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Podem as massas torcedoras se rebelar? Marighella, futebol e torcidas organizadas

O futebol é uma manifestação popular que, tal como outros campos da vida social, não é imune às contradições – algo de que Marighella sabia muito bem
Marco Aurélio
Torcida Gaviões da Fiel faz ato em São Paulo por escândalo da merenda no governo do Estado, em 2016. (Foto: Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA)

Era 4 de novembro de 1969, dia de Clássico Alvinegro. Marcado para 9h da noite, o jogo tinha ares de batalha. Há pouco mais de um ano, o Corinthians havia quebrado um jejum de onze anos sem vencer o Santos de Pelé – o grande Pelé, o maior da história. Ainda assim, nos cinco jogos posteriores ao fim do tabu, o Santos havia vencido três partidas, empatando outras duas. Outro tabu à vista?

Naquele mesmo dia, a quatro quilômetros do Pacaembu, na Alameda Casa Branca, Carlos Marighella, o inimigo número 01 da ditadura empresarial-militar brasileira, tinha um encontro marcado com frades dominicanos, aliados na luta contra a ditadura. Uma sessão de tortura no dia anterior deu ao DOPS a informação do encontro, e a emboscada fora armada[1]. Enquanto a batalha do Pacaembu acontecia pacificamente, na Alameda Casa Branca se derramava  muito sangue. A quantidade de tiros disparados foi tal que até mesmo uma investigadora do DOPS e um delegado foram atingidos, além de um protético alemão que passava pelo local. O que houve, na realidade, foi um massacre de um homem desarmado. Massacre que também ocorria no Pacaembu, com o Corinthians vencendo o Santos por 4×1.

Não se sabe exatamente em que momento do jogo a morte de Marighella foi consumada. O que se sabe é que, quando os alto-falantes do Pacaembu anunciaram o martírio do guerrilheiro que incendiou o mundo[2] – que influenciou até mesmo o Partido dos Panteras Negras –, foram ouvidos aplausos no estádio.

Um dos presentes no jogo, o jornalista Juca Kfouri, se sentiu num dilema. Enquanto via seu time golear o alvinegro praiano, tremia o corpo inteiro com a morte do Preto, um dos apelidos que Marighella recebeu de seus camaradas de luta.. O jovem, de 19 anos, que ainda nem sonhava em se tornar o jornalista aclamado que se tornaria, à época da morte de Marighella era motorista de Joaquim Câmara Ferreira, o “Comandante Toledo”, segundo homem da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização em que Toledo e Marighella organizaram a resistência armada contra a ditadura. Juca saiu apressado do Pacaembu, segundo ele, com a sensação de estar “sendo observado como se fosse um ET pela torcida inteira ao deixar apressado a arquibancada”.

Marighella em fotografia do Grêmio Atlético Brasil, clube de futebol fundado no presídio em Fernando de Noronha. (Reprodução)

Para Marighella, o futebol era parte essencial de sua vida. Desde os tempos de criança, quando, por falta de dinheiro, pedia a seu pai, dono de uma oficina, para pregar cravos nas bonitas que utilizava no dia-a-dia, para praticar o tão amado esporte. Torcedor do Vitória, Carlos jogava como zagueiro. O apelido ganho no meio futebolístico era “Bicão siderúrgico”. O futebol, para ele, não era o ópio do povo, como se costumava dizer em alguns círculos militantes – tese que voltou a ter certa popularidade durante a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Pelo contrário, Marighella via o futebol como “a alegria do povo”, como deixou registrado num poema de 1958, em celebração a primeira conquista brasileira da Copa do Mundo daquele ano:

“Uma grande jogada pela ponta direita,
o balão de couro como que preso no pé.
Um drible impossível…
Garrincha sai por uma lado,
e o adversário se estatela no chão.

Gargalhada geral, o Maracanã estremece…
Lá vai o ponta seguindo,
os holofotes varrendo de luz o gramado
O balão branco rolando,
seguro nos pés do endiabrado atacante.

Voa Garrincha, invade a área contrária,
indo até à linha de fundo para cruzar…
E as redes balançam, no delírio do gol.

Garrincha! Garrincha! A alegria do povo,
no balé estonteante do futebol brasileiro.”

Tal como o “balão de couro” preso no pé de Garrincha, o futebol parecia agarrar-se a Marighella: a própria casa em que os seus pais moraram, na Rua da Fonte das Pedras, ocupava um espaço que, em 1951, daria lugar à Fonte Nova,  maior estádio da Bahia. Foi o próprio Marighella quem propôs a construção do estádio nessa região. O futebol estava tão presente no entorno de Marighella que dois de seus camaradas de luta, Pedro Pomar e João Amazonas, só conseguiram fugir da prisão porque os guardas que os vigiavam se distraíram durante a transmissão de uma partida de futebol[3].

Ainda em vida, acompanhou o chamado Jogo Vermelho, um amistoso entre Corinthians e Palmeiras, no ano de 1945 – com vitória de 3×1 do alviverde –, que teve a renda revertida para o Movimento Unificador dos Trabalhadores, órgão vinculado do Partido Comunista do Brasil, de que Marighella fazia parte.

Num relato importante sobre sua vida, Mário Magalhães traz uma passagem[4] em que Marighella, ao ser questionado por um chofer de praça sobre o resultado de uma partida no dia anterior – que não acompanhou –, não soube responder a pergunta. Disse então à sua mulher, Clara Charf:

“Isso nunca mais vai me acontecer. Tenho que estar preparado, o povo adora futebol.”

O seu amor pelo futebol era equiparável ao seu amor pelo povo brasileiro, por sua cultura e seu modo de vida. Não apenas o futebol, mas essencialmente o futebol, foi um elo de ligação entre Marighella e as massas. A sua morte, durante uma partida tão importante que ocorria nas proximidades, foi uma sombria e simbólica coincidência.

Torcer e ser livre: o surgimento das principais torcidas organizadas contra o autoritarismo

A vida de Marighella foi, em certa medida, como a vida da torcida corinthiana, clube pelo qual o revolucionário nutria grande simpatia – e que, entre os anos 1954 e 1977, não ganhou sequer um título: turbulenta, cheia de altos e baixos, retrocessos e avanços, mas sempre lutando ao lado do povo. Torcida essa que no mesmo ano do assassinato de Carlos Marighella havia se rebelado contra o então presidente do clube, Wadih Helu – ligado ao ARENA, partido que deu sustentação à sanguinaria repressão brasileira – devido à ditadura que o político conduzia dentro do clube. Foi durante esse processo de luta, vitorioso em 1971, que surgiram os Gaviões da Fiel, a maior torcida organizada do Corinthians, em julho de 1969, quatro meses antes de perdemos o guerrilheiro urbano. No mesmo ano de 1969, em setembro, foi a vez da Torcida Jovem do Santos nascer. As torcidas organizadas tinham duas coisas em comum: as cores preta e branca e a repulsa pela ditadura. Era uma época em que as organizadas ainda eram pequenas, e as brigas e rivalidades entre elas eram raríssimas, só tendo se intensificado no final dos anos 1980. Uma década após a morte de Marighella, durante mais um Clássico Alvinegro, no dia 11 de fevereiro de 1979, com mais de 100 mil pessoas acompanhando a partida no Estádio Morumbi, os Gaviões da Fiel abriram uma faixa em plena arquibancada, com os dizeres: “Anistia ampla, geral e irrestrita”.

A ideia surgiu de Antonio Carlos Fon, fanático corinthiano e militante da ANL, e de Chico Malfitani, membro fundador dos Gaviões da Fiel.

“Claro que a polícia, na época, não deixaria entrar com uma faixa pela anistia. A gente tirou o couro de um tambor maior, que era um bumbo maior, embrulhamos a faixa e colocamos dentro do tambor. Para mim foi um dia inesquecível. Nossa pequenininha contribuição para que o país caminhasse rumo à liberdade”. (…) Nós abrimos a faixa, e a polícia tentou subir pra nos prender, né? O pessoal da Gaviões fechou a subida. Não tinha liberdade nenhuma, então vários grupos lutaram contra isso. Foram chamados de terroristas e foram repreendidos com tortura, morte e assassinatos”.

