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Devastado pelas enchentes: a situação desesperadora do Afeganistão

Inundações repentinas sem precedentes provocam estragos também no Afeganistão, com 315 mortes; país é um dos dez mais vulneráveis às mudanças climáticas
Pranjal Pandey
Centenas de afegãos cruzam a fronteira de volta ao Afeganistão, após serem expulsos do Paquistão. 02/11/23. (Foto: UN Women/Sayed Habib Bidell)

Cerca de 315 pessoas morreram e mais de 1.600 ficaram feridas em meio a enchentes catastróficas que varreram várias províncias do Afeganistão na sexta-feira, 10 de maio. As autoridades declararam estado de emergência por conta da situação. A província de Baghlan, no norte do país, sofreu o maior impacto da devastação, com mais de 300 mortos e milhares de casas destruídas ou danificadas. Chuvas torrenciais também causaram estragos em várias províncias, incluindo Takhar, Badakhshan, Ghor e Herat.

As inundações repentinas ocorrem quando uma chuva forte sobrecarrega a drenagem natural. As mudanças climáticas, que aquecem a atmosfera, aumentam as chuvas extremas, aumentando a probabilidade desses eventos. Essas inundações tiveram um impacto profundo sobre a população, pois muitos perderam suas casas e seus meios de subsistência. As equipes de resgate estão trabalhando no local, mas o acesso às áreas inundadas tornou-se difícil.

Enquanto isso, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, expressou sua solidariedade com o povo do Afeganistão e estendeu suas condolências às famílias das vítimas. Ele acrescentou que a ONU estava colaborando com as autoridades locais para prestar assistência.

O Afeganistão está entre os 10 países mais vulneráveis às mudanças climáticas e vem registrando um aumento nas condições climáticas extremas, especialmente inundações, secas e tempestades de areia e poeira. Esses fenômenos levaram à perda de vidas e meios de subsistência, além de danos significativos à infraestrutura. No entanto, apesar de ser um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, o Afeganistão não foi representado na COP27, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022, realizada em Sharm El-Sheikh, no Egito. As nações reconheceram a necessidade de financiamento para lidar com perdas e danos relacionados ao clima, concordando em estabelecer um fundo e acordos de financiamento.

Seca e condições climáticas extremas

Em 2022, o Afeganistão enfrentou sua seca mais severa em 30 anos, agravando um cenário já desafiador em um país cuja seca é o desastre mais frequente relatado entre as famílias. O aumento das temperaturas está alterando rapidamente os padrões de precipitação, resultando na redução do acesso da população à água. Essa escassez não só afeta os meios de subsistência, mas também aumenta os surtos de doenças e provoca o deslocamento das comunidades. Ao longo dos anos, a temperatura média anual sofreu um aumento substancial, aumentando o derretimento das geleiras e da neve, que servem como fontes cruciais de água para os rios durante os meses de verão. Entre 1960 e 2008, a temperatura média anual subiu 0,6ᶜ, com um aumento adicional de 1,2ᶜ de 2009 a 2016, ampliando os desafios enfrentados pelo país.

Um número considerável dos principais rios do Afeganistão tem origem nas terras montanhosas centrais, especificamente nas províncias de Bamyan e Daikundi. No entanto, essas fontes de água essenciais estão enfrentando desafios significativos devido à imprevisibilidade das chuvas e às rápidas alterações na quantidade e no tempo de queda de neve em altitudes elevadas. As condições persistentes de seca estão causando o esgotamento das fontes de água de superfície, como as nascentes, além de causar um declínio nos níveis de água subterrânea para poços rasos e cavados à mão. Na província de Cabul, vários poços secaram, resultando em uma grave escassez de água.

Em meio às secas severas e ao aumento das temperaturas, o Afeganistão está passando por oscilações significativas nos padrões climáticos extremos. Em agosto de 2022, o vizinho Paquistão recebeu mais de três vezes sua precipitação típica, fazendo-o o agosto mais úmido desde 1961. Embora não no mesmo nível, o Afeganistão também enfrentou chuvas fortes e inundações excepcionalmente intensas durante o mesmo mês, afetando predominantemente as regiões central, leste, oeste e sudeste do país.

