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Notas sobre as eleições presidenciais no Equador

Em meio à violência, eleições no Equador tiveram participação mais alta em décadas, e correísmo mais uma vez é a força mais votada no primeiro turno
Alfredo Serrano
A candidata correísta e vencedora do primeiro turno, Luisa González (Revolução Cidadã), durante votação no último domingo. (Foto: Luisa González / Facebook)

1. Os cidadãos não tiveram medo de sair para votar, apesar do clima de violência e insegurança. O comparecimento (82,26%) é o mais alto no primeiro turno das últimas duas décadas.

2. O correísmo continua a ser a principal identidade política do país. E, é claro, esse fenômeno tem seu correlato eleitoral. Toda vez que uma votação é realizada no Equador, qualquer fórmula endossada por Rafael Correa sempre fica em primeiro lugar no primeiro turno. Nesta ocasião, ela obteve quase 34%; em 2021, quase 33%; e em 2017, 39%.

3. O resultado de uma eleição seccional não deve ser extrapolado com tanto maniqueísmo para uma eleição presidencial. Há alguns meses, o correísmo venceu nas províncias mais populosas do país (Pichincha, Guayas, Manabí, etc.) e nas principais capitais (Quito, Guayaquil, etc.), mas é preciso lembrar que, nesse caso, não há segundo turno. Portanto, bastou que o correísmo atingisse 27% dos votos válidos em nível nacional para esse enorme sucesso eleitoral.

4. A ideia da “Democracia Spotify” deve ser levada a sério em países onde nos deparamos com um estado falido com alto grau de instabilidade e fragmentação política. Por exemplo, o Equador. Ou Peru. Nesses casos, uma alta porcentagem do eleitorado não politizado muda de candidato como se fosse uma música. E certamente isso explica por que o segundo candidato mais votado poderia ter sido qualquer um. No último domingo, foi a vez de Daniel Noboa (o filho do bilionário Álvaro Noboa). Se a eleição tivesse sido no domingo passado, poderia ter sido Jan Topić. E se fosse na próxima semana, talvez fosse Christian Zurita. Em outras palavras: não há candidato alternativo ao correísmo com voto próprio. E a mesma coisa aconteceu em 2021: naquela ocasião, foram Yaku e Hervas, que tiveram 35%; desta vez, a soma de ambos não chega a 5%.

5. A campanha eleitoral explica parte do resultado, mas não todo. Nesta era de atalhos e alta velocidade, o poder da conjuntura é exagerado e, como resultado, as tendências profundas são eclipsadas. O Tik Tok nunca vencerá a batalha contra o cotidiano.

6. A insegurança é muito importante, mas os cidadãos equatorianos não optaram pela rota Bukele. O tema só contou com o apoio de um em cada dez eleitores (convertido em um voto válido, 14,67%). Por quê? Provavelmente porque outras questões, como emprego e salários, educação e saúde, políticas sociais, etc., também são importantes.

7. O bloco indígena ficou sem candidato; Yaku Pérez não chegou nem a 4% dos votos. E, a partir de agora, Leônidas Iza, presidente da CONAIE, continua sendo o único líder sólido do bloco, com um papel de liderança no futuro, tanto em termos eleitorais quanto políticos.

8. Na ausência de resultados definitivos, a Assembleia Legislativa será mais uma vez força (aproximadamente 50-55 assentos de um total de 137). E os demais, todos com muito pouco. O partido de Noboa, por exemplo, terá uma bancada muito fraca (12).

9. Finalmente: no segundo turno, nem tudo é igual ao de 2021. As principais diferenças são as seguintes: a) O correísmo poderá criticar o governo de Lasso de forma mais eficaz do que pôde fazer com Lenín Moreno (porque ele era considerado por parte da população como o “filho” de Correa); b) O correísmo tem maior poder institucional agora do que antes (agora governa prefeituras e capitais importantes); c) Luisa González é uma candidata com uma biografia muito diferente da de Andrés Arauz, candidato à época; d) Noboa buscará se confrontar mais com Lasso  do que com o correísmo; e) estamos diante de uma disputa entre dois candidatos jovens (45 e 35 anos) e; f) o contexto também mudou: há mais violência, mais insegurança, mais pobreza, mais tráfico de drogas, mais cansaço.

CELAG Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica

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