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A urgência de relançar a Unasul

A retomada da Unasul poderia incorporar a voz unificada do continente nos assuntos internacionais num contexto de tensionamento global.

A retomada da Unasul poderia incorporar a voz unificada do continente nos assuntos internacionais num contexto de tensionamento global. Por Misión Verdad – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
30.05.2023 – Fotografia oficial dos Presidentes dos países da América do Sul. Palácio Itamaraty – Brasília – DF. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A recente convocação do presidente Lula da Silva para a realização de uma cúpula de presidentes sul-americanos no Brasil ocorre em um momento em que a região enfrenta desafios tanto em termos de integração econômica quanto de unidade política. Nesse sentido, os líderes regionais deveriam levar em conta a necessidade de fortalecer essas áreas por meio do relançamento da União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

A Unasul como um bloco poderoso e influente

O governo de Lula da Silva no Brasil tem um grande valor simbólico para a reativação da Unasul, já que o tratado que deu origem a ela foi assinado no país durante seu segundo mandato. Retomar este caminho a partir do Brasil enviaria uma forte mensagem de compromisso renovado com a integração e a autodeterminação na região, em um contexto global no qual as tensões da Guerra Fria parecem estar voltando.

Um fator que se destaca na Unasul é seu perfil geopolítico diversificado. Outros órgãos regionais se concentram em áreas temáticas específicas. Em contrapartida, a Unasul aborda uma ampla gama de questões, desde energia até integração financeira, social e cultural. Isso lhe dá uma presença mais forte, e maior poder em nível regional. Além disso, sua existência confere à América do Sul uma centralidade geopolítica, algo que outras iniciativas, como o Prosur ou a Aliança do Pacífico, não alcançaram, mesmo após o caminho ter sido aberto após a desintegração da Unasul.

Enquanto outras plataformas regionais enfrentam problemas de estrutura e representatividade, a Unasul tem um número razoável de Estados membros, que lhe permite ter uma arquitetura organizacional eficiente. Isso facilita a coordenação e o planejamento de reuniões entre presidentes e ministros das Relações Exteriores, bem como a comunicação de alto nível, o que acelera a tomada de decisões.

O relançamento da Unasul também seria uma grande conquista narrativa para o continente, pois significaria uma formalização da mudança do direcionamento geopolítico provocado pelo surgimento de novos governos progressistas. Isso confirmaria que a integração é uma prioridade para as agendas desses governos.

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Sua reativação permitiria superar o vácuo de unidade política deixado pelo ciclo de governos de direita aliados aos Estados Unidos, demonstrando às plataformas geopolíticas emergentes um avanço sério e responsável na integração regional. Esse órgão poderia incorporar a voz unificada do continente nos assuntos internacionais e posicioná-lo como um bloco poderoso e influente.

Responder aos novos desafios pela resolução pacífica e com soberania

A Unasul demonstrou sua eficácia e capacidade no passado ao enfrentar coletivamente tentativas de desestabilização, golpes e operações de mudança de regime no continente.

Durante seus primeiros anos, o bloco foi fundamental na defesa dos direitos políticos de Manuel Zelaya em Honduras, contribuiu para a estabilidade da Bolívia durante uma tentativa de golpe secessionista, agiu rapidamente no Equador diante de uma tentativa de golpe e também lidou com o golpe parlamentar no Paraguai.

Esse órgão tem um Protocolo contra golpes de Estado, aprovado em 2010, que o torna o único órgão da região com sua própria visão sobre a preservação da ordem democrática. Isso se traduz em uma série de ferramentas e mecanismos para lidar com episódios de desestabilização que podem ser muito úteis em um contexto de fragilidade política e social no continente.

O relançamento da Unasul é uma oportunidade propícia para contrapor a proposta do presidente Gustavo Petro de reescrever o “pacto democrático” da região sob a concepção da Organização dos Estados Americanos (OEA) e seu sistema de direitos humanos – com sede em Washington, D.C. – que enfraqueceria a postura autônoma do continente.

Ao oferecer uma alternativa de contrapeso, o órgão poderia neutralizar esse e quaisquer outros esforços para intensificar a influência ideológica de Washington e fortalecer suas instituições orientadas para a intromissão. Isso é fundamental em um contexto em que a fragilidade do poder dos EUA é evidente.

Integração e complementaridade na era multipolar

A Unasul tem a capacidade e a vantagem de ser o eixo central para a implementação da proposta da moeda “Sur”, e também pode cumprir este papel para outros mecanismos que busquem promover a desdolarização do comércio e do intercâmbio financeiro na região.

Por outro lado, o acúmulo de reservas minerais estratégicas e a infraestrutura agrícola e industrial dos Estados membros representam uma base material sólida que confere peso geopolítico imediato ao bloco como um todo. Se aproveitada adequadamente, essa densidade pode impulsionar projetos monetários autônomos e aumentar ainda mais a integração comercial na região, com o bloco no epicentro desses desenvolvimentos.

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A organização poderia ainda apoiar a complementaridade e a geração de projetos comuns entre os Estados membros. A Venezuela pode ser uma fonte de fornecimento de fertilizantes para a poderosa infraestrutura da Argentina e do Brasil, enquanto o potencial de exportação de lítio da Bolívia e da Argentina pode levar à discussão de projetos conjuntos que reestruturem as cadeias de valor e democratizem os benefícios da tecnologia para o desenvolvimento regional.

O fortalecimento da Unasul, em termos de poder de negociação em nível global, é fundamental para permitir uma ação conjunta e sólida entre os Estados membros. A possibilidade de atuar como um bloco ajuda o continente a ter uma maior influência em órgãos financeiros e fóruns multilaterais.

Esse recurso pode ser usado para agir contra a pressão exercida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a Argentina e a política de “sanções” ilegais impostas pelos Estados Unidos contra a Venezuela. A Unasul poderia adotar ações conjuntas dos Estados membros, com vistas à colaboração mútua em momentos críticos de suas respectivas situações nacionais.

Para atingir esses objetivos de estabilização econômica e promoção de projetos de integração regional, seria benéfico aproveitar a influência do Brasil em entidades como o Novo Banco de Desenvolvimento do Brics e promover linhas de financiamento que impulsionem o desenvolvimento dos países da região.

A Unasul também poderia atuar como uma plataforma para melhorar as relações com as potências do mundo multipolar e participar de debates sobre novas iniciativas de segurança e estruturas financeiras independentes do dólar.

Um recomeço efetivo da Unasul, com o objetivo de fazer com que ela atue como uma entidade unificada e relevante, teria o potencial de trazer um progresso significativo em direção a uma maior influência e proeminência da América do Sul no cenário global.

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