Gaviões da Fiel estende faixa por anistia ampla, geral e irrestrita durante clássico. (Gaviões da Fiel / Twitter)

Um mês depois do protesto no Clássico Alvinegro, no mesmo Morumbi, com quase 60 mil pessoas presentes, foi a vez da Torcida Jovem do Santos levantar a mesma faixa, com os mesmos dizeres, em um jogo contra o Palmeiras, que terminou em 2×1 para o clube alviverde.

A ideia surgiu de alguns líderes da organizada santista, mas um deles é especialmente simbólico: Cosmo Damião. Fundando a Torcida Jovem do Santos com apenas 13 anos, o chamado “Pelé das organizadas” – tamanha sua importância –, faleceu no último dia 10 de setembro, aos 67 anos. Seu primeiro ato como membro da torcida que fundou, foi organizar uma doação para crianças carentes da região.

O ato de Cosmo e seus camaradas de torcida irritou a Polícia presente no estádio, que levou grande parte dos santistas para uma delegacia na Vila Sônia, próximo ao estádio. Mas estava feito, e as torcidas demonstraram não só sua insatisfação com a situação do país: mostraram que não nasceram apenas para defender as suas cores, mas, também, para defender um ideal, o do povo..

A importância de Cosmo no universo das torcidas e na luta social foi tanta que, em seu velório, diversos rivais estiveram presentes para dar o último adeus ao homem que enfrentou – à sua maneira – a ditadura e a Polícia Militar.

Torcida Jovem do Santos estende faixa por anistia ampla, geral e irrestrita durante jogo no Morumbi. (Torcida Jovem / Facebook)

De certa forma, atos “ditatoriais” e o futebol sempre estiveram relacionados em certos grupos pertencentes a cultura popular. Não foi diferente com a Torcida Organizada do São Paulo, a TUSP, a primeira fundada no Brasil. Alguns torcedores insatisfeitos com as regras impostas pela TUSP – e denunciando as regalias para uma minoria da torcida –, decidiram que era hora de fundar uma nova torcida organizada. Nasce assim, em 1972, a Torcida Independente, hoje a maior torcida organizada do São Paulo Futebol Clube, e uma das maiores do Brasil. O nome, dado por Ricardo Rapp, membro fundador da torcida, é uma referência e uma homenagem aos movimentos de independência que explodiram em diferentes partes da África, Ásia e América Latina, que efervesceram o mundo, tornando a Guerra Fria cada vez mais quente durante os anos 1970.

Newton Ribeiro, outro membro fundador da Torcida Independente, relembra a repressão que o país e as torcidas enfrentavam  à época.

“O País passava por uma época de muita repressão e ditadura, e sempre éramos molestados pela polícia, que não podia ver um grupinho reunido, já desconfiava tratar-se de um complô”.

Não é à toa que a principal figura da Torcida Independente seja Che Guevara. Um dos maiores símbolos de liberdade do século 20, Che estampa bandeiras, camisetas, faixas, e se tornou até mesmo nome de um agrupamento de torcedores antifascistas da organizada tricolor, o Bonde do Che. A figura de Che se expandiu para as demais aliadas da Torcida Independente – principalmente a Torcida Jovem do Flamengo, a Camisa 12 do Internacional de Porto Alegre, e a Máfia Azul, do Cruzeiro, união essa chamada de Punho Cruzado –, que passaram a carregar Guevara pelos estádios do Brasil. Como provocação, a Torcida Organizada Galoucura, do Atlético Mineiro, adotou, em algumas bandeiras, a figura de René Barrientos, ditador responsável pela morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967, mesmo ano em que a Torcida Jovem Fla foi fundada, se tornando a primeira torcida organizada nos moldes atuais. Esse ato da Galoucura – longe de representar uma suposta ligação da torcida com a direita ou com o fascismo – faz parte desse jogo de xadrez da cultura das torcidas organizadas, que se intensificou, como já dito, com o aumento da violência entre elas, chegando às brigas que hoje vemos quase que semanalmente.

A violência é uma realidade, mas não é uma síntese justa do que representam as torcidas. Devemos levar em consideração a forma como os meios jornalísticos, em geral, tratam os atos violentos das torcidas, e da campanha que grande parte da mídia conduz contra a existência delas. Basta observar como a morte de Rafael dos Santos Tercilio Garcia – membro da Torcida Independente assassinado pela polícia no dia 24 de setembro – teve uma repercussão muito menor do que as mortes causadas pelas brigas entre membros de torcidas organizadas. O desenvolvimento social e econômico tem de ser posto na mesa quando discutimos a violência nos estádios e sua simbologia.

