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Rascunho contra a esperança

Após esperança desatinada no primeiro turno, onda de desespero abate militantes – ainda que sem razão. Na reta final da campanha, vale mais a disposição do movimento que a letargia da espera.
Após esperança desatinada no primeiro turno, onda de desespero abate militantes – ainda que sem razão. Na reta final da campanha, vale mais a disposição do movimento que a letargia da espera. Por Pedro Marin | Revista Opera
Lula participa do ato Brasil da Esperança, no clube Heliópolis, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. (Foto: Ricardo Stuckert)

A argamassa do meu trabalho é a palavra. Gostaria de poder dizer que as domino completamente; que sou uma dessas figuras que copiou dicionários até aprender a dar sentido a todas as coisas do mundo; que sempre tive muito afinco no estudo da gramática e que domino todas as categorizações da língua; que conheço um pouco de latim, que brinco um pouco com o hebraico, que sei distinguir borrões de um texto em cirílico; gostaria de poder afirmar, com toda a arrogância típica da coisa, que posso citar os principais manuais de linguística, filologia, semântica e etimologia com facilidade. Apesar de todos esses desejos, a verdade é que trabalho com a palavra de uma forma bem artesanal.

Não é que eu não tenha apreço por elas. Pelo contrário: acredito piamente que para todo problema que há no mundo, há uma certa forma de organizar palavras que, ao menos, será capaz de apontar a uma solução com destreza. Uma espécie de lógica oculta que move as coisas, e que pode ser descriptografada pela palavra. Trabalho, portanto, por aproximação, tentando achar não só palavras que contenham a descrição perfeita do que quero descrever, mas também uma certa sonoridade, um certo ritmo, uma certa aparência; que transmitam uma certa forma de encarar o objeto, não só a ideia do objeto em si. Sendo assim, não posso crer que a utilidade maior da palavra é a descrição; creio que é o sentido que ela é capaz de imprimir na mente de quem a lê e de quem a escreve. A palavra não serve só para comunicar, mas antes para pensar. Um exemplo: quando os anglófonos vão falar de um tiro à queima-roupa, dizem “point-blank”, sendo “point” mira e “blank” algo como “em branco” ou “vazio”. O sentido que o termo imprime é de um tiro que, apesar de certeiro, é disparado sem mira. Algo bastante prático: o atirador dominando sua vítima sem muito esforço; a mão que atira completamente relaxada, tão relaxada que poderia derrubar a arma. Em português, no entanto, diremos “à queima-roupa”. Além do sentido jocoso que nos é típico – “atirou de tão perto que queimou a roupa da vítima” – o termo imprime o sentido oposto do inglês: aqui o atirador tem ímpeto, a mão está tão tensionada pela ação assertiva que poderia até travar. A bala não sai a esmo, pelo contrário: a determinação do atirador é tanta que ele fez questão de que, entre o cano da pistola ou do revólver e a vítima, não houvesse espaço algum. “À queima-roupa.”

A palavra de que menos gosto é “esperança”. Há muito tempo, menos publicamente do que entre amigos, tenho sustentado uma guerra particular contra este termo. Antes de tudo porque não gosto do objeto que ela tenta descrever – o sentimento de que as coisas ficarão bem, que as coisas darão certo. Também porque não gosto do sentido que ela imprime: esperança parece um tipo de palavra que se escreve, ou um remédio que se receita, quando se trata de convencer quem não pode se agarrar em mais nada. A esperança é a mãe do desespero; receitada aos montes, aturde até que o efeito passe, e então chega ele, o desespero, uma convicção no pessimismo que nos aproxima das coisas mortas. É muito comum que seja nesse lugar que os esperançosos de ontem cheguem no dia seguinte, porque o que a esperança tem em comum com seu contrário é a definição de que não há nada por fazer – tal qual as coisas mortas nada podem fazer. Por fim, há o ritmo, a composição, a sonoridade: “esperança”. Tão bonito seu sentido! Mas parece uma coisa definhante, uma coisa maior do que deveria ser; uma bexiga cheia de um ar puro cujo destino é estourar ou desinchar no dia seguinte; uma festança que acabará com cacos de vidro no chão pela manhã; um último galão de combustível conseguido para atravessar o mundo. Em português, não podemos deixar de remeter à espera, que sugere o cálculo, o controle, mas não a ação. O sufixo “-ança” dá à coisa a sonoridade de coisa tíbia, de meia medida, de frieza disfarçada de paixão. A própria composição da palavra tem o aspecto de coisa que se estenderá por mais tempo do que deveria: uma longa espera.

