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Nem Oriente Médio, nem Ucrânia: a prioridade dos EUA é o Ásia-Pacífico

A ascensão da China põe em risco o projeto norte-americano. Por isso tanto Trump como Obama e Biden priorizaram a estratégia para o Ásia-Pacífico
Eduardo García Granado
Um marinheiro norte-americano ao lado de uma bandeira chinesa durante uma visita portuária de navios norte-americanos à China em novembro de 1986. (Foto: Charles L. Mussi / The U.S. National Archives)

A ascensão de Barack Obama à presidência dos EUA em 2009 alterou substancialmente a estratégia internacional de Washington. Foram-se os dias em que o esquema de poder imperialista dos EUA se baseava no Oriente Médio. É claro que Israel permaneceria na região como um enclave privilegiado da engrenagem coletiva de dominação internacional sediada na Casa Branca, enquanto os países em torno de Tel Aviv manteriam uma atenção relativa por parte do hegemon, principalmente devido ao seu papel na disputa internacional por recursos energéticos.

É verdade que hoje, com o conflito palestino-israelense entrando em uma nova fase em função da escalada e intensificação da violência sionista contra o povo palestino, os Estados Unidos voltaram a dar uma certa centralidade à região. No entanto, há uma dinâmica subjacente a ambas as conjunturas: tanto a guerra na Ucrânia como o genocídio sionista na Palestina foram, em certa medida, “delegados” desde a perspectiva dos EUA. A administração Biden procurou – a partir de um equilíbrio complexo – colocar o ônus do esforço em ambas as frentes nos países europeus, em primeiro lugar, e no próprio Estado de Israel, em segundo lugar. Além disso, por uma questão de preferência estratégica, Washington não quis nem a “europeização” da guerra na Ucrânia – um cenário terceirizado em que o povo ucraniano tem agido durante anos como peões na pressão imperialista dos EUA contra o Estado russo – nem a regionalização do conflito no Oriente Médio. Os EUA se beneficiam de certos níveis de conflitividade em ambos os pontos, desde que não haja uma escalada até o ponto em que a sua própria intervenção direta se torne inevitável.

Acontece que, apesar da continuidade da sua agenda de interferência na América Latina e da sua pretendida dominação através de subalternos na Europa e no Oriente Médio, Washington alterou o seu foco para a região do Ásia-Pacífico. Esta nova priorização foi explicitamente declarada nas Orientações Estratégicas de Defesa de 2011, nas quais as alianças com certos atores regionais, como a Coreia do Sul, foram definidas como “críticas”, embora meses antes a estratégia já tivesse sido esboçada pela então Secretária de Estado Hillary Clinton em um artigo na revista Foreign Policy, onde afirmava que o foco tinha de se desviar dos anteriores “dois teatros” (Iraque e Afeganistão) para o Ásia-Pacífico, onde Washington deveria investir o seu tempo e energia para sustentar a sua liderança, interesses e valores. Anteriormente, em 2010, a importância estratégica das alianças com o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, as Filipinas e a Tailândia já havia sido mencionada na definição da Estratégia de Segurança Nacional de 2010.

O esquema de poder global que Washington imprimiu na realidade internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial tem sido um esquema coletivo. Nele, uma boa parte – senão todos – dos Estados centrais do sistema capitalista foram colocados sob o comando exclusivo da Casa Branca. Assim, a lógica de disputa inter-imperialista que definia as relações internacionais desde as últimas décadas do século XIX deu lugar a uma dinâmica de bloco único, supostamente unipolar. O eixo imperialista, estrategicamente dirigido pelos Estados Unidos – ainda que delegando aos seus subordinados a gestão da exploração econômica e política de certas periferias –, foi construído em torno do hegemon norte-americano, que ficava responsável pela coordenação estratégica e pela liderança cultural e política.

Este imperialismo coletivo passou por várias fases no que diz respeito à sua orientação. O confronto com a União Soviética e a guerra contra o comunismo no Sul Global marcaram as décadas de 1950, 1960 e 1970. O eixo imperialista esteve no centro dos processos políticos anti-revolucionários na América Latina, na África e na Ásia. Durante a década de 1990, o impulso da nova globalização capitalista e o aparente unipolarismo das relações internacionais permitiram um curto período de tranquilidade a este eixo. A guerra contra o terrorismo fez do Oriente Médio o principal foco do avanço imperialista. Sob Obama, esta lógica foi efetivamente alterada através da intensificação de alianças com atores como a Coreia do Sul, o Japão ou a Austrália e a crescente presença norte-americana em Taiwan, talvez o palco principal da nova etapa imperialista.