Faixas e bandeiras da torcida Bonde do Che. (Bonde do Che / Twitter)

Um último ato que marcou as arquibancadas dos anos 1970 foi a criação, em 1977, da Coligay. Integrada apenas por homossexuais, foi a primeira torcida desse tipo a surgir no Brasil. Com receio da repressão da ditadura, e pela homofobia que assolava e ainda assola o futebol, o fundador da torcida gremista, Valmor Santos, dava aulas de karatê para todos os membros da Coligay. A torcida era uma das primeiras organizadas do clube gaúcho, e era conhecida por sua animação e forte apoio ao clube. Isso não impediu que o próprio clube e vários de seus torcedores fossem contra a existência da Coligay, em clara posição homofóbica. Mas nada disso impediu que a Coligay se estabelecesse, fosse pelo respeito à sua festa nas arquibancadas, fosse, às vezes, por meio da porrada. O legado da torcida é tão importante que inspirou a criação das torcidas Fla-gay (Flamengo) e Fo-gay (Botafogo). Outro grande legado da torcida – que se assemelha à criação da Torcida Independente, e do lema “Força Independente”, dos Gaviões da Fiel, e do “Nada Pelo Flamengo, Tudo pelo Flamengo”, da Torcida Jovem do Flamengo, dos quais falarei à frente –, era o desejo de ser uma torcida que existia unicamente para apoiar o seu clube, sem depender das diretorias, sem o desejo de obter regalias. Independência e liberdade eram as palavras dos anos 1970, época marcada pelas lutas, armadas ou nas arquibancadas, contra as ditaduras e o colonialismo.

Torcedores da Coligay, torcida organizada formada por homossexuais durante a ditadura. (Kamilarpp / Wikicommons)

Não era apenas no Brasil que ditadura e futebol tinham uma relação contraditória. Aliás, muitos clubes no Brasil tiveram relações próximas com a ditadura, por meio dos mandatários na época, mas é necessário desvencilharmos essas alianças com a atuação dos torcedores que, em maioria, eram gente comum, trabalhadores, muitas vezes militantes. Ou seja, eram alvos primários para o regime.

No Chile, após o golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, o Estádio Nacional de Santiago passou a receber uma série de presos políticos, em números que chegaram a 40 mil pessoas. As lentes do fotógrafo Evandro Teixeira testemunharam a transformação das arquibancadas, santuários do futebol, em prisões onde ocorriam torturas e assassinatos de dissidentes políticos, membros da Unidade Popular e qualquer pessoa que ousasse desafiar o regime de Pinochet.

O caso chileno – como o caso do Real Madrid e da seleção argentina de 1978 – é emblemático para entendermos que, mesmo com as ditaduras utilizando alguns clubes de futebol como instrumento de propaganda, nem sempre conseguiram adestrar os torcedores. O Colo-Colo, maior clube do país, foi completamente instrumentalizado pela ditadura após o golpe. Esse ato tinha a função de coerção social, controle, mas também de propaganda. Como Pinochet costumava dizer: “cuando es cosa de fútbol, la gente no perdona”.

Os financiamentos do clube por meio da ditadura, presidentes ligados ao regime e outros atos fizeram do Colo-Colo, por muitos anos, o “clube da ditadura”. Mas em 1986, com a fundação da La Garra Branca – principal Barra Brava do clube – a alcunha passou a ser rechaçada, não por meio do apagamento histórico, mas sim com a mudança do curso do clube, a conscientização dos torcedores, a participação em protestos e a afirmação da lembrança do que a ditadura de Pinochet representou. O próprio processo de instrumentalização do Colo-Colo, em contraste com a organização dos torcedores comunistas, anarquistas e progressistas do clube, foi o que levou à criação da torcida.

