Pesquisar
,

A Colômbia também se levanta

Colômbia se une à convulsão do continente, com centenas de milhares nas ruas em dia de greve geral contra medidas econômicas de Iván Duque.

por Bruno Antonio | Revista Opera
(Foto: Ángel David Olivares)

A América Latina está em chamas. Do levante popular no Equador, passando pelos mais de 30 dias de revolta no Chile e pelo avanço da contrarrevolução na Bolívia, sem deixar de lado os infindáveis protestos na esquecida república do Haiti (que somam mais de 40 mortes desde setembro), o continente arde em fogo.

Gabriel Garcia Marquez, ao escrever sobre a confusão que um norte-americano comedor de bananas levou à cidade de Macondo, em Cem Anos de Solidão, imaginou esta como um microcosmos da América Latina. 

Pois, agora, 52 anos depois da publicação da obra do escritor colombiano, os herdeiros desse norte-americano estão sofrendo as consequências da confusão que sua fome por bananas gerou.

Desde o início dos conflitos no continente, todos os títulos soberanos do Equador, Chile e Bolívia foram vendidos. Além disso, os acontecimentos em curso na Colômbia preocupam os investidores.

Desde o dia 4 de outubro, um comitê formado por mais de 50 sindicatos, movimentos populares e estudantes, decidiram realizar uma greve nacional na útima quinta-feira (21), em rechaço às medidas econômicas apresentadas por parlamentares e pelo governo de Iván Duque.

Entre as medidas estão alterações na jornada de trabalho, a implementação do trabalho parcial para jovens – com redução de 25% do salário mínimo – uma medida que diferencia o salário mínimo por região, a eliminação do pagamento de horas extras, domingos e feriados, além da extinção da compensação por demissão.

As mudanças também afetam o sistema previdenciário, estabelecendo um modelo de poupança individual, transportando assim todo o sistema para fundos privados. 

Ademais, a greve nacional ainda busca combater os leilões de ativos públicos, que estão vendendo as ações da Ecopetrol, a maior petrolífera do país. 

Todas essas medidas, assim como as que foram anunciadas por Lenín Moreno e desencadearam os protestos no Equador, contam com o aval do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Diante desse cenário, o custo da garantia de títulos soberanos colombianos contra o não pagamento, que é um indicador de risco no mercado financeiro, foi o que mais aumentou nos Estados Unidos nesta semana. 

“Há muita tensão na América Latina neste momento” disse Oren Barack, gerente-diretor da firma de investimentos Alliance Global Partners (AGP) em Nova York.

No entanto, os representantes dos sócios minoritários das firmas estrangeiras não querem sair no prejuízo e já se mobilizam para, através da força, garantirem a “estabilidade” no interior da narco-república. 

Como se não bastasse os mais de 800 assassinatos de ex-guerrilheiros e líderes de movimentos populares desde 2016, o Estado colombiano se prepara para, como de costume, derramar mais sangue.

Através do Ministério do Interior, no último dia 19, o governo colombiano decretou algumas medidas que visam a “manutenção da ordem pública”.

O decreto ordenou o fechamento de fronteiras terrestres e fluviais, durante dois dias; em outro artigo, o decreto ainda estabelece algumas “instruções em matéria de ordem pública”, que decreta como dever dos prefeitos municipais e distritais a manutenção da ordem, através de medidas de restrição ao porte de armas e ao consumo de álcool, além detambém abrir a possibilidade dos prefeitos adotarem o toque de recolher.

O procurador-geral da república, Fabio Espitia, por sua vez, acrescentou que será ativado um “grupo especial” que irá realizar “atos de urgência” para processar manifestantes que cometerem “crimes de vandalismo”.

Os protestos da última quinta-feira foram massivos, levando uma grande massa da população colombiana as ruas. Até agora, existem três mortes confirmadas no departamento de Valle del Cauca, no oeste do país. 

Foi nesse mesmo departamento, na cidade de Cali, entre as cordilheiras dos Andes, que o Secretário de Segurança, Andrés Villamizar, decretou toque de recolher, durante as manifestações.

O fogo alcançou a terra natal de Garcia Marquez. Não é de se espantar: a nação colombiana é parte indivisível da nação latino-americana. Os domínios efêmeros dos quais falava Manuel Ugarte em 1910, que mantêm a Pátria Grande dividida, pouco podem fazer para conter as chamas da revolta social que varrem nosso continente. 

Mas, assim como basta uma faísca para incendiar toda uma pradaria, os jatos de água da contrarrevolução já estão sendo preparados. É o que nos indicam os “Estados especiais” mobilizados na maioria dos casos em que as chamas se desenvolveram. No entanto, basta observar a situação em nosso continente para, como disse Mao Tsé Tung, compreender que, invariavelmente, da faísca ao incêndio, já não há grandes distâncias.

[rev_slider alias=”livros”][/rev_slider]

Continue lendo

A bomba nuclear Mark 17, em exposição no Museu Nacional da Força Aérea dos EUA. (Foto: Kelly Michals / Flickr)
O direito de ter armas nucleares
O presidente da Argentina, Javier Milei, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), nos EUA. (Foto: Gage Skidmore / Flickr)
A epidemia de suicídios na Argentina
O cantor britânico Ed Sheeran. (Foto: Harald Krichel / Wikimedia Commons)
Ed Sheeran num ônibus

Leia também

Comandantes militares, o ministro da Defesa, José Múcio, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia do Dia do Soldado, no Quartel-general do Exército, em agosto de 2024. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
José Múcio é uma besta e o portão está aberto
Mulheres iranianas durante comemorações do Dia do Basij, em novembro de 2025. (Foto: Khamenei.ir / Wikimedia Commons)
6 livros para entender o Irã
Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato