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Henry Kissinger, Persona Grata

Levará algum tempo até que Kissinger seja visto como foi: um estudante muito bom dos humores e um fiel servidor dos interesses da elite de seu país
Thomas Meaney
Henry Kissinger, ex-secretário de Estado norte-americano falecido em 29 de novembro de 2023. (Foto: David Hume Kennerly / LBJ Library)

O velho bastardo finalmente morreu.

Consigliere de Jared Kushner, membro do conselho da empresa de biotecnologia Theranos, coautor do CEO da Google, vendedor de ouro e da revista The Economist na televisão americana, produtor em massa de uma prosa auto-elogiosa, caçador de ocupações americanas no Oriente Médio, glorificado operador de mesa telefônica entre Washington e Pequim: a extensão do interminável crepúsculo de Henry Kissinger (1923 – 2023) só foi igualada por sua vulgaridade. Nisto, como em muitos outros aspectos, ele foi um produto comum de seu país. A ideia de que a cumplicidade com os massacres do Paquistão Oriental ao Timor Leste foi um salto quântico nos anais da atrocidade americana faz dele uma figura quase conveniente demais tanto para seus apologistas quanto para seus detratores: ela o eleva ao status (há muito almejado por ele mesmo) de mente decisiva da política externa dos EUA no pós-guerra, ao mesmo tempo em que dá a seus defensores mais ágeis um edifício de infâmia generoso demais para ser destruído. Teria sido assim tão inesperado que o país que bombardeou civis japoneses para levar Tóquio à mesa de negociações acabasse também bombardeando cambojanos numa tentativa de levar Hanói à mesa de negociações? O apoio ao massacre dos timorenses seria um desfecho incomum em relação ao apoio à execução em massa dos “comunistas” da Indonésia? Foi assim tão chocante o fato de que a classe política que havia instalado o xá no Irã também facilitaria o caminho para Pinochet? Será que o histórico do Dr. Kissinger no Oriente Médio foi realmente pior do que o do seu velho nêmesis, o Dr. Brzezinski? Para saber o que o distinguia, talvez seja necessário olharmos para outros contextos.

O conceito que guiou a carreira de Kissinger foi o fato de apresentar as necessidades geopolíticas (ele nunca gostou muito do termo “realismo”) a um país encantado por sua própria inocência e prejudicado pelo seu próprio idealismo. (“O idealismo americano… derrotou a si mesmo com as suas próprias armas” é o sentimento repetido ad infinitum nos seus livros e memórias). As ironias aqui eram múltiplas. A primeira era a de que um país liderado por estadistas de pulso firme, de Teddy Roosevelt a Dean Acheson, passando por Richard Nixon, estava de alguma forma submisso a idealistas covardes que necessitavam de uma dose de Realpolitik alemã, como se a classe dominante norte-americana nunca tivesse sido perfeitamente implacável na busca dos seus interesses. De fato, ela era muito admirada por isso no suposto seio “realista”. “Nós, alemães, escrevemos grandes obras sobre a Realpolitik, mas não a compreendemos melhor do que os bebês em um berçário”, recordava essa frase Walter Weyl, editor da revista New Republic, ouvida de um professor de Berlim durante a Primeira Guerra Mundial. “Vocês, americanos, compreendem-na bem demais para falarem sobre ela.” “Como um alemão que observa o imperialismo americano”, dizia Carl Schmitt, “só posso sentir-me como um mendigo em trapos falando sobre as riquezas e tesouros dos estrangeiros”. Tal como Baudrillard disse uma vez sobre a teoria francesa, a Realpolitik alemã era como a Estátua da Liberdade: um presente do Velho Continente que os americanos não queriam e do qual não precisavam.

A segunda ironia é que o próprio Kissinger nunca foi de fato um “realista”; pelo menos não no sentido de um John Mearsheimer ou de um Hans Morgenthau. Ele acreditou desde o início que os EUA só poderiam triunfar através de um comprometimento máximo com a sua própria ideologia missionária. “Uma sociedade capitalista, ou, o que é mais interessante para mim, uma sociedade livre, é um fenômeno mais revolucionário do que o socialismo do século XIX”, disse Kissinger em 1958. “Penso que devemos passar à ofensiva espiritual”. Mesmo quando estava atuando sob um disfarce realista, muitos dos seus julgamentos parecem ter sido baseados em uma superestimação drástica do poder comunista, nitidamente expressa em sua teoria da “ligação”. Era preciso dar uma lição aos vietnamitas para que Castro não tivesse ideias. Pinochet tinha de ser instalado no poder para amedrontar os comunistas italianos. Era uma imagem do mundo em que cada ação estava ligada a outra. Mesmo o seu famoso conhecimento da China estava repleto de avaliações bizarras, como a de que tinha valido a pena para a China que Deng Xiaoping desperdiçasse 40 mil soldados na sua aventura contra o Vietnã, uma vez que, afinal, isso impedia que o Império Soviético se estendesse até Phnom Penh e Banguecoque.

Kissinger descobriu antes da maioria dos seus colegas que a fama é o trunfo definitivo na vida americana. A sua posição permitia-lhe, por vezes, falar com menos eufemismos do que o resto do establishment. Em vez de simplesmente negar o bombardeio ilegal do Camboja, Kissinger expôs com muita frieza a sua lógica, como uma resposta norte-americana pela utilização do país por Hanói para as suas linhas de suprimento, ao mesmo tempo em que afirmava que isso tinha acelerado o processo de paz. O que Kissinger mais admirava na diplomacia eram manobras inesperadas. Talvez a sua jogada favorita na história da diplomacia europeia tenha sido as negociações matrimoniais de Bismarck – que Kissinger admirava muito mais do que Metternich – para conseguir a mão de Johanna von Puttkamer. Lidando com um possível sogro pietista, que não via com bons olhos o jovem atrevido, Bismarck agarrou Johanna em frente ao pai dela e deu-lhe um beijo, tornando as núpcias um fato consumado.