Durante esse processo de estabelecimento das torcidas organizadas, suas lutas e reveses, tornou-se comum a adoção de imagens de figuras históricas – por vezes como provocação aos rivais, por outras, devido aos ideais da própria torcida. Um caso emblemático é o da Torcida Jovem do Flamengo. Fundada em 1967, a torcida se apresenta como o “exército rubro negro”. Influenciado ou não pela política, é um  nome sugestivo se pensarmos na efervescência social pelo mundo. Nos primeiros anos de existência, a torcida era conhecida como Poder Jovem, em alusão ao movimento Black Power que explodia nos Estados Unidos, tendo em Kwame Ture um de seus idealizadores.

Algumas décadas após a fundação da Torcida Jovem Fla, em 1992, deu-se um ato valioso no Estádio do Maracanã. No dia 14 de julho desse mesmo ano, num jogo entre Flamengo e São Paulo, uma faixa foi levantada no meio das arquibancadas. Com os dizeres “Viva Cuba socialista! Viva o socialismo! Viva o marxismo-leninismo! Abaixo o revisionismo!”, a faixa foi não apenas um protesto contra a Rio Eco92, mas também em relação ao momento histórico que o mundo vivia. A URSS havia acabado de cair, as democracias populares do Leste Europeu haviam sofrido uma revolução de veludo, e Cuba ficava numa situação extremamente preocupante. Sem o aporte desses países, a pequena ilha entrou no chamado Período Especial, passando por uma grave crise econômica, boicotes em seu mercado de turismo e mudanças no planejamento econômico.

Não se sabe exatamente se a Torcida Jovem Fla estava de acordo com a faixa, mas podemos deduzir que, no mínimo, foram complacentes. O ato foi realizado pelo historiador João Cláudio Platenik Pitillo, militante comunista e, hoje, comunicador popular no canal Guerra Patriótica.

Torcedores do Flamengo estendem faixa em apoio a Cuba, em 1992. (Flacomuna / Twitter)

Toda essa análise nos traz um panorama interessante sobre o movimento de torcidas no Brasil. Enquanto na Europa um dos fatores determinantes para alianças e guerras entre os grupos são as ideologias políticas, no Brasil, esse fator tem pouca importância. Ainda assim, as torcidas organizadas sempre responderam aos momentos políticos do país, que influenciavam diretamente os clubes de futebol. O esporte não é alheio aos movimentos da estrutura econômica e social; pelo contrário, eles fazem parte do processo de lutas culturais e ideológicas gerados por essas fissuras políticas.

Os acontecimentos no Brasil, entre 2018 e 2023, também abalaram as torcidas e trouxeram análises extremamente liberais nos meios de esquerda e progressistas, escancarando o completo desconhecimento destes sobre o movimento de torcidas. A eleição de Bolsonaro, a política proto-fascista do então presidente, e a preocupação de pelo menos metade do país com os rumos democráticos do Brasil colocaram as organizadas novamente em foco. Apoios de algumas diretorias, isenção de outras, tudo isso colocou na ordem do dia os assuntos que, geralmente, só aparecem nos jornais em clássicos sangrentos – como o que aconteceu no dia da morte de Carlos Marighella.

Somos Democracia? Fura bloqueio, eleições de 2018-2022 e a linha burra de torcidas e partidos

Em 2020, segundo ano de mandato de Jair Bolsonaro, diversos protestos estouraram pelo Brasil. Ali estavam grupos mal vistos, incompreendidos pela sociedade: as torcidas organizadas, caracterizadas ou não, com suas camisetas e faixas ou a paisana. Membros de diversas torcidas foram às ruas, exigindo democracia, num país em que, diariamente, o fantasma da ditadura teimava em nos assombrar. Muito se falou sobre a participação das organizadas nesses atos, mas a maioria das análises não conseguiram capturar as contradições do real. Debates como os levantados pela Democracia Corinthiana, por exemplo, voltaram às pautas. Em São Paulo, torcedores de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos – grande parte deles membros de torcidas organizadas –, gritavam por democracia, em clara discordância ao governo de Bolsonaro. No Rio de Janeiro, torcedores do Flamengo também foram às ruas. As manchetes sensacionalistas focaram, em grande parte, na “união” dessas torcidas, em contraste com a violência entre elas, sempre tratadas como o principal motivo das torcidas existirem.

