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Expressas: Comando Militar virou jornal?

Após 8 de janeiro, Forças Armadas procuram limpar manchas de sua associação com o golpismo, e chegam até a “sequestrar” coletivas de imprensa.
Após 8 de janeiro, Forças Armadas procuram limpar manchas de sua associação com o golpismo, e chegam até a “sequestrar” coletivas de imprensa. Por Pedro Marin | Revista Opera
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta o novo comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva. (Foto: Ricardo Stuckert / Palácio do Planalto)

Na semana passada, após visita ao município de São Sebastião (SP), fortemente atingido pelas chuvas nos dias 18 e 19 de fevereiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin realizou uma coletiva de imprensa. Ao lado do prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto (PSDB), e do governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Alckmin respondeu a perguntas sobre a liberação de recursos para construção emergencial de moradias populares, acesso a rede de esgoto no litoral norte de São Paulo, medidas de prevenção de ocupação de áreas de risco, mudanças climáticas, etc.

Falou com entusiasmo, no entanto, sobre a participação das Forças Armadas em operações de socorro à população atingida pelas tragédias no litoral norte: “Nota onze. Onze. Dez é pouco. É impressionante o profissionalismo, tecnologia, time – é só ver aqui, num caso específico. Se tem aqui o Exército, está com mais de 300 militares, toda a parte de engenharia, toda a parte de logística; se tem a Aeronáutica, os equipamentos mais modernos, transportando vítimas, socorrendo, trazendo alimento; se tem a Marinha… Eu não tinha entrado num navio daquele tamanho ainda, né? […] Uma cidade verdadeira, pode ter mais de mil policiais, e com um hospital, tem UTI, centro cirúrgico. Então um trabalho importante.”

A fala do vice-presidente foi destacada no portal Uol e no perfil no Twitter do Comando Militar do Sudeste. O que chama atenção não é a resposta dada pelo vice – o reconhecimento do trabalho das Forças Armadas é algo usual nessas situações, ainda que raramente tão entusiasmado –, mas sim a pergunta que a motivou ou, melhor, a figura que fez tal pergunta. “Como o senhor avalia a atuação das Forças Armadas, e principalmente do Exército Brasileiro?”, perguntou, ao final da coletiva, a tenente Micaela L., jornalista do Comando Militar do Sudeste.

Coletivas de imprensa são, como o termo sugere, entrevistas voltadas à imprensa. O fato de serem voltadas à imprensa supõe um pacto no qual a imprensa se coloca à disposição de divulgar as falas da autoridade na mesma medida em que a autoridade se abre a perguntas que possivelmente não lhe agradem. O acordo tácito é o de que a imprensa repercutirá o que disser a autoridade, mas não nos termos em que ela deseja, precisamente porque se reconhece a imprensa como um corpo mais ou menos objetivo, no sentido de que não está diretamente associado aos fatos discutidos pela autoridade ou à autoridade em si. A coletiva existe para que a autoridade não se comunique somente por meio de exercícios autoindulgentes de relações públicas.

Embora seja discutível até que ponto a imprensa é de fato desinteressada e objetiva em uma série de temas, o fato é que nenhum jornalista do Estadão perguntou, durante a coletiva, qual era a opinião do vice-presidente sobre a cobertura do jornal. O Exército, o Comando Militar do Sudeste, são organizações diretamente associadas às ações emergenciais no litoral norte. Seus comandantes bem poderiam estar na posição de autoridades inquiridas, mas, aparentemente, orientam que haja também componentes da organização entre os que inquirem – “sequestrando” coletivas de autoridades terceiras e transformando-as em peças de relações públicas do Exército. Ressalte-se, ainda, que o fazem como parte do Estado, de forma que este seu esforço de autopromoção é feito com dinheiro do povo. Imaginem, por um segundo, o absurdo que seria um determinado juiz ou tribunal contratar jornalistas e assessores para que entrem de penetra em coletivas de autoridades: “senhor vice-presidente, sou fulano, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Gostaria de perguntar o que você tem achado do trabalho do tribunal no último mês” – não seria essa uma situação reprovável e absurda?