No entanto, apesar de todas as jogadas surpreendentes que Kissinger viria a celebrar na sua própria carreira (o “roque” da China e da União Soviética foi ideia de Nixon), ele era mais conhecido pela sua absoluta convencionalidade em praticamente todas as questões de política externa. Nunca apareceu sob um ângulo enviesado como Kennan. O seu método característico era encontrar razões ocultas para o que o Estado já estava fazendo: Bósnia; a Guerra do Iraque (com base na violação da zona de exclusão aérea por Saddam Hussein e não nas armas de destruição em massa); no início deste ano, em uma típica reviravolta, ele até endossou a entrada da Ucrânia na OTAN. Em troca, Kissinger foi persona grata em todas as administrações. “Ele se comunicava comigo regularmente, compartilhando observações astutas sobre líderes estrangeiros e me enviando relatórios escritos sobre suas viagens”, Hillary Clinton observou sobre seu período no cargo de secretário de Estado. “Provavelmente, falo mais com Henry Kissinger do que com qualquer outra pessoa”, disse Dick Cheney no auge da segunda invasão do Iraque. “Somos amigos há muito tempo”, disse o presidente Trump, seguindo o roteiro. “É um homem por quem tenho muito, muito respeito”. (Em um contraste raro, as palavras de condolências de Biden para a família de Kissinger parecem ter sido uma espécie de “foda-se”).

Na galeria dos guerreiros da Guerra Fria, uma das características que de fato distinguia Kissinger era a sua atitude em relação ao Terceiro Mundo, que chegou a considerar uma ameaça maior do que a União Soviética. Kissinger sentia-se à vontade na rivalidade entre as duas potências – todos aqueles almoços agradáveis com Dobrynin! – mas a perspectiva de as nações do Sul utilizarem a riqueza do petróleo para se modernizarem e desafiarem a ordem liderada pelos EUA era intolerável. Daí tantas fotografias de Kissinger conversando com Suharto e Mobutu, e a razão pela qual se preocupava em manter contato com especialistas em descolonização, como o seu velho colega de Harvard, Rupert Emerson. Em meados da década de 1970, Kissinger começou a empenhar-se em um trabalho ideológico público para contrariar a retórica da Nova Ordem Econômica Internacional, e em um trabalho logístico privado para redirecionar as receitas do petróleo da OPEP para Wall Street, e não para projetos de desenvolvimento. Isto passou a ser visto como preferível a encontrar um pretexto para uma ação militar contra os países da OPEP, que Nixon e Kissinger também ponderaram.

Como é que Kissinger se tornou um buraco negro historiográfico tão ávido, sugando a atenção de historiadores, jornalistas e críticos da política externa dos EUA de todos os outros cantos, concentrando-os numa única figura? Uma das razões é o fato de Kissinger ter sido um dos primeiros produtos da academia meritocrática do pós-guerra a ascender a tal patamar. A amargura que os seus colegas universitários sentiram por um dos seus ter acumulado tal poder fez dele o objeto negativo especial de fascínio deles, movidos por uma inveja inconfundível por um homem cujas decisões mais importantes já não incluíam a concessão ou não de um título a um membro júnior da faculdade. O resultado foi uma apreciação mútua, com os historiadores acadêmicos enaltecendo Kissinger, e Kissinger os enaltecendo em troca (comum nas gravações Nixon-Kissinger é seu deslize de falar sobre alvos de bombardeio vietnamitas para se queixar dos “professores”). Em Niall Ferguson, Kissinger escolheu astutamente um adepto que o defenderá em todos os sentidos (já em seu primeiro volume da biografia sobre Kissinger, Ferguson argumentou, não injustamente, que a essência dos relatórios de Kissinger para a equipe de Nixon sobre as negociações de paz em Paris poderia ter sido obtida por qualquer leitor atento de jornais).

Mais importante do que a lógica acadêmica, porém, era a compreensão de Kissinger dos pontos fracos do corpo de imprensa norte-americano. Mestre em lisonjear os jornalistas, ou em aborrecê-los quando necessário, ele estava nos seus melhores momentos quando os outros estavam mais desorientados: nas entrevistas improvisadas, na enxurrada de perguntas no palanque de uma coletiva. Durante um período em que os intelectuais eram celebridades nos Estados Unidos, e na esteira de uma administração Kennedy repleta deles, Kissinger projetou uma inteligência gigante fermentada por um timing cômico, o “Dr. Estranho” de Peter Sellars que ganhava vida de forma inusitada e encantadora. Tinha uma aljava de frases autodepreciativas à mão. Ele estava, como gostava de dizer, sempre tentando “organizar uma resposta evasiva”. Neste domínio, tinha aprendido mais com Kennedy do que com Nixon: nunca deixar a imprensa esquecer que você é um deles. É possível ouvir o clique do conluio nas risadas de fundo de suas piadas. Ao dar as boas-vindas a diplomatas estrangeiros, ele sussurrava: “não enfrentava um público tão distinto desde que jantei sozinho no Salão dos Espelhos em Versalhes”. Pode demorar algum tempo até que Kissinger seja visto em suas devidas proporções: um estudante excepcionalmente bom dos humores e um fiel servidor dos interesses da elite de seu país.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Sidecar O Sidecar é o blog da revista New Left Review, fundado em 2020.

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