Ao final de 2022, após a eleição de Lula, que venceu Bolsonaro, as torcidas voltaram ao foco dos jornais, dessa vez de forma mais enfática. Derrotados nas urnas, a parte mais extremista e lunática da base de apoio ao ex-presidente fez uma série de bloqueios pelas estradas do Brasil, levantando acampamentos e pedindo novas eleições. É claro que esse movimento, não só apoiado por Bolsonaro, foi financiado por empresários que colocavam seus interesses particulares acima dos resultados das urnas. Os bloqueios, que duraram meses – e se iniciaram ainda em novembro de 2022 –, foram notícia quase diariamente, no país e no mundo, e desembocaram no 8 de janeiro. Ao mesmo tempo, o Campeonato Brasileiro chegava ao seu fim, e as torcidas brasileiras – famosas pelas longas viagens pelo país, para acompanhar o time do coração –, riscavam o Brasil para ver as últimas partidas do campeonato. No dia 1 de novembro, a Torcida Galoucura, durante viagem para São Paulo, furou um bloqueio feito na Rodovia Fernão Dias. Segundo o presidente da torcida, Josemar, o bloqueio era apolítico:

“Se precisar da tropa do fura bloqueio é só chamar. Todo bloqueio que tiver, nós vamos tirar. Não tem essa de Bolsonaro ou Lula, nós queremos ver o Galo”.

No mesmo dia, a caminho do Rio de Janeiro, onde o Corinthians enfrentaria o Flamengo, os Gaviões da Fiel furaram um bloqueio na Rodovia Dutra. Na terça-feira, dia 2 de novembro, os Gaviões furaram outro bloqueio, já na Marginal Tietê, em São Paulo. Aos gritos de “Fora, Bolsonaro”, e “Democracia”, um grande grupo de membros da organizada expulsou os bolsonaristas da pista, e penduraram faixas na rodovia com os dizeres “Somos Democracia”. O que viria a se chamar de “Tropa Fura Bloqueio” se estendeu para as torcidas organizadas do Coritiba, do Cruzeiro, do Palmeiras, e várias outras.

Esses atos foram o grande assunto nos jornais e nas redes sociais naquela semana. Mas o que se presenciou foi um show de análises clubistas e liberais sobre os acontecimentos. Desde pessoas que diziam querer passar a torcer para os times cujas torcidas estavam envolvidas nos atos, até aqueles que, de forma errônea, passaram a considerar as torcidas participantes no furo dos bloqueios como “de esquerda”, e torcidas que não participaram como “apoiadores do Bolsonaro”.

Muitos corintianos, por exemplo, se decepcionaram com a declaração dos Gaviões da Fiel, em 2022, de que a torcida não tomaria um lado nas eleições daquele ano. Em 2018, a diretoria então atuante declarou apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad. Esse ato foi visto como uma degeneração da torcida por grande parte dos corintianos e rivais. Outras grandes torcidas renunciaram a tomar posição diante da eleição, o que, para alguns, contrariava os ideais de fundação dessas mesmas torcidas.

É importante ressaltar que as opiniões dos torcedores sobre os motivos que os levaram a furar os bloqueios não refletem, necessariamente, a opinião de suas instituições como um todo. Rachas e disputas internas no universo das organizadas são muito mais comuns do que se possa imaginar. Por diversos motivos, e muitas vezes, pela política, dissidências são criadas, diretorias são cobradas e as organizadas, como parte integrante da sociedade, se vêem num dilema.

Isso só pode ser explicado se entendermos que as torcidas, diferentemente de partidos e coletivos, não são movimentos essencialmente políticos. Se pensarmos esses grupos de torcedores como grupos culturais, conseguimos entender que, num espaço democrático – torcidas organizadas têm eleições de presidente, conselhos deliberativos, etc –, divergências de opiniões são comuns, e torcedores de diversos espectros políticos convivem entre si. São raros os momentos em que as torcidas, de forma oficial, apoiam ideologias ou candidaturas.

