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O que está acontecendo no Níger não é um golpe típico

O golpe no Níger parece representar os anseios de setores rurais e pequeno-burgueses, desprezados pelas elites do país em sua parceria com o Ocidente
Vijay Prashad
Soldados nigerinos participam do exercício militar Flintclock 2018, em Agadèz, em parceria com o Comando Africano dos EUA (Foto: Evan Parker / U.S. Navy)

Em 26 de julho de 2023, a guarda presidencial do Níger avançou contra o presidente em exercício, Mohamed Bazoum, e conduziu um golpe de Estado. Uma breve disputa entre as várias Forças Armadas do país terminou com todos os ramos concordando com a remoção de Bazoum e a criação de uma Junta Militar liderada pelo comandante da Guarda Presidencial, general Abdourahamane “Omar” Tchiani. Esse é o quarto país da região do Sahel, na África, a sofrer um golpe de Estado – os outros três são Burquina Faso, Guiné e Mali. O novo governo anunciou que deixaria de permitir que a França se apropriasse do urânio do Níger (uma em cada três lâmpadas na França é alimentada pelo urânio proveniente do campo de Arlit, no norte do Níger). O governo de Tchiani revogou toda a cooperação militar com a França, o que significa que os 1.500 soldados franceses no país terão de começar a fazer as malas (como fizeram em Burquina Faso e Mali). Enquanto isso, não houve nenhuma declaração pública sobre a Base Aérea 201, a instalação dos Estados Unidos em Agadèz, a mil quilômetros da capital do país, Niamei. Trata-se da maior base de drones do mundo, e ela é fundamental para as operações dos EUA em todo o Sahel. As tropas dos EUA foram instruídas, por enquanto, a permanecer na base, e os voos de drones foram suspensos. O golpe é certamente uma medida contra a presença francesa no Níger, mas esse sentimento antifrancês não englobou a presença militar dos EUA no país.

Intervenções

Horas depois de o golpe ter se consolidado, os principais Estados ocidentais – especialmente a França e os Estados Unidos – o condenaram, e pediram a restituição de Bazoum, que foi imediatamente detido pelo novo governo. Mas nem a França nem os Estados Unidos pareciam querer liderar uma resposta ao golpe. No início deste ano, os governos da França e dos EUA estavam preocupados com uma insurgência no norte de Moçambique que afetava os ativos do campo de gás natural da Total-Exxon na costa de Cabo Delgado. Em vez de enviar tropas francesas e norte-americanas, o que teria polarizado a população e aumentado o sentimento antiocidental, a França e os Estados Unidos fizeram um acordo para que Ruanda enviasse suas tropas para Moçambique. As tropas de Ruanda entraram na província do norte de Moçambique e puseram fim à insurgência. Ambas as potências ocidentais parecem favorecer uma solução do tipo “Ruanda” para o golpe no Níger, mas em vez de Ruanda entrar no Níger, a esperança era que a CEDEAO – a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental – enviasse suas forças para restituir Bazoum ao poder.

Um dia após o golpe, a CEDEAO também o condenou. A CEDEAO engloba quinze estados da África Ocidental e, nos últimos anos, suspendeu Burquina Faso e Mali de suas atividades por causa dos golpes de Estado nesses países; o Níger também foi suspenso da CEDEAO alguns dias após seu golpe. Formado em 1975 como um bloco econômico, o agrupamento decidiu enviar forças de manutenção da paz em 1990 para o centro da Guerra Civil da Libéria – apesar de não haver um mandato nesse sentido em sua missão original. Desde então, a CEDEAO enviou suas tropas de pacificação para vários países da região, incluindo Serra Leoa e Gâmbia. Pouco tempo depois do golpe no Níger, a CEDEAO impôs um embargo ao país que incluía a suspensão do direito do país a transações comerciais básicas com seus vizinhos, o congelamento dos ativos do Banco Central do Níger mantidos em bancos regionais e a interrupção da assistência externa (que representa 40% do orçamento do Níger). A declaração mais marcante foi a de que a CEDEAO tomaria “todas as medidas necessárias para restaurar a ordem constitucional”. O prazo de 6 de agosto dado pela CEDEAO expirou porque o bloco não conseguiu chegar a um acordo sobre o envio de tropas para o outro lado da fronteira. A CEDEAO solicitou que uma “força de prontidão” fosse formada e estivesse pronta para invadir o Níger. Em seguida, a CEDEAO disse que se reuniria em 12 de agosto em Acra, Gana, para analisar suas opções. Essa reunião foi cancelada por “razões técnicas”. Manifestações em massa nos principais países da CEDEAO, como Nigéria e Senegal, contra uma invasão militar da CEDEAO no Níger induziram seus próprios políticos a apoiar uma intervenção. Seria ingênuo sugerir que nenhuma intervenção é possível. Os acontecimentos estão ocorrendo muito rapidamente e não há motivo para suspeitar que a CEDEAO não intervirá antes do final de agosto.