Por que agora e por que a Ásia? A resposta rápida tem apenas cinco letras: China. A reconstrução da sociedade e da economia chinesa iniciada sob a liderança de Deng Xiaoping (1978-1989) lançou as bases do que é hoje uma poderosa República Popular da China que redefiniu a escala econômica, comercial, política, diplomática e simbólica internacional. Independentemente da natureza – ainda pouco clara – a longo prazo do projeto de socialismo chinês redefinido por Deng Xiaoping e atualmente liderado por Xi Jinping, o que é claro é que a sua existência torna o sonho dos EUA de uma ordem unipolar impossível.

Na verdade, essa experiência durou apenas uma década e meia: nos anos 90, uma multiplicidade de fatores convergiram para tornar possível a ilusão da hegemonia incontestável do imperialismo norte-americano e da sua cadeia de alianças e de dominação coletiva: o bloco soviético acabava de se desintegrar e a Rússia encontrava-se mergulhada numa crise econômica e política que dificultaria a sua reacomodação militar; a China estava ainda na fase inicial da “economia de mercado de orientação socialista” ou do “socialismo com características chinesas”; a América Latina, liderada politicamente pelas várias expressões nacionais do consenso de Washington – com a esquerda ainda abatida pelas noites repressivas dos governos militares alinhados com os Estados Unidos – aceitava as “relações carnais” com o império, etc.

Sob Jiang Zemin (1989-2002) e Hu Jintao (2002-2012), a China prosseguiu o caminho reformista iniciado por Deng. A eclosão da crise de 2008 e a consolidação do crescimento econômico da China tornaram evidente a nova realidade. Pequim pôs fim ao esquema unipolar. A sua expansão comercial – hoje é o principal parceiro comercial de uma multiplicidade de Estados em diferentes regiões – é um desafio frontal à hegemonia do imperialismo coletivo liderado pelos Estados Unidos. Para muitos Estados, é agora impossível recuperar a retórica unipolar; mesmo que as suas classes dirigentes tivessem esse preconceito, e mesmo que os governos eleitos desejassem um alinhamento total com Washington, a dependência comercial em relação ao gigante asiático os impede – razão pela qual o presidente argentino Javier Milei teve de tentar retomar rapidamente os seus laços com o país.

As elites norte-americanas, cujos interesses de classe se inspiram no dogma do “destino manifesto” nacional, estão reagindo a esta nova realidade, apesar de serem elas próprias, em muitos casos, dependentes de Pequim. Neste sentido, não se pode ignorar que as guerras preventivas e comerciais, as pressões diplomáticas e as interferências políticas fazem parte de uma estrutura de poder que responde a uma máxima historicamente reconhecida pelos diferentes grupos de poder nos Estados Unidos: a formação de uma nova potência econômica ou militar que desafie o domínio de Washington sobre o planeta não deve ser permitida. É por isso que a região do Ásia-Pacífico tem sido priorizada e que se procura tensionar os diferentes cenários a partir dos quais a China pode ser pressionada: Taiwan e Coreia são alguns deles.

Incapazes de impedir a expansão econômica da China, os Estados Unidos concentraram-se na diplomacia e, sobretudo, na vertente militar. Com tropas no Japão, na Coreia do Sul, na Tailândia, nas Filipinas, na Indonésia, na Malásia e na Austrália, os Estados Unidos utilizam a sua rede de alianças e a erigem como uma verdadeira base de operações. Em relação a Taiwan, a situação é um pouco diferente, embora Washington continue a ser o principal parceiro internacional de Taipei e o seu principal fornecedor de armas, nos termos da Lei das Relações com Taiwan de 1979, aprovada após o reconhecimento da República Popular da China, que estipula que Washington deve “fornecer a Taiwan armas de natureza defensiva” e “manter a capacidade dos Estados Unidos de resistir a qualquer recurso à força ou a outras formas de coerção que ponham em perigo a segurança ou o sistema social ou econômico do povo de Taiwan”.

Uma espécie de corrida armamentista define as relações entre os EUA e a China, apesar de Washington continuar liderando o ranking mundial em gastos militares anuais. As pressões do imperialismo norte-americano e dos seus aliados sobre Pequim definem as relações internacionais, uma vez que a ascensão do gigante asiático continua sendo o principal desafio global à hegemonia do bloco que governa o mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No plano diplomático, o eixo depara-se com a dificuldade de a China ter se consolidado como um ator fundamental para as economias nacionais de uma boa parte dos Estados do mundo, que não podem virar as costas a Pequim, mesmo que aceitem a retórica anti-China. Às alianças Ásia-Pacífico, à tríade Washington-Seul-Tóquio, ainda em desenvolvimento, há que acrescentar a aproximação de Washington aos Estados da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático). A resolução a longo prazo desta dialética definirá o século XXI e ocorrerá a todos os níveis ao mesmo tempo: econômico, militar, político, diplomático, comercial e cultural.

(*) Eduardo García Granado é analista internacional, com formação em Ciências Políticas e Administração pela  U.N.E.D e mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Nacional de San Martín.

(*) Tradução de Raul Chiliani

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