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7 de setembro e o Grito abafado dos Excluídos

Também amanhã custará caro ter confiado hoje numa fração do andar de cima para barrar a outra. Pugnando hoje, depois se ajustarão os que fingem ameaçar urnas e os que fingem defendê-las, os que aceleram tanques e os que dizem querer pará-los, os que ameaçam rupturas e os que homenageiam em versos as instituições.
Também amanhã custará caro ter confiado hoje numa fração do andar de cima para barrar a outra. Pugnando hoje, depois se ajustarão os que fingem ameaçar urnas e os que fingem defendê-las, os que aceleram tanques e os que dizem querer pará-los, os que ameaçam rupturas e os que homenageiam em versos as instituições. Por Pedro Marin | Revista Opera
Brasília – DF, 07/09/2011. Esquadrilha da fumaça durante o desfile cívico-militar de 7 de setembro. (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.)

Ontem ouro e cana de açúcar, arrancado e colhida por mãos escravizadas. Depois, algodão, café e látex, plantado e extraído em troca de salários de fome. Hoje, petróleo, minérios, soja e carne, uma enorme riqueza produzida no País mas remetida para fora, cuja renda alimenta os bolsos de alguns poucos enquanto os estômagos de milhões permanecem vazios.

O 7 de setembro de 1822, data da Independência, chega neste ano ao seu 200º aniversário, sem que tenhamos muito o que comemorar. O grito do Ipiranga foi incorporado no hino nacional, mas o real sentido da frase “independência ou morte” nunca se realizou. Nos primeiros ecos daquele grito, as classes dominantes do Brasil já trabalhavam por conformar nova dependência, cuja manutenção ainda pesa sobre nós. Seguimos dependentes – e morrendo estupidamente aos montes, não para realizar os sonhos, mas precisamente para que deixemos de sonhar.

Ainda assim, apesar de 33 milhões de brasileiros passando fome, apesar de quase 700 mil mortos na pandemia, apesar da desesperança do jovem sem emprego e do desalento do idoso mal-aposentado, o presidente Bolsonaro e seu círculo de generais preparam grandes festejos, enquanto ameaçam o País com um golpe. Os mesmos que arrancam e deixam passar o ouro da Amazônia, a ser vendido no exterior; os mesmos que se presenteiam com salários colossais enquanto a fome abate o país; são eles os que pintam de patriotismo a ameaça de usar das armas contra o próprio povo, caso este ouse contrariar suas vontades. Como se vê, pouco mudou: 200 anos depois, o Brasil caminha a passos largos para cada vez se tornar mais parecido com aquilo que passou a ser em 1500; uma colônia, assegurada pela força das armas, ensanguentada pela guerra aos indígenas e cujo povo, infeliz, é tratado também como commodity, como coisa não muito diferente do ouro, da cana, do café, da borracha, do petróleo, do ferro, da soja ou da carne – a não ser, é claro, pelo seu pouco valor.

É evidente que o presidente e os fardados não agem por si. Os que comandam suas ameaças são precisamente setores que lucram da tragédia que eles querem manter à força; o agronegócio que ganha em dólar com a terra brasileira, as mineradoras que tudo arrancam e devastam, os grandes empresários beneficiados pela retirada de direitos dos trabalhadores e o capital financeiro, ansioso por privatizar tudo o que haja sobre a terra.

Desgraçadamente, a esquerda moderada confia em outros setores desta elite – a mesma que se beneficia há séculos da tragédia brasileira – para barrar o golpismo dos generais e de Bolsonaro. Já que um punhado de banqueiros assinou uma carta em defesa da democracia – pensam eles –, não é necessário mobilizar o povo, que pode causar desvios em um caminho que imaginam já consolidado até a eleição de Lula.

Enquanto isso, às margens plácidas dos desfiles militares do 7 de setembro, quando os generais apresentam aos ricos – nacionais ou estrangeiros, não importa – todo o maquinário do qual dispõem para reprimir seu próprio povo, o povo manifesta o seu grito, aquele que realmente pode dar consequência à Independência; o Grito dos Excluídos. Bradado desde 1994, neste ano o Grito se reveste de uma importância especial, como teve no ano passado. Não tanto por representar, como faz há 28 anos, aqueles setores atingidos pelo empreendimento colonial, depois pela submissão ao neocolonialismo britânico, chegando enfim ao suplício do imperialismo estadunidense. Tem especial importância pelo contexto político em que ocorre: um no qual os condenados, além da fome, carregam dentro de bags ou marmitas, em cima de motos ou dentro de ônibus, sob ameaças diárias, o peso de mais de 700 mil mortos. Mas também um contexto em que são continuamente disciplinados, às portas das eleições, para que se portem com santificada moderação.