Esse tipo de clima está dificultando a obtenção de alimentos suficientes para as pessoas, levando a mais desnutrição e doenças. A situação é ainda pior porque a economia está enfrentando dificuldades e os efeitos de 40 anos de guerra tornaram as coisas difíceis. Metade da população não tem o suficiente para comer, e 6 milhões de pessoas estão à beira da fome.

No Afeganistão, a taxa de atraso no crescimento infantil é assustadoramente alta, com 41% das crianças com menos de cinco anos de idade afetadas. Além disso, a taxa de desnutrição, que representa a desnutrição aguda grave, também é notavelmente elevada, com 9,5%. A anemia afeta uma em cada três meninas adolescentes do país.

Desde a tomada do poder pelo Talibã em 2021, a economia afegã sofreu uma contração de 27%, o que levou o país à estagnação econômica. O desemprego dobrou, e apenas 40% da população tem acesso à eletricidade. Setores como o financeiro entraram em colapso e não há fontes importantes de atividade econômica, como exportações ou gastos públicos, o que deixa as pequenas e médias empresas e os agricultores como a força vital da economia debilitada.

O que levou a isso?

Um dos principais motivos para a atual crise do Afeganistão foi a guerra de longa duração que danificou o país interna e externamente. Para enfrentar a mudança climática e a crise econômica, o país precisa de recursos financeiros significativos. No entanto, as medidas restritivas dos EUA e as políticas do Talibã impediram que isso acontecesse. Como é o caso de várias nações afetadas pelo aquecimento global, o Afeganistão fez contribuições mínimas para a questão e precisará de assistência internacional substancial para resistir a seus efeitos.

Antes de agosto de 2021, o Afeganistão dependia muito da ajuda externa, que respondia por 75% de sua economia. Quando o Talibã assumiu o poder, em 15 de agosto de 2021, os governos doadores, liderados pelos EUA, disseram ao Banco Mundial para parar de fornecer cerca de 2 bilhões de dólares em ajuda internacional. Essa ajuda era usada para pagar salários de milhões de professores, profissionais de saúde e outros funcionários essenciais, bem como para vários projetos financiados por organizações como a International Development Association. Esses fundos ajudaram muitas famílias afegãs, inclusive as muito pobres, oferecendo oportunidades de trabalho, distribuição de dinheiro e apoio para sua subsistência.

No entanto, quando essa ajuda foi cortada, inúmeras famílias afegãs perderam sua principal fonte de renda. Além disso, o apoio orçamentário de organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB) também foi interrompido. Como resultado, o Banco Central do Afeganistão perdeu sua capacidade de trabalhar com bancos internacionais e instituições financeiras como o Banco Mundial, o FMI e o ADB. 

As proibições da educação feminina e das mulheres afegãs que trabalham em ONGs e na ONU prejudicaram gravemente o progresso econômico e social de longo prazo do país. Elas aceleraram a saída de mulheres e homens instruídos do país, levando a uma fuga de cérebros. Além disso, essas restrições reduziram a disposição dos doadores em oferecer ajuda humanitária contínua. Ademais, a implementação bem-sucedida pelo Talibã da proibição do cultivo da papoula do ópio resultou na perda de aproximadamente 1 bilhão de dólares em renda anual para as famílias rurais afegãs. Consequentemente, o país está cada vez mais dependente das exportações de carvão, o que leva à mineração ilegal em várias áreas e gera preocupações com o clima.

Essa série de eventos no Afeganistão mostra um quadro terrível de lutas e dificuldades. As inundações repentinas e devastadoras, combinadas com a crise econômica vigente e os impactos duradouros da guerra, deixaram o país arrasado.

(*) Tradução de Raul Chiliani

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