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Os escudos humanos de Israel

Os mapas e a história revelam: entendendo que o sucesso de Israel dependia que cada civil fosse um soldado, o sionismo também criou seus “escudos humanos”
Yasha Levine
Torre de vigilância no assentamento de Menuha, no centro-sul de Israel. (Foto: fabcom / Flickr)

Outro dia, li uma notícia no jornal israelense Haaretz sobre os últimos apelos à limpeza étnica nos mais altos níveis do governo de Israel, desta vez por parte do ministro das Finanças de Netanyahu, Bezalel Smotrich, que dirige um partido político de colonos que quer anexar a Cisjordânia e, claro, se opõe a qualquer acordo que envolva a concessão de terras ou direitos aos palestinos. A sua ideia de limpeza étnica? Reduzir a população de Gaza em ao menos 90%.

O ministro das Finanças disse que Israel deve controlar o território da Faixa de Gaza e reduzir significativamente o número de palestinos lá residentes. Em entrevista à rádio do exército israelense, o ministro de extrema-direita disse que a sua “exigência” tinha como objetivo evitar que a Faixa de Gaza se tornasse um “celeiro onde dois milhões de pessoas crescem em meio ao ódio e a aspiração de destruir o Estado de Israel”. Embora não tenha descrito o seu método preferido, Smotrich sugeriu que a expulsão de cerca de 90% dos habitantes de Gaza ajudaria a atingir esse objetivo. “Se houvesse 100 mil ou 200 mil árabes em Gaza e não dois milhões, o discurso sobre o dia seguinte seria diferente”, afirmou.

Smotrich não está dizendo nada radicalmente novo aqui. Desde que Israel começou a destruir Gaza com uma das maiores campanhas de bombardeio da história moderna, houver= várias propostas e declarações sobre a necessidade de reinstalar “voluntariamente” os palestinos de Gaza em algum país terceiro, seja o Egito, a Jordânia, a América do Sul, algum lugar da África, a União Europeia ou qualquer outro lugar. Smotrich, caso alguém ainda tenha dúvidas, confirma que essa ideia está de fato sendo ponderada. Uma empresa imobiliária israelense, envolvida na construção de assentamentos ilegais na Cisjordânia, lançou recentemente uma campanha publicitária para levantar o moral dos israelenses nestes tempos difíceis: sua publicidade quer que os israelenses se imaginem vivendo em moradias e condomínios à beira-mar, numa Faixa de Gaza recém esvaziada. “Acorde, ter uma casa na praia não é um sonho!” É assim e com memes sobre transformar Gaza em um mero estacionamento para Tel Aviv,  que os israelenses se divertem. Tenho certeza de que todas estas coisas servirão como evidência para quando Israel tiver de se defender perante o Corte Internacional de Justiça.

Mas há uma coisa dita por Smotrich que me fez pensar. Ele afirmou que não basta despovoar Gaza e controlá-la militarmente. Para alcançar a paz, Israel precisaria repovoar a região com civis israelenses. O Haaretz traduziu o seu comentário da seguinte forma: “Para controlar militarmente o território, também é preciso ter uma presença civil”.

Para controlar militarmente… é preciso ter civis.

De Israel e dos seus defensores nos Estados Unidos e na Europa, ouvimos constantemente que Israel abomina absolutamente a matança de civis, mas que não tem outra opção em Gaza: os palestinos são tão selvagens que escondem as suas unidades militares entre os civis, forçando-os a serem os seus escudos humanos. “O Hamas é o culpado pelo massacre de tantas crianças por Israel! Obrigam-nos a matar crianças! Odeiam o seu próprio povo! Odeiam a vida!”

Como muitas das acusações por parte de Israel, essa conversa cínica sobre escudos humanos é uma projeção, e o comentário de Smotrich dá uma ideia disso. O que ele está basicamente dizendo é que Israel precisa colocar civis israelenses em Gaza para exercer um controle militar efetivo, criando uma situação de escudo humano em que qualquer ataque a israelenses por palestinos desapropriados e derrotados em uma Gaza reocupada e etnicamente limpa pode ser apresentado como um símbolo da barbárie palestina. “Olhem para eles! Estão atacando homens, mulheres e crianças judias inocentes! Nós dissemos que eles são monstros! O ódio ancestral aos judeus corre no sangue deles!”

Não há nada de surpreendente no comentário espontâneo de Smotrich sobre a utilização de civis israelenses como escudos humanos na escalada da ocupação israelense. A triste verdade é que o projeto sionista na Palestina sempre teve o objetivo de obscurecer a distinção entre civis e soldados. De que outra forma poderia um projeto de proto-Estado colonizador, que depende da introdução de novas populações e da expulsão forçada das nativas, avançar?