Pesquisa Ipsos de 2022 revelou que somente 30% dos brasileiros têm confiança nas Forças Armadas – outros 34% confiavam pouco ou nada. O índice de confiabilidade das Forças Armadas brasileiras só foi maior do que em relação à Colômbia, África do Sul e Coreia do Sul – países que ou vivem tensões militares bastante pronunciadas, ou as viveram nos últimos 30 anos. Quatro anos antes, em 2019, o índice era consideravelmente diferente: 39% dos brasileiros confiavam nas Forças Armadas, e só 23% não confiavam. Entre um índice e outro, a participação das Forças Armadas no governo Bolsonaro.

Desde o 8 de janeiro, as Forças Armadas aparentemente se esforçam para se livrar da imagem golpista à qual, de bom grado, se associaram. Um dos passos nestes esforços foi a divulgação de um vídeo do então comandante do Comando Militar do Sudeste, Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, no qual fazia um discurso tido como legalista. O discurso foi feito no dia 18 de janeiro.

Três dias depois, o general Tomás Paiva era apontado como novo comandante do Exército, no lugar do general Arruda. Saudado como um comandante democrata, Tomás Paiva havia sido chefe de gabinete de Villas Bôas, e participado da escrita do tuíte [1] disparado pelo então comandante na véspera do julgamento de habeas corpus de Lula. Desde então, um áudio revelado pelo podcast Roteirices, do jornalista Carlos Alberto Jr., demonstrou que, no mesmo dia em que fazia seu discurso “legalista”, Tomás Paiva afirmou numa reunião reservada com subordinados que a eleição de Lula foi “indesejada”. O mais grave: disse, sobre planos do governo Lula de promover uma reforma nas Forças Armadas, que “Faz parte da cadeia de comando segurar para que isso não ocorra. Agora fica mais difícil, mas nós vamos segurar, porque o Brasil precisa das Forças Armadas. Da nossa postura, da nossa coesão, da nossa manutenção dos valores, da crença na hierarquia e disciplina, do nosso profissionalismo, depende da força política do comandante e dos comandantes de Força para obstar qualquer tipo de tentativa de querer nos jogar para o enquadramento“. 

O leitor poderá, por fim, protestar contra tudo o que aqui se escreve; questionar se, afinal, as Forças Armadas não ajudaram o litoral norte. Diria que o fizeram, tanto quanto diversas outras organizações, estatais ou não. Embora todas estas pudessem merecer elogios de autoridades, não deixaria de ser absurdo que qualquer uma delas usasse coletivas de autoridades para limpar seu nome. Nome sujo, entre outras coisas, por terem apoiado ativamente um governo que desidratou investimentos para prevenção de desastres. Desastres como os ocorridos no litoral norte.

Se as Forças Armadas querem limpar as manchas com as quais elas mesmas sujaram suas fardas, que deixem de querer “segurar” para que reformas “não ocorram”, como disse o comandante do Exército. Se querem ser, além de tantas coisas, também jornais, sugiro que deixem de lado as armas. Proponho trocá-las pela minha caneta. 

Notas:
[1] – No dia 21, quando Tomás foi apontado como comandante, reportamos que, no livro-entrevista “General Villas Bôas: Conversa com o comandante” (FGV, 2021), de Celso Castro, havia a sugestão de que Tomás havia participado diretamente no episódio do tuíte, embora não ficasse claro. No livro “Tormenta – O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos” (Companhia das Letras, 2020), de Thaís Oyama, no entanto, é relatado que Tomás de fato participou diretamente na escrita do tuíte. A Revista Opera entrou em contato com o Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx) na noite do dia 21 de janeiro, perguntando se Tomás havia participado do rascunho ou das discussões relativas ao tuíte de Villas Bôas. O CCOMSEx não respondeu.

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