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Encontrando as vítimas de Hiroshima e Nagasaki em Oppenheimer

Onde estão as imagens em “Oppenheimer” daqueles que morreram pelas bombas que ainda assombram a humanidade?
Joseph Gerson
Cena do filme “Oppenheimer”, de Christopher Nolan.(Imagem: Universal Pictures/Divulgação)
Desde que surgiram as primeiras análises sobre o filme Oppenheimer, uma pergunta paira em meio ao éter: por que não vemos imagens substanciais da destruição e das vítimas das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki?

Dias antes do Oscar, tive a oportunidade de descobrir as respostas para essa pergunta. Eu tinha acabado de voltar do Japão, onde marchei com os sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki (os “Hibakusha”) e participei das comemorações do 70º aniversário das vítimas do teste da bomba atômica Castle Bravo, em 1º de março de 1954. Essa bomba era mil vezes mais poderosa do que a bomba atômica lançada sobre o povo de Hiroshima. Ela ceifou e envenenou as vidas de quase todos os habitantes do atol de Rongelap, a 125 milhas de distância do atol de Bikini. Ela também ceifou a vida de pescadores japoneses, propagou sua radiação a mais de mil embarcações pesqueiras japonesas e contaminou grande parte do suprimento de alimentos do Japão. Uma campanha pedindo a abolição das armas nucleares, resultante desse evento, reuniu 31,5 milhões de assinaturas, 65% dos eleitores japoneses, entre 1954 e 1955, e lançou o primeiro e provavelmente o mais influente movimento social do mundo em prol de um mundo livre de armas nucleares.

Eu carregava essas pessoas e essa história no fundo dos meus ossos quando a professora de Harvard, Elaine Scarry, amiga e membro da diretoria da minha organização, me incentivou a participar de uma discussão que ela havia organizado com Kai Bird, coautor de “American Prometheus: The Triumph and Tragedy of Robert J. Oppenheimer” (Prometeu Americano: o Triunfo e a Tragédia de Robert J. Oppenheimer, em tradução livre), a biografia na qual o filme Oppenheimer se baseou.

Conheço Kai e seu co-autor, Martin Sherwin, já falecido, há muitos anos. Kai é um homem generoso e modesto, além de ser um excelente acadêmico e biógrafo. Conversamos um pouco antes da mesa de discussão, onde fiquei feliz por saber que ele estaria na cerimônia do Oscar.

Em sua apresentação, Kai explicou que o filme se baseou muito em seu livro, com muitas das falas retiradas diretamente do texto dele e de Marty – algo muito incomum em Hollywood. Kai teve apenas algumas horas para revisar o roteiro de 200 páginas do filme antes do início das filmagens e disse que encontrou apenas um erro, que foi corrigido por Christopher Nolan, o diretor do filme. Kai e o outro integrante da mesa, Peter Galison, do Departamento de História da Ciência de Harvard, descreveram Oppenheimer como brilhante (na Física e em outros temas), complexo e emocionalmente frágil; um homem que poderia ter sido mais conhecido por seu trabalho sobre buracos negros – iniciado em 1935 – se a Segunda Guerra Mundial e o Projeto Manhattan não tivessem intervido.

Na hora das perguntas e respostas, depois de uma breve referência ao que eu havia aprendido e feito no Japão, perguntei a Kai se Nolan, durante a produção do filme, teve alguma conversa séria sobre expor ao público o que a bomba de Oppenheimer causou. A resposta de Kai foi atenciosa e iluminou algumas das imagens mais perturbadoras da conclusão do filme.

A resposta direta de Kai foi “não”. Kai havia explicado anteriormente que o enredo do filme e do livro eram as audiências da Comissão de Energia Atômica, nas quais os detentores do poder tentavam destruir o papel de Oppenheimer como o principal cientista do mundo e como um intelectual público muito influente. Edward Teller e Lewis Strauss, da AEC, além de forças poderosas do Pentágono, reagiram com fúria à oposição de Oppenheimer ao desenvolvimento da bomba de hidrogênio. Kai explicou que o filme e o livro são principalmente biografias de Oppenheimer e, como Elaine disse, o filme “conta a história do ponto de vista do que está acontecendo na mente de Oppenheimer”, e não de outras perspectivas mais amplas.

Kai observou vários trechos do filme em que Nolan sutilmente apontava para a devastação das bombas atômicas e para as dúvidas morais de Oppenheimer. A primeira das referências do filme ocorre logo após a Experiência Trinity, e três meses depois dos bombardeios atômicos, quando Oppenheimer soube que o Japão estava à beira da rendição no momento em que suas “engenhocas” foram disparadas. Em um determinado momento, após a Experiência Trinity, vemos Oppenheimer murmurando sobre aquelas “pobres pessoas”, os civis japoneses inocentes que ele sabia que seriam mortos e devastados pelas bombas atômicas. Ao mesmo tempo, Kai observou que Oppenheimer estava se reunindo com oficiais militares de alto escalão para explicar a melhor forma de detonar as bombas (altitude, etc.)

Em vez de nos mostrar os corpos torrados, pessoas com a carne queimada pendurada nos braços, globos oculares pendurados nas órbitas e pessoas afogadas em cisternas, Nolan nos deu a imagem de Oppenheimer assistindo a um trecho de noticiário sobre a devastação, com seu rosto demonstrando horror perante o que sua bomba havia provocado. A imagem mais forte talvez seja a da imaginação de Oppenheimer ao falar para uma plateia no salão de reuniões de Los Alamos: o rosto de uma garota derretendo com o calor da bomba atômica. Esse rosto, de fato, era o da filha do diretor Christopher Nolan, como Elaine Scarry explicou mais tarde. “Foi uma decisão muito ética da parte de Nolan”, disse ela, “não reencenar o dano original desfigurando rostos japoneses”.

E Nolan nos dá o sentimento de culpa de Oppenheimer quando ele se reúne com o presidente Truman e o secretário de Estado James Byrnes, confrontando-os com o fato de que todos têm sangue em suas mãos.

Elaine encerrou essa parte da mesa de discussão apontando para a resistência da cultura americana em ver cenas de filmes em que “o espectador é convidado a se solidarizar com a pessoa ferida”. No Japão, explicou ela, até mesmo crianças pequenas recebem fotos e imagens horríveis das devastações humanas causadas pelo bombardeio atômico. Ela reforçou isso explicando que ela e eu organizamos uma exposição de pôsteres emoldurados da bomba atômica de Hiroshima/Nagasaki e de Hibakushas em uma biblioteca pública de Cambridge. Na manhã seguinte à montagem da exposição, voltamos à biblioteca e descobrimos que ela havia sido totalmente reorganizada sem nossa permissão ou conhecimento. Todos os posters que incluíam fotos dos mortos e mutilados haviam sido removidos.

Após a mesa, minha esposa e eu decidimos assistir ao filme novamente. Outras pessoas que já viram o filme e assistiram ao Oscar e que compartilham da minha pergunta talvez também queiram fazer o mesmo. No mínimo, isso aprofundará nossa determinação em eliminar a ameaça nuclear contra a sobrevivência humana.

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