Há muito tempo a esperança tem sido uma das principais apostas discursivas das campanhas eleitorais. Não pretendo fazer troça, nem do uso dela por marketeiros, nem da crença nela por outros. Em política, como na guerra, o moral, a crença, é de fato coisa poderosa e necessária. Nos seus Discursos, Maquiavel tratou longamente de como “para que um exército vença uma batalha, é necessário torná-lo confiante, de modo que creia que vencerá de qualquer maneira”. Os romanos, diz o autor, costumavam trazer tal certeza aos soldados por meio de supostos presságios e augúrios: “sem ter feito alguma destas coisas, nunca um bom e sábio capitão tentaria alguma empreitada, temendo a possibilidade de perdê-la facilmente se os seus soldados não tivessem primeiramente se convencido de que os deuses estavam a seu lado”. Isto é, a crença na vitória, na política e na guerra, são elementos da vitória. Ocorre que ela não basta, e é ruim quando é motivo para letargia. O mesmo Maquiavel lembra do dever de um capitão em impor aos seus soldados a necessidade de combater, e retirá-la dos inimigos: “[os antigos capitães], por isso […], muitas vezes abriram ao inimigo a via que lhe podiam fechar e, aos seus próprios soldados, fechavam aquela que podiam deixar aberta”. Tanto quanto a certeza na vitória, há de se mobilizar a necessidade do combate.

Aqui é onde se vê um problema na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência. Ao ter apostado na composição da frente ampla, e disputando com o que efetivamente é o pior presidente da história do Brasil, a campanha petista não combateu, e por vezes reforçou, o sentimento de que a vitória era certa e fácil. Assim, não foram poucos os que creram que era possível vencer no primeiro turno, e muitos, inflamados pelas pesquisas, de fato jogavam todas suas energias, ou aguardavam com todas as esperanças, a vitória acachapante que viria. Na noite do 2 de outubro veio o espanto, e logo o desespero: não só Lula não havia ganhado, como Bolsonaro também se mostrou competitivo. A crença de que venceriam de qualquer maneira foi sacudida, de forma que o presságio positivo passou, aos poucos, para o oponente. Sem a orientação do combate, muitos se refugiaram no niilismo, no apontar de dedos, na busca por culpados, no desespero e na desesperança total.

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Com a última pesquisa Datafolha, que aponta 49% das intenções de voto para Lula e 45% para Bolsonaro (com uma projeção de votos válidos de 52% a 48%), de novo a esperança tem o seu rebote, e muitos lamuriam. Mas há razão para isso?

Lula obteve, no primeiro turno das eleições, 57,2 milhões de votos, de um universo de 118,2 milhões de votos válidos. Bolsonaro teve 51 milhões de votos. Tebet, 4,9 milhões; Ciro, 3,5 milhões. Padre Kelmon, Soraya Thronicke, Felipe D’Avila e Eymael somaram, juntos, 1,17 milhões de votos. Leonardo Péricles, Sofia Manzano e Vera Lúcia, 124 mil.

Se considerarmos que todos os votos de Kelmon, Thronicke, D’Avila e Eymael se transfeririam a Bolsonaro, que todos os votos de Péricles, Manzano e Vera se transfeririam para Lula, que 40% dos votos de Tebet iriam para Lula e 60% para Bolsonaro e que 30% dos votos de Ciro iriam para Lula e 70% para Bolsonaro, Lula teria 60,4 milhões de votos, contra 57,7 milhões de Bolsonaro – considerando o número de votos válidos do 1º turno, são 51,1% dos votos para Lula e 48,9% para Bolsonaro; algo bastante próximo dos 52% e 48% apontados pelo Datafolha.

O grande desafio enfrentado por Lula no segundo turno é a abstenção. Cientistas políticos como Antonio Lavareda têm insistido na tese de que este foi o fator-chave para os resultados do primeiro turno. Como a maior parte das abstenções tendem a vir dos setores mais pobres, e como estes setores se inclinam ao voto em Lula, as abstenções têm um peso diferente entre o ex-presidente e Bolsonaro: punem mais o primeiro que o último. Tendo em vista que o nível de abstenção historicamente é maior no segundo turno do que no primeiro, a vantagem de Lula contra Bolsonaro tende a se estreitar.

Mas mesmo considerando um cenário em que, para cada 100 abstenções, 75 seriam votos para Lula e 25 para Bolsonaro, e em que o número de abstenções saltasse dos 32,7 milhões do primeiro turno para 36 milhões (o que seria um salto de 2% mais eleitores deixando de votar) Lula ainda venceria, tendo em conta esta projeção, com cerca de 1 milhão de votos válidos de vantagem.

A constatação, portanto, é que não há razão nenhuma para se espantar diante da última pesquisa – a não ser a confusão das emoções. Como sugere o axioma do Cardeal Mazarin, “desconfia de tudo aquilo a que te arrastam teus sentimentos”. Poderia completar: porque os sentimentos por vezes arrastam à confusão, à cegueira.

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Ao contrário dos prescritores de esperança, não afirmo que a vitória de Lula é certa. Mas ela é, sendo pessimista, bastante provável. Na reta final da campanha, vale mais a convicção no combate que a esperança da vitória; mais a disposição do movimento que a letargia da espera; mais a razão atuante que o sentimentalismo apático.

Encerro aqui o que só é um rascunho pela certeza de que terei que fazer futuras batalhas contra a esperança. Quanto a estas, esperança de que as vencerei não há nenhuma. Mas conservo a certeza de que ela tampouco me derrotará, menos ainda quando há batalha pela frente. Que dirá nas batalhas em que é possível, e realmente crucial, vencer.

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