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Gaza: matar os mortos

O atual governo dos EUA, com Biden à frente, é um criminoso no mesmo nível, se não maior, que Benjamin Netanyahu, que defende e protege, que arma e sustenta

Txema García
Bombardeio israelense atinge armazém de produtos de limpeza na Faixa de Gaza, em agosto de 2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)

Quando pensávamos que a perversão humana havia atingido níveis insuperáveis com o genocídio cometido pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial contra judeus, ciganos, homossexuais ou combatentes da resistência, quando pensávamos que o horror havia atingido seus limites, agora percebemos que ainda há espaço para algo infinitamente pior do que todos esses males.

Alguém poderia imaginar, na década de 1940, a Força Aérea dos EUA lançando pacotes de alimentos para os poucos sobreviventes do terrível massacre do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki? Pois bem, algo ainda mais macabro acaba de ser feito em Gaza pelo mesmo país que afirma ser o campeão da democracia global.

O horror acaba de superar tudo o que é concebível a uma mente comum. Como se a maldade de alguns seres tivesse ultrapassado as fronteiras da mais absoluta perversão e chegado a um território desprovido de sentimentos, onde a desumanidade reina de forma selvagem. Agora, nestes tempos de modernidade e supostos avanços, a barbárie vem embrulhada em papel celofane, em presentes envenenados, em comida oferecida por alguém que depois vai assassinar você, sua família ou qualquer outra pessoa semelhante a suaves prestações, isto é, se já não o tiverem exterminado antes. Trata-se de matar aqueles que já estão mortos, sua memória, os agonizantes, aqueles que não têm nada para comer e que você sabe com certeza que vão morrer de bombardeados ou de fome.

Vou dizer isso claramente. O atual governo dos Estados Unidos da América, com seu presidente à frente, é um criminoso no mesmo nível, se não maior, que Benjamin Netanyahu, que defende e protege, que arma e sustenta com todas as suas capacidades econômicas, midiáticas e militares. E, é claro, há todo o seu grupo de aliados que também vendem armas para o Estado genocida que é Israel: Emmanuel Macron (França); Rishi Sunak (Grã-Bretanha); Olaf Scholz (Alemanha); Giorgia Meloni (Itália); Pedro Sánchez (Espanha); Ursula von der Leyen (Comissão Europeia)… e, é claro, seus outros pequenos lacaios, como os que nos governam por aqui na Espanha, tanto em Nafarroa quanto em Euskadi.

A colaboração entre todos esses poderes é mútua e clandestina na maior parte do tempo. A máquina de matar em massa já está ligada. E agora tudo o que temos de fazer é esperar; se nós, cidadãos, não nos rebelarmos e os impedirmos antes, continuarão cometendo mais e mais atrocidades. Eles os bombardeiam e depois jogam alguns alimentos para os “afortunados” que sobrevivem aos massacres. Como se fossem animais em um curral aguardando a sentença de morte. E se algum deles sobreviver, é para isso que o exército israelense está lá, pronto para eliminar aqueles que ousam subir em um caminhão para pegar os restos de um miserável saco de farinha para distribuir às multidões.

Basta levar Netanyahu e seu governo genocida ao Tribunal Penal Internacional ou a outros tribunais? Sério? E seus cúmplices? Acho que o mundo está perdendo qualquer capacidade racional de enfrentar esses assassinos em série. E não me refiro somente aos mencionados acima, mas também àqueles que se escondem nos bastidores e que são, na realidade, os verdadeiros poderosos: aquela grande rede militar-industrial transnacional que resiste em perder sua hegemonia nesse novo tabuleiro de xadrez de interesses. E há ainda os cidadãos do Ocidente, acostumados a viver narcotizados pela droga do individualismo e de um consumo desenfreado e enlouquecedor, destruidor da natureza e de seus outros seres.

A sequência histórica de seus crimes é irrefutável. Não é mais possível esconder ou lavar sua consciência suja, esculpida massacre após massacre, como o extermínio de povos indígenas da América do Norte pré-colombiana; ou pela mudança e estabelecimento de governos fantoches em todo o mundo, especialmente na América Latina; ou pelo bombardeio e destruição de países como o Vietnã; ou pela invasão a povos como o iraquiano ou a destruição de nações como a Líbia; ou pela indução de uma política atlantista entre os povos europeus, em vez de estabelecer acordos de coexistência e cooperação no lugar do belicismo predominante que agora está sendo promovido pela Sra. Ursula Von der Leyen e todos os seus capangas.

 Leia também – Gaza: se não é genocídio, é guerra total 

Não estamos mais na época do Plano Marshall, mesmo que sua intenção permaneça a mesma e se baseie na mesma concepção de supremacismo à qual todos os povos e nações devem se render. Os Estados Unidos são como Israel, o povo escolhido para cometer qualquer massacre e, além disso, ficar impune. Eles jogam 38 mil miseráveis rações de alimentos pelo ar para que caiam no fundo do mar ou para que mais de dois milhões de palestinos famintos lutem na antecâmara de sua própria morte. Em seguida, eles chegarão com suas escavadeiras para obter o lucro correspondente a todas essas mortes: o ramo da reconstrução por meio de seus “fundos abutres”, que certamente já estarão disputando a carniça para reconstruir “assentamentos de colonos” dentro de alguns meses.

O Ocidente, com a UE e os EUA na vanguarda: vocês atingiram os níveis mais altos de degradação moral imagináveis. Se não forem julgados por algum Tribunal Penal Internacional, saibam que grande parte do mundo já os colocou na lista dos criminosos mais execráveis.

(*) Txema García é escritor, jornalista e membro da plataforma Guggenheim Urdaibai STOP

(*) Tradução de Raul Chiliani

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