi deputado na Assembleia Nacional, presidindo a Comissão de Supervisão da Assembleia entre 2021 e 2023.

Na última pesquisa presidencial Cedatos, realizada em 20 de julho, o candidato aparecia em segundo lugar, com 13,2% das intenções de voto, bem atrás da correísta Luisa González, que liderava a corrida com 26,6%. Já em outra pesquisa, a ClickReport, realizada entre 5 e 6 de agosto deste mês, Villavicencio aparecia em quinto lugar, com 7,5% das intenções de votos.

Além de opositor do correísmo, o candidato vinha adotando uma postura dura quanto à questão das gangues no Equador, dando prioridade ao tema da segurança pública na sua campanha. O seu programa de governo dizia que “o principal [problema] a enfrentar é uma profunda crise de segurança. Sem segurança não há nada”, e propunha diversas medidas para responder à crise enfrentada pelo país. Dentre elas, a Lei de Extinção de Domínio (que considera que bens adquiridos com capital ilícito não têm legitimidade ou proteção legal); reformas sobre as normas de uso da força da Polícia Nacional, com o objetivo de dar mais segurança jurídica aos policiais; e aplicação de tecnologias de vigilância e Inteligência Artificial na segurança pública.

Villavicencio também propunha a criação de uma prisão de “altíssima segurança” para criminosos de alta periculosidade e a implantação de um “Plano Nacional Antiterrorista”, que incluiria acordos mais profundos com os Estados Unidos e Reino Unido sobre o crime organizado; o controle de portos e aeroportos por agentes estrangeiros, bem como a militarização total dos portos; a instalação de scanners pelas rotas de tráfico do país; e a criação de uma polícia especializada e com apoio estrangeiro para enfrentamento às facções criminosas chamada “Unidade Antimáfias”.

Nesta quinta-feira (10/08), um vídeo emergiu nas redes sociais no qual homens armados de fuzis e reivindicando-se membros da gangue Los Lobos assumem a autoria do atentado. Encapuzado, um homem lê uma declaração: “Queremos deixar bem claro a toda a nação equatoriana que toda vez que políticos corruptos não cumpram com as promessas que estabelecemos quando receberam nosso dinheiro, que é de milhões de dólares, para financiar suas campanhas, serão ‘baixados’”. O homem também ameaça o candidato direitista Jan Topić, que chegou a ser convidado para ser ministro de Segurança do atual presidente, Guillermo Lasso: “Você também, Jan Topić. Cumpra sua palavra, se não cumprir suas promessas, será o próximo”.

Em um outro vídeo, no entanto, homens vestidos de branco, que reivindicam ser os verdadeiros membros dos Los Lobos, negam a autoria do assassinato: “Nós não escondemos nossos rostos, ninguém fala por nós. [….] Rechaçamos o assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio, e deixamos claro que nunca assassinamos pessoas do governo ou civis. O vídeo que circula nas redes sociais, com pessoas com fuzis e tapando suas caras, fazendo-se passar por membros de nossa organização, é totalmente falso. […]     Outros grupos delinquentes querem desestabilizar o país, e tornar responsáveis outros grupos, como o nosso, ‘Los Lobos’, pela tragédia pela qual o país está passando.”

Apesar da polêmica dos vídeos envolvendo os Los Lobos, antes de seu assassinato, Villavicencio havia dito ter sofrido ameaças do grupo Choneros.

O problema das gangues no Equador

Fazendo fronteira com o Peru e a Colômbia, dois importantes países produtores de cocaína, e banhado pelo Oceano Pacífico, o pequeno Equador passou a ser usado, entre os anos 70 e 90, pelos cartéis de droga colombianos como um ponto de tráfico internacional para a Europa e Estados Unidos. Também é uma rota de contrabando de químicos usados na produção da cocaína. Atualmente, estima-se que 70% das drogas que deixam o país saem a partir de portos em Guayaquil, segundo maior cidade do país.