Diante desses fatores, vimos o surgimento, nos últimos anos, de uma série de coletivos de torcedores antifascistas nos principais clubes do país. Para citarmos alguns, temos a Porcomunas (Palmeiras), Coletivo Democracia Corinthiana (Corinthians), Bonde do Che (São Paulo), Santos Antifascista (Santos), Xavantes Antifascistas (Brasil de Pelotas), Frente Esquadrão Popular (Bahia), Nação 12 (Flamengo), Vascomunas (Vasco da Gama), Brigada Maarighella (Vitória), e muitas outras. Esses coletivos, grosso modo, foram os responsáveis por um manifesto em 2018 em apoio a Fernando Haddad, alguns dias antes das eleições daquele ano. Interessante notar que, mesmo com a dificuldade de se posicionarem de forma oficial, várias torcidas organizadas assinaram o manifesto.

A criação desses coletivos de esquerda são, de certa forma, uma resposta à falta de posicionamento de grande parte das torcidas organizadas diante da política brasileira. Outros temas, como o racismo, a homofobia e o machismo, muito caros ao futebol, são também motivos pelos quais esses coletivos existem – inclusive com a participação de membros de torcidas organizadas. Mas, a meu ver, a atuação desses coletivos não pode se dar num espaço fora da esfera das torcidas organizadas, que concentram um número gigantesco de membros. Os coletivos, se quiserem de fato uma torcida popular, democrática e apoiadora de pautas progressistas e de esquerda, devem travar as batalhas dentro dos espaços das torcidas organizadas. O amor ao clube, por muitas vezes, supera o alinhamento político, e isso deve ser levado em conta quando analisamos todo o processo pelo qual as torcidas vêm passando desde os anos 90.

Certas obrigações colocadas para que as organizadas cumpram são, na realidade – e sob uma perspectiva marxista –, tarefas que devem ser realizadas por partidos de vanguarda. As torcidas refletem o momento social, mas não são, de forma alguma, o fio condutor do povo à revolução, nem podem ser uma espécie de “reserva estratégica” das esquerdas em momentos de tensão. Devemos entender as torcidas no momento histórico, diante dos acontecimentos. Se, nos anos 1960 e 1970, grande parte delas foram fundadas para combater a ditadura – fosse a vigente dentro dos clubes ou a vigente no país–-, hoje vivemos um outro momento, ainda que as palavras “democracia” e “ditadura” tenham voltado ao vocabulário com toda a força.

A rivalidade, por muitas vezes, impede que as torcidas se unam em prol de pautas que são do interesse de todas elas. Mas isso não significa que não existam pautas em comum, e que elas não sejam abordadas entre as torcidas. Os assassinatos de torcedores pelo aparato de segurança do Estado, o alto valor dos ingressos, a arenização do futebol e o afastamento das massas dos estádios são pautas em comum de praticamente todas as torcidas organizadas do Brasil. Juntas ou não, elas lutam por um futebol popular, e as contradições vigentes dentro desse universo – um tanto machista e homofóbico –, devem ser tensionadas ao extremo para que novas pautas possam fazer parte das reivindicações das torcidas organizadas.

Torcedores do Palmeiras e do Corinthians estendem faixas durante ato do Grito dos Excluídos em São Paulo, em 2021. (Pedro Marin / Revista Opera)

Mas, volto a dizer, e acredito ser importante frisar, que não se pode esperar das torcidas organizadas a atuação de um partido político. Se somos leninistas, isso deve estar na ordem do dia, e o futebol – como a música popular –, deve ser colocado como ponto de alta importância para o trabalho de base. Alas dentro de diversas torcidas, compostas por membros progressistas, têm atuado há anos, por exemplo, junto ao MST e outros movimentos populares. Nada é estático nesse universo, mas quem abandona as contradições cai em falácias liberais, que impedem o entendimento do que são as torcidas organizadas, para que elas servem, e como elas podem ter um papel chave na sociedade.

Um futebol popular precisa de instituições populares, mas, como qualquer outra atividade composta por parasitas que necessitam do lucro sobre o trabalho alheio, são os torcedores que precisam brigar por isso. A violência de que tanto se fala nos jornais após os grandes clássicos Brasil afora, também pode ser usada como ferramenta de democratização do futebol e de seus agentes. Precisamos discutir não apenas os salários exorbitantes oferecidos aos jogadores de grandes clubes, em contraste com a miséria com o qual a maioria dos clubes do Brasil convivem, mas, também, a situação dos torcedores – organizados ou não –, seja pelos valores pagos pelos ingressos, pela proibição de grandes festas nos estádios, ou pela atuação da polícia, que, apesar de não ser vista como participante da violência no futebol, é peça chave nesse problema que perdura por anos e no mundo todo.