Lembremos por um momento do 7 de setembro passado. Um mês após desfilarem tanques na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, os generais e Bolsonaro ameaçavam o País com manifestações golpistas. Escrevia há uma semana do ato: “Ao jogar suas bases com força nas ruas, Bolsonaro não garante sua permanência, nem seu poder, muito menos um golpe; mas garante uma posição em que várias opções táticas se mantêm abertas para si, obrigando os outros atores a lidarem de acordo ou em resposta a seus movimentos. Não é um blefe – aliás muito mal compreendido por esses tempos, porque um blefe sempre tem por trás de si alguma substância e intenção –, tampouco data marcada para uma ruptura. Se o presidente conseguir mobilizar sozinho uma massa de seus apoiadores em grandes manifestações, aumenta sua segurança e margem de manobra frente a aliados e inimigos, podendo dobrar suas apostas; se enfrentamentos e tragédias se desenrolarem, abre também uma série de possibilidades para si – incluindo a convocação de uma GLO; se uma turba de seus apoiadores invade o Congresso ou o STF, também assegura uma nova situação, um tanto caótica, mas na qual tem preponderância – seriam seus apoiadores dentro dos prédios governamentais. O Exército os tiraria de lá?

Essas vielas táticas abertas para si também abrem escolhas para seus parceiros militares, que em última instância mantêm a possibilidade de preferir prolongar sua presença na política com ou sem o presidente. O fundamental é precisamente manter esse clima de incerteza de fato, uma situação em que se conserve a possibilidade da opção para si e a impossibilidade para os outros. Perdendo popularidade e tendo restritos seus movimentos na esfera institucional, Bolsonaro conserva a iniciativa de mobilizar – o que é bastante frente a políticos e juristas que crêem que as próprias palavras são espadas, e uma centro-esquerda que tem se esforçado para conter as mobilizações, apostando em uma futura vitória eleitoral, como se esta fosse um canhão.”

 Leia também – Dez pontos para derrotar o golpismo fardado 

Vê-se logo que, um ano depois, os fatos se repetem. Bolsonaro mobiliza suas bases, que em números permanecem as mesmas, mas que se encontram ainda mais radicalizadas frente ao processo eleitoral e mais dispostas a atos de violência individual. Os militares permanecem em cima do muro, negando rupturas mas participando e auxiliando os atos golpistas, se confundindo e mascarando entre reserva e ativa, força estatal e força política – o que, como escrevi em setembro passado, os conserva como fiéis da balança seja para uma ruptura, seja para a manutenção institucional, com a dívida de manterem seu feudo na cena política em qualquer das opções. A centro-esquerda, agrupada sob o petismo, desmobiliza os atos, sob a desculpa de que poderiam levar a enfrentamentos – no ano passado, negavam este fato, apontando a presença de uma ou outra liderança no Grito dos Excluídos; neste ano, assumem-no abertamente, na medida em que mobilizam para uma outra data, o 10 de setembro, como se isso impedisse qualquer ato de terror individual por parte de bolsonaristas, como temos visto em diferentes episódios.

É triste constatar que os únicos que mudaram a qualidade de suas posições desde o 7 de setembro de 2021 foram alguns banqueiros, industriais e magistrados. Naquele contexto, se limitavam a dizer que “intervenção armada é crime inafiançável e imprescritível” e que “mais do que nunca, o momento exige do Legislativo, do Executivo e do Judiciário aproximação e cooperação.” Neste ano, antecedendo o 7 de setembro, subiram o tom – o que desestimula aventuras golpistas hoje, mas não as impossibilita, nem pacifica o País amanhã.

Talvez, mais do que olhar ao 7 de setembro do ano passado, valha colher a lição do de 1822. O Partido Português e o Brasileiro, os liberais e os conservadores, que tão profundamente pugnavam durante aquele processo, logo fizeram seus ajustes após o Grito, isolando aquelas tendências que pretendiam radicalismos como fundar uma República e pôr fim à escravidão e reprimindo todo movimento progressista que ousasse se manifestar. Fundaram assim uma monarquia constitucional, submetida ao domínio inglês; passaram depois uma década trocando suas cadeiras durante o período regencial e mais 49 anos de II Reinado, durante o qual consolidaram as bases da indústria e prepararam o terreno para nova dependência. Adiaram em décadas o fim do escravismo e o estabelecimento da República, e quando estes vieram, foram nos seus termos. Ao fim, os excluídos mantiveram-se excluídos.

Também amanhã custará caro ter confiado hoje numa fração do andar de cima para barrar a outra. Pugnando hoje, depois se ajustarão os que fingem ameaçar urnas e os que fingem defendê-las, os que aceleram tanques e os que dizem querer pará-los, os que ameaçam rupturas e os que homenageiam em versos as instituições. E os excluídos se lembrarão de ter tido o seu Grito abafado em dois anos consecutivos, em nome de amplificar aquele que, tal qual o do Ipiranga, é mais pose do que ato, mais quadro do que guerra, mais brado do que sonho.

Apesar de boicotado e abafado, o Grito dos Excluídos ocorre amanhã em todo o Brasil. Confira aqui os pontos de concentração em todos os Estados.

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