No começo dos anos 2000, houve um aumento da presença e da violência de gangues juvenis de rua no Equador. Na província de Guayas, em Guayaquil, havia cerca de 400 gangues em operação à época. A Latin Kings era uma das mais destacadas delas. Em 2007, o presidente Rafael Correa adotou uma política sem precedentes para o problema: legalizar as gangues e reconhecê-las como “grupos juvenis urbanos”, com o Estado passando a desenvolver programas culturais e educativos em parceria com esses grupos. A estratégia funcionou: a taxa de homicídios foi de 15,35 assassinatos por 100 mil habitantes, em 2011, para 5 assassinatos por 100 mil habitantes, em 2017, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Segundo um estudo do banco, a medida “proveu um espaço, tanto cultural quanto legal, para a transformação do capital social” dos grupos.

As medidas não alcançaram, no entanto, as gangues criminosas do país, associadas a cartéis mexicanos e colombianos. Os Choneros, uma das principais dentre elas, foi fundada no final dos anos 90 na cidade de Chone, na província de Manabí, no noroeste do país. Seu líder, Jorge Bismarck Véliz España, codinome Teniente España, era um pequeno traficante da cidade que chegaria a controlar as rotas de tráfico internacional nas praias de Manta, também em Manabí. De acordo com as autoridades equatorianas, os Choneros estavam então associados a um cartel de drogas colombiano, e as rotas marítimas utilizadas para o tráfico ligavam o Equador ao México e aos Estados Unidos.

No começo dos anos 2000, os Choneros entraram em conflito com outra facção que controlava Manta, os Queseros, em função das rotas de tráfico para o Pacífico. A liderança dos Queseros chegou a ser morta após ter ordenado a morte da esposa do Teniente España. Em 2007, no entanto, o próprio Teniente España seria assassinado por Queseros em Santo Domingo, província de Manabí. Com a morte do líder, e à medida que a guerra com grupos rivais e as ações da polícia contra a gangue se expandiram, o comando da organização passou por uma série de mudanças, com a consolidação de sua ligação com o Cartel de Sinaloa, no México. No começo de 2010, Jorge Luis Zambrano, codinome Rasquiña, uma das lideranças que havia passado pelo comando da organização após a morte de España em 2007, assumiu o comando da organização. Em 2011, no entanto, foi preso e passou a comandar a facção detrás das grades, criando uma nova dinâmica econômica, social, organizacional e territorial para a facção – o grupo passou do tráfico internacional para o pequeno tráfico, além de atividades como sicariato, extorsão e contrabando; tornou-se também uma gangue prisional, recrutando prisioneiros em massa; adotou uma forma menos centralista e hierárquica de organização; e passou a operar principalmente em Guayaquil, na província de Guayas, principal ponto de tráfico internacional do país. A principal rival dos Choneros dentro e fora do sistema prisional passou a ser os Lagartos, que controlavam Guayaquil.

Em 2019, o presidente Lenín Moreno adotou a estratégia de transferir líderes e membros violentos das facções pelo sistema prisional, com o objetivo de desarticular as estruturas hierárquicas dessas organizações. O tiro saiu pela culatra: em função da medida, as facções e gangues associadas se expandiram pelo sistema prisional, levando a uma guerra de gangues que, em 2019, se converteu em crise prisional e exigiu a mobilização do Exército.

Em 2020, a morte de Rasquiña levou a crise a escalar, com diversas gangues que operavam sob o guarda-chuva dos Choneros entrando em um processo de fragmentação e guerra contra a atual liderança da facção. Em fevereiro de 2021, houve uma rebelião coordenada em três prisões do Equador, com membros de gangues previamente associadas atacando membros dos Choneros. Foi até então a maior rebelião da história do Equador, com ao menos 75 prisioneiros mortos. Em setembro do mesmo ano, um ataque dos Lobos contra membros dos Choneros na prisão de Guayaquil deixou 118 mortos.

Organizações como Lobos, Tiguerones, Chone Killlers e Pipos, todas antes subgrupos da Choneros, teriam se organizado numa nova estrutura chamada Nueva Generación (em referência ao Cartel Jalisco Nueva Generación, do México) contra os Choneros, associados, por sua vez, ao Cartel de Sinaloa.

A guerra, como é sabido, não respeita fronteiras, e a violência prisional passa também pelas ruas. Na última quarta-feira (9), ela atingiu Villavicencio, levando o presidente Lasso a decretar um estado de exceção que põe fim à inviolabilidade do domicílio e consolida a mobilização das Forças Armadas pelo país. Além, é claro, de possivelmente alterar o cenário para as próximas eleições presidenciais equatorianas, que devem ocorrer no próximo dia 20.

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