Golpes no Sahel

Quando a CEDEAO aventou a possibilidade de uma intervenção no Níger, os governos militares de Burquina Faso e Mali disseram que isso seria uma “declaração de guerra” não apenas contra o Níger, mas também contra seus países. Em 2 de agosto, um dos principais líderes do golpe no Níger, o general Salifou Mody, viajou para Bamako (Mali) e Ouagadougou (Burquina Faso) para discutir a situação na região e coordenar uma resposta à possibilidade de uma intervenção militar da CEDEAO – ou do Ocidente – no Níger. Dez dias depois, o general Moussa Salaou Barmou foi para Conakry (Guiné) para buscar o apoio desse país ao Níger junto ao líder do governo militar do país, Mamadi Doumbouya. Já foram apresentadas sugestões para que o Níger – um dos países mais importantes do Sahel – faça parte das conversas para a formação de uma federação que inclua Burquina Faso, Guiné e Mali. Essa seria uma federação de países que sofreram golpes para derrubar o que foram considerados governos pró-ocidentais que não atendiam às expectativas de populações cada vez mais empobrecidas.

A história do golpe no Níger torna-se, em parte, a história do que a jornalista comunista Ruth First chamou de “o contágio do golpe” em seu notável livro, “The Barrel of the Gun: Political Power in Africa and the Coup d’états” (O cano das armas: poder político na África e os golpes de Estado, em tradução livre), de 1970. Ao longo dos últimos trinta anos, a política nos países do Sahel se deteriorou seriamente. Partidos com histórico nos movimentos de libertação nacional, até mesmo os movimentos socialistas (como o partido de Bazoum), entraram em colapso, tornando-se representantes de suas elites, que são intermediárias de uma agenda ocidental. A guerra entre a França, os EUA e a OTAN na Líbia em 2011 permitiu que grupos jihadistas saíssem da Líbia e se dirigissem para o sul da Argélia e para o Sahel (quase metade do Mali está nas mãos de formações ligadas à Al-Qaeda). A entrada dessas forças deu às elites locais e ao Ocidente a justificativa para restringir ainda mais as limitadas liberdades sindicais e extirpar a esquerda das fileiras dos partidos políticos consolidados. Não é que os líderes dos principais partidos políticos sejam de direita ou de centro-direita, mas sim que, independentemente de sua orientação, eles não têm independência real diante da vontade de Paris e Washington. Eles se tornaram – para usar um termo local – “fantoches” do Ocidente.

Sem nenhum instrumento político confiável, os setores rurais e pequeno-burgueses desprezados do país recorrem a seus filhos nas Forças Armadas em busca de liderança. Pessoas como o capitão Ibrahim Traoré (nascido em 1988), de Burquina Faso, que foi criado na província rural de Mouhoun, e o coronel Assimi Goïta (nascido em 1988), que vem da cidade do mercado de gado e reduto militar de Kati, representam perfeitamente essas frações de classe mais amplas. Suas comunidades foram totalmente abandonadas pelos duros programas de austeridade do Fundo Monetário Internacional, pelo roubo de seus recursos pelas multinacionais ocidentais e pelos pagamentos para as guarnições militares ocidentais no país. Conformando populações abandonadas, sem uma plataforma política real para falar em seu nome, essas comunidades se uniram em torno de seus jovens militares. Tratam-se de “golpes de coronéis” – agrupamentos de pessoas comuns que não têm outra opção – e não de “golpes de general” – agrupamentos das elites para impedir o avanço político do povo. É por isso que o golpe no Níger está sendo defendido em manifestações de massa, de Niamei às pequenas e remotas cidades que fazem fronteira com a Líbia. Quando viajei para essas regiões antes da pandemia, ficou claro que o sentimento antifrancês não encontrava outro canal de expressão a não ser a esperança de que um golpe militar trouxesse de volta líderes como Thomas Sankara, de Burquina Faso, que havia sido assassinado em 1987. O capitão Traoré, de fato, usa uma boina vermelha como Sankara, fala com a franqueza esquerdista de Sankara e até imita a sua dicção. Mas seria um erro considerar esses homens como sendo de esquerda, pois eles são movidos pela raiva em relação ao fracasso das elites e da política ocidental. Eles não chegam ao poder com uma agenda bem elaborada, construída a partir de tradições políticas de esquerda.

Os líderes militares do Níger formaram um gabinete de 21 pessoas chefiado por Ali Mahaman Lamine Zeine, um civil que foi ministro das Finanças em um governo anterior e trabalhou no Banco Africano de Desenvolvimento no Chade. Os líderes militares são proeminentes no gabinete. Resta saber se a nomeação desse gabinete liderado por civis dividirá as fileiras da CEDEAO. Certamente, as forças imperialistas ocidentais – principalmente os Estados Unidos, com tropas no território do Níger – não gostariam de ver esse torque de golpes manter-se vigente. A Europa – por meio da liderança francesa – havia mudado as fronteiras de seu continente do norte do Mar Mediterrâneo para o sul do Deserto do Saara, subornando os estados do Sahel em um projeto conhecido como G-5 Sahel. Agora, com governos antifranceses em três desses estados (Burquina Faso, Mali e Níger) e com a possibilidade de problemas nos dois estados restantes (Chade e Mauritânia), a Europa terá de se retirar para o seu litoral. As sanções para esvaziar o apoio de massas aos novos governos aumentarão, e a possibilidade de intervenção militar pairará sobre a região como um abutre faminto.

(*) Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. É redator bolsista e correspondente-chefe da Globetrotter. É editor da LeftWord Books e diretor do Tricontinental: Institute for Social Research. É membro sênior não residente do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade Renmin da China. Escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. Seus livros mais recentes são Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism e (com Noam Chomsky) The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of U.S. Power

(*) Tradução de Pedro Marin

Globetrotter O Globetrotter é um serviço independente de notícias e análises internacionais voltado aos povos do Sul Global.

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