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Argentina – um muro de contenção contra o fascismo

Apenas meio milhão de votos separam Massa de Milei, e a extrema direita está dividida; apesar das primárias, peronismo pode se salvar se evitar derrotismo
Frederico Dalponte
O candidato de extrema-direita e grande vencedor das eleições primárias na Argentina, Javier Milei. (Foto: Ilan Berkenwald / Flickr)

Dois instrumentos tentam prever resultados: as pesquisas e a história. Ontem, ambos falharam. As pesquisas anunciaram que Javier Milei chegaria enfraquecido às primárias. E a história, caprichosa a seu modo, também foi triturada: desde 1946, um candidato sem uma estrutura tradicional, sem um histórico, sem aliados de peso, sustentado apenas pela atratividade de sua figura, não havia prevalecido.

Talvez isso diga algo sobre o sistema democrático da Argentina. É possível vencer em partes distantes do país sem nem mesmo um décimo dos representantes necessários. Mas também fala algo dos grupos econômicos que comandam a mídia como se fosse um circo: a falta de estrutura política foi compensada por sete anos consecutivos de exposição midiática constante e complacente de Milei.

Nesse contexto, a pergunta mais óbvia e inútil é o que seus eleitores veem nele, qual é seu apelo ou se eles não ouviram sua mensagem violenta, misógina, etc. A resposta curta é que provavelmente sim, eles o ouviram até cansar. Mas não importa. Não é que a maior parte de seus eleitores o tenha apoiado por defender Carlos Menem ou a ditadura, mas apesar disso, como se fossem fatos marginais e anedóticos, como se fossem pecados perdoáveis para um candidato que vem para ordenar as coisas pelo lado de fora.

De qualquer forma, insistir nessa indagação parece ser uma perda de tempo. Em vez disso, valeria a pena perguntar em que brecha seria possível pescar os votos necessários para reverter um cenário de terror. Em um país onde 49% da sociedade – em termos de votos válidos e afirmativos – escolheu expressões de extrema direita, isso parece muito complicado. Tentar pescar votos lá pode ser impossível.

No entanto, talvez haja um fato que dê à democracia alguma esperança marginal: a extrema direita argentina, ao contrário do que acontece em muitos países, foi para essas eleições dividida e isso talvez seja decisivo para que nenhum deles vença no primeiro turno. Milei e Bullrich, com discursos quase idênticos em muitos aspectos, dividem os eleitores, e essa é a única brecha para um terceiro candidato. E não é preciso dizer, a esta altura, que esse candidato é Sergio Massa, com todas as objeções existentes. “Aquele que se afoga não se importa no que está agarrando”, disse San Martín.

Quase como um mistério insondável da história, o ministro da Economia é a última esperança de uma parte do eleitorado que se recusa a viver em um país com porte livre de armas, erradicação de toda assistência estatal, privatização de direitos essenciais e a liberação econômica que, há vinte anos, deixou um quinto da população sem trabalho ou uma renda substituta.

Entre esse cenário distópico e a Casa Rosada, hoje o único muro de contenção – com chance de vitória – é o peronismo. E uma opção, entre muitas, é que a campanha do partido governista até outubro se concentre nesse medo. Teremos que pensar se essa é a melhor opção – provavelmente não. Por enquanto, é certamente a mais fácil e instintiva para muitos líderes: insistir que um eventual governo de Milei ou Bullrich seria um salto para o vazio e rezar para que boa parte dos 51% que não votaram neles se unam em torno do terceiro candidato. É preciso atenção a esse ponto, pois essa tática pode fracassar.

Nesse meio tempo, seja qual for a estratégia discursiva escolhida, o Unión por la Patria deve a si mesmo uma profunda introspecção eleitoral. As chances de chegar ao segundo turno estão intactas, é verdade. E mais: tem mais chances reais de vencer contra um dos extremos do que contra um candidato centrista. Mas é evidente que o partido precisa melhorar alguns desempenhos que beiram o ridículo: 8% em Córdoba, 33% em Tucumán, menos de 30% em Misiones e San Juan, 20% em Jujuy, um fraco terceiro lugar em La Pampa e Rosário.

Em boa parte das províncias, o peronismo obteve entre dez e vinte pontos a menos do que com Daniel Scioli em 2015, quando seu desempenho foi medíocre. Ali, em cerca de vinte distritos, há muito mais espaço para crescimento do que em Mendoza, La Rioja, Catamarca ou na primeira seção eleitoral da província de Buenos Aires, onde talvez se tenha atingido um teto. Assim como na cidade de Buenos Aires, o berço do Proposta Republicana e do La Libertad Avanza, onde o partido governista talvez tenha o melhor desempenho comparativo, preservando um piso decente, dado o contexto.

O peronismo parece estar perdendo força federal, o que é paradoxal em um momento em que as províncias têm superávits e obras públicas por decisão expressa de um governo peronista. Talvez o fato de seus quatro últimos candidatos presidenciais terem vindo da capital federal e da província de Buenos Aires explique parte desse fenômeno. Hipótese a ser explorada.

De qualquer forma, o caminho para as eleições de outubro é longo e não parece sensato entrar na luta fratricida que caracteriza o peronismo diante de cada derrota. Considerando tudo isso, o partido governista está apenas 1,5 ponto abaixo do limite que antes considerava aceitável e com uma distância de menos de três pontos do vencedor. O pior erro seria contribuir para sua própria derrota, descartando uma batalha contra o fascismo dois meses antes de ela ocorrer.

(*) Federico Dalponte é advogado trabalhista na cidade de Buenos Aires.

(*) Tradução de Pedro Marin

Primera Línea Primera Línea é um meio de comunicação popular argentino comprometido com o seu tempo. Com uma perspetiva feminista, ambiental e latino-americana.

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