Um grande exemplo dessa aliança e camaradagem entre as torcidas -– que, claro, precisa superar uma série de adversidades, e ser entendido em seu momento histórico –, aconteceu em 1984, durante o maior comício das Diretas Já. No meio daquela multidão, que ultrapassava as centenas de milhares, estavam as principais torcidas organizadas de São Paulo. 1984 era uma época em que, por exemplo, a Mancha Verde havia sido recém fundada, Gaviões da Fiel e Torcida Independente tinham uma relação de respeito, e as guerras entre torcidas organizadas ainda não haviam tomado a proporção de hoje.

No ato, em São Paulo, além da presença de alguns jogadores, as torcidas Independente, Gaviões da Fiel, Leões da Fabulosa, TUP, Mancha Verde e Torcida Jovem do Santos se fizeram presentes. As baterias das torcidas animavam o comício, enquanto seus integrantes, junto das massas,  reivindicavam eleições livres e o fim da repressão. Segundo o já citado Cosmo, em entrevista para o Uol:

“Nós atuamos muito em conjunto com a sociedade. A batucada da Gaviões da Fiel e da Torcida Jovem animava os comícios na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita. A bateria das Diretas Já era a bateria da Torcida Jovem e da Gaviões. Foi uma coisa maravilhosa. (…) Esses anos 80 foram brilhantes para as torcidas organizadas. Anos de politização e de conquista. Foi uma coisa brilhante, inesquecível para esse país.”

O que podemos tirar dessas lições históricas é que, sempre que o Brasil estremecer diante de mudanças políticas, econômicas e sociais, lá estarão as torcidas organizadas, furando bloqueios, derrubando ditadores e acompanhando os seus clubes. O importante é entender como podemos captar essa rebelião em favor de um futebol e uma sociedade realmente populares. A ditadura, em parte, responsável pela criação da maioria das torcidas organizadas de primeiro escalão no Brasil, ainda hoje é extremamente mal vista por essas organizações. Com suas contradições e pluralidades de posições, é quase unânime entre as torcidas que o período democrático ainda é o melhor para todas elas, mesmo com toda a repressão que sofrem. Talvez possamos desmistificar o que é a democracia brasileira, para que ela, também, se torne a inimiga número 1 das torcidas organizadas, como Marighella foi para a ditadura.

Parafraseando o mesmo Carlos Marighella, durante conversa com Frei Oswaldo[5], sobre o desejo do revolucionário Carlos Lamarca de abandonar o exército, em 1969:

“Não é o momento de sair da posição. Precisamos dele lá. Toda revolução tem a sua linha burra!”[6].

(*) Marco Aurélio, mais conhecido como Marcola, é nascido e criado na zona sul de São Paulo. Estudante de história e fotógrafo documental nas horas vagas, há sete anos escreve e pesquisa o rap, samba e outros temas da cultura popular brasileira. Em 2022, participou, como pesquisador, do projeto “A Timelife of Brazilian Hip-Hop” junto ao Spotify Global, e, em 2023, tem participado do projeto “Clube de leitura do Rap”, no Centro Cultural São Paulo. É colunista da Revista Opera.


Notas:
[1] Para entender o assassinato de Carlos Marighella de forma mais completa, leia a matéria “1969: Carlos Marighella, líder da ALN, é morto em São Paulo pela Operação Bandeirante”, na Folha de São Paulo.
[2] A alcunha “guerrilheiro que incendiou o mundo” é uma referência ao título da biografia de Carlos Marighella, escrita pelo jornalista Mario Magalhães.
[3] MAGALHÃES, Mario. Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 142.
[4] Idem. p. 208.
[5] Idem. p. 440.
[6] A linha burra constitui da manobra do time defensor (na hora da execução da jogada) para que o time adversário (que está no ataque) fique na condição de impedimento. Antes do passe ou da cobrança de falta (em questão de segundos) os jogadores do time defensor saem todos de vez, deixando vários jogadores impedidos.
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