Os primeiros sionistas compreenderam que, para ter sucesso no seu empreendimento colonial, os judeus precisavam formar uma sociedade militarizada. Cada civil teria de ser um soldado. Não importa se era agricultor, padeiro ou jornalista. A criação de um Estado de maioria judaica na Palestina baseava-se no uso da força, tanto defensiva como ofensiva. Afinal, os nativos não iriam embora voluntariamente.

A arquitetura das primeiras colônias sionistas na Palestina dá uma boa ideia da natureza militarizada desse movimento. Basta olhar para a forma como estes assentamentos “civis” – tanto os kibbutz como cidades privadas – foram construídos no final da década de 1930, quando as coisas começaram a ficar realmente tensas na Palestina. Muros, enormes torres de vigilância, brechas para armas… dependendo do assentamento, parecem uma mistura entre uma prisão, uma fortalezamedieval e algo que poderia ter sido construído pelo exército dos EUA enquanto massacrava os nativos americanos e limpava etnicamente o interior dos EUA (ironicamente, os colonos sionistas também se apropriaram das tendas tipi, incorporando-as como acomodações temporárias nos seus fortes).

Este processo de diluição das diferenças entre infraestruturas militares e civis não é algo que se encontre nos livros de história, mas está vivo, bem vivo, em todo o canto para onde se possa olhar.

Por exemplo, nos dias que se seguiram aos ataques de 7 de outubro, comecei a ler sobre os kibutz que foram atacados pelo Hamas. Caso se recordem, estes kibutz foram os que mais sofreram naquele dia. Para além da rave perto da fronteira, a maior parte das pessoas que foram sequestradas ou mortas – quer diretamente pelo Hamas, quer pelas forças de segurança israelenses nos combates que se seguiram para as libertar – pertenciam a diferentes kibutz situados na borda do deserto de Negev.

Um kibutz em particular foi totalmente devastado: Nir Oz. Um terço de todos os prisioneiros levados para Gaza provinha desse kibutz, o que equivale a um quarto da população de todo o kibutz. Um dado importante.

Porque é que o Hamas mirou Nir Oz? Não é surpresa alguma se olharmos para o mapa.

Há toda uma linha de kibutz que se estende ao leste da fronteira de Gaza. Muitos deles estão a pouco mais de uma milha (1,6 km) de distância. Os seus campos e instalações não residenciais praticamente tocam a fronteira de Israel, fortemente fortificada e monitorada por computadores. São os assentamentos povoados mais próximos de Gaza.

Esta proximidade com a fronteira não é acidental. Esses kibutz foram criados pouco depois da fundação de Israel, para funcionarem precisamente como uma primeira linha de defesa contra os ataques palestinos a partir de Gaza. Pode-se dizer que foram colocados lá justamente para servirem como escudos humanos para o sionismo.

Nir Oz no círculo. A diferença na paisagem é óbvia: de um lado da fronteira, terras aráveis e fazendas, do outro lado, edifícios aglomerados.

Estes kibutz têm a sua origem nos chamados assentamentos Nahal. “Nahal” é uma abreviação de Noar Halutzi Lohem, “Juventude Pioneira de Combate”. Estas unidades foram criadas em 1951 com o apoio de David Ben-Gurion, emergindo como uma solução para os vários problemas que Israel tinha acumulado depois de ter conquistado a independência e de ter vencido a chamada Guerra de Independência. O movimento sionista tinha conseguido limpar etnicamente e incorporar grandes extensões de território palestino no novo Estado de Israel, de maioria judaica. Tinha saído vitorioso, mas os seus recursos eram insuficientes, tanto a nível militar como econômico. Estava lutando para proteger as suas fronteiras e tinha de trabalhar arduamente para sustentar a sua própria população, ao mesmo tempo que integrava novas ondas de imigração sionista. O que muitas pessoas não sabem é que, antes da fundação de Israel, a maior parte dos alimentos que sustentavam os colonos sionistas era produzida pela população nativa local: os árabes palestinos. Depois de muitos deles terem sido etnicamente deslocados por Israel, a produção agrícola entrou em colapso e o novo governo foi obrigado a instituir um regime de austeridade para lidar com a crise.

Segurança, alimentação, integração: é aqui que entram em ação as brigadas Nahal. Recorrendo à juventude dos partidos políticos de esquerda de Israel, o Nahal transformou o que normalmente seria o serviço militar obrigatório em um movimento de pioneiros colonos armados. Estas unidades foram enviadas para proteger zonas fronteiriças consideradas estratégicas, e para ali construírem postos militares avançados. Ao fim de alguns anos, estas bases das Forças de Auto-Defesa de Israel seriam transformadas em kibutz agrícolas “civis”: assentamentos permanentes onde os soldados se tornavam fazendeiros de fronteira armados. Ali produziriam alimentos para Israel, casariam, teriam filhos, constituíram famílias, estabeleceriam comunidades, tudo isso enquanto serviam de zonas-tampão militarizadas supervisionadas por soldados-pioneiros.

Os kibutz eram aquilo a que hoje chamaríamos de soluções verticalmente integradas: segurança, assentamento, apoio, sociedade. Eram o projeto sionista de colonização destilado na sua quintessência. Ben-Gurion estava genuinamente satisfeito com o êxito alcançado.

Foi assim que Nir Oz foi criado. A comunidade foi fundada em 1955 por membros do Hashomer Hatzair, uma organização juvenil sionista socialista que teve origem na Áustria-Hungria, onde hoje é a Ucrânia. Pelo que pude pesquisar, os fundadores eram uma mescla de pessoas: alguns nasceram na Palestina e eram filhos de colonos, mas a maioria veio do Leste Europeu. Em 1957, Nir Oz tornou-se um kibutz e foi transformado numa comunidade agrícola funcional pelas mesmas pessoas que haviam estabelecido uma base militar.

O fato de se situar junto à fronteira de Gaza não tem nada a ver com o fato de ser uma boa terra para uma fazenda. Nir Oz fica no meio de um deserto onde há muito pouca água. A sua localização tem tudo a ver com segurança. Mais especificamente, tem a ver com a proteção de Israel nas vésperas de uma campanha de limpeza étnica pelas forças sionistas. Cerca de 200 mil palestinos haviam sido expulsos das suas terras e encarcerados em Gaza, uma pequena faixa de terra costeira. Estavam furiosos, vivendo em barracas construídas por eles próprios, de algumas das quais podiam ver as aldeias ancestrais de onde tinham sido obrigados a fugir para salvar as suas vidas. E bem à frente deles havia uma grande fronteira aberta na forma de um deserto. Nir Oz foi colocado ali para manter Gaza encapsulada, para proteger Israel de uma massa de população despossuída.

Nir Oz não foi o único kibutz criado como escudo humano. Todas os assentamentos de colonos perto da fronteira de Gaza, no deserto de Negev, começaram como um posto militar avançado do Nahal. E não foi só no Negev: foram criados kibutz Nahal também em outras zonas fronteiriças estratégicas, como a Cisjordânia e o Líbano.

Alguns destes assentamentos foram criados há mais de setenta anos. Mas o seu legado como escudos humanos continua vivo décadas após a sua criação. No dia 7 de outubro, os kibutz da fronteira de Gaza foram os primeiros a serem atacados porque era esperado que fossem os primeiros a serem atacados. Eles foram projetados para esse fim.

Há outro aspecto interessante nesta história dos kibutz militarizados. Alguns dos soldados-pioneiros que fundaram o Kibutz Nahal original na fronteira de Gaza ainda estão vivos e residem nas próprias colônias que ajudaram a construir. No dia 7 de outubro, alguns deles foram vítimas dos combatentes do Hamas. Três dos primeiros colonos de Nir Oz foram sequestrados e levados para Gaza: um foi libertado, outro continua detido em Gaza e o terceiro morreu em cativeiro há alguns dias.

Se fosse um roteiro de filme de faroeste, o enredo seria basicamente um clichê: jovens soldados enviados para erguer um posto colonial e proteger terras roubadas na fronteira há setenta anos colhem agora os frutos. Aposentados, gozam de uma vida confortável. Nunca pensaram que teriam de pagar o preço. Mas o destino os alcança. E agora não são só eles que sofrem, mas também os seus filhos e netos. A vingança é um prato que se serve frio e tudo mais. Pode ser um clichê narrativo, mas aqui ele é real e com consequências mortais para várias gerações.

Mas este não é o tipo de enredo que as pessoas imaginam quando pensam nos kibutz. O seu papel na limpeza étnica dos palestinos em Israel foi apagado, deixando para trás apenas civis judeus inocentes.

O passado coloca o futuro em uma camisa de força.

(*) Yasha Levine é um jornalista russo-americano. Ex-editor do jornal satírico The Exile, é autor de “Surveillance Valley: The Secret Military History of the Internet”. Escreveu para veículos como The Wired, The Nation, Slate, TIME, The New York Observer.

(*) Tradução para português de Raul Chiliani.

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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