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Bolívia: termómetro político a um ano e meio do retorno à democracia

Combatendo com sucesso a inflação por meio de investimento público, crédito acessível e impostos sobre grandes fortunas, o presidente da Bolívia, Luis Arce, mantém um bom índice de aprovação.

Combatendo com sucesso a inflação por meio de investimento público, crédito acessível e impostos sobre grandes fortunas, o presidente da Bolívia, Luis Arce, mantém um bom índice de aprovação. Por Gabriela Montaño e Camila Vollenweider | Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
O presidente da Bolívia, Luis Arce, durante congresso sindical em 7 de março de 2022. (Foto: Viceministério de Comunicação da Bolívia).

A dezoito meses desde sua posse, o governo de Luis Arce conserva a expectativa e esperança daqueles que votaram nele em 2020. Isso se expressa em uma imagem positiva de 46,7% que, traduzida em votos válidos, se equipara aos 55% obtidos nas eleições gerais. Estas cifras se repetem como uma tendência (com pouca variação) nas três pesquisas realizadas pelo CELAG na Bolívia desde 2020. O presidente Arce é o segundo melhor avaliado na região, depois de Andrés Manuel López Obrador no México.

Pouco mais de 60% da população crê que Luis Arce resolverá os problemas econômicos a curto ou médio prazo. Este dado não é algo descartável em meio de uma crise que aflige o mundo inteiro nesta fase pós-pandemia. Talvez isso se explique por fenômenos como o controle da inflação: por exemplo, enquanto na Bolívia ela não passa de 0,8% nos primeiros três meses deste ano, na Alemanha, ao fim de março, ela disparou para 7,3% (a maior cifra desde a reunificação em 1990).

A capacidade de um governante de sustentar uma expectativa positiva do povo ao longo do tempo é um dos elementos mais importantes da atividade política e da responsabilidade de liderar um país. Luis Arce tem um estilo caracterizado pela pouca estridência, austero na linguagem e nas formas, mas a economia na Bolívia está se reativando pouco a pouco e os eleitores traduzem isso em esperança.

Quem alegar que o governo boliviano não tomou medidas para ajudar a população nesta fase deve rever ações governamentais como a reativação do investimento público, paralisado durante o golpe, oferecimento de crédito a taxa de 0,5% para iniciativas produtivas com substituição de importações, bônus contra a fome ou impostos sobre grandes fortunas. Estas medidas provavelmente não aparecerão nas manchetes dos meios de comunicação, mas parecem estar chegando à vida cotidiana de quem outorga confiança a Arce. Ainda assim, na pesquisa fica claro que as expectativas depositadas na capacidade do governo em melhorar a situação estão condicionadas a resultados concretos em matéria de progresso econômico e social, isso é, não se trata de um perpétuo cheque em branco.

Enquanto isso, a oposição boliviana ou estanca ou retrocede. A perda de terreno é mais contundente para as figuras mais radicais, como Luis Fernando Camacho, cuja imagem negativa tem um claro crescimento a nível nacional. Os membros da oposição que mostram uma ação política menos confrontativa com o governo nacional – principalmente a partir dos municípios –, como Eva Copa e Manfred Reyes Villa, têm seu apoio popular menos reduzido e mostram uma maior estabilidade em seu nível de aceitação. Talvez por essa razão algumas lideranças de oposição estejam se prevenindo de parecerem demasiado próximas dos e das radicais, conseguindo que os meios de comunicação não os coloquem no mesmo balaio frente os olhos da população.

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Por outro lado, há cerca de 30% das pessoas consultadas que manifestam que “não gostam do governo, mas tampouco da oposição”, ou  seja, a oposição perde a simpatia de uma parte daqueles que votou por ela. Focando neste segmento, um terço dele tem uma imagem positiva de Arce. Se poderia pensar que, apesar das críticas deste setor ao governo, uma parte se mostra mais próxima ao presidente do que à oposição.

Igualdade entre homens e mulheres: algo está mudando na Bolívia

Uma questão destacada na pesquisa, e que passa por mais de uma pergunta, é a importância do problema da desigualdade entre homens e mulheres e a violência de gênero. ¾ da população que respondeu a pesquisa em março crê que a igualdade entre homens e mulheres é um tema prioritário a ser resolvido; já não se trata de um debate reservado às mulheres e muito menos aos setores feministas. Trata-se de uma ideia que gerou uma força hegemônica e, quando isso ocorre em uma sociedade, é um bom momento para avançar e aprofundar as conquistas já conseguidas. As mudanças geradas na Bolívia nos últimos 15 anos em termos de participação política das mulheres em espaços de tomada de decisão, com a consolidação da democracia paritária, são um exemplo para a região e o mundo. No entanto, há temas – como a violência machista – que seguem sendo um problema grave, ainda a ser resolvido. A Bolívia mudou, e a violência contra mulheres, meninas e jovens é vista mais claramente como um problema de caráter público e não da esfera privada, como era entendido durante os governos neoliberais. O fato de que 75% da população boliviana priorize essa temática de maneira tão clara é definitivamente uma oportunidade para avançar com contundência na despatriarcalização da sociedade.

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O cenário político da Bolívia está mudando, particularmente algumas das novas prioridades da população, como a mencionada questão da despatriarcalização e o tabuleiro opositor. A quase dois anos de gestão, o grande mérito do governo de Luis Arce é ter conseguido consolidar avanços socioeconômicos e manter uma boa expectativa sobre o futuro.

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