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A queda do governo Assad na Síria

A vitória surpreendente do HTS havia sido prevista em novembro por oficiais iranianos, que informaram Assad sobre a fraqueza das defesas da Síria frente os ataques israelenses

Vijay Prashad
Um retrato de Bashar al-Assad é despedaçado após a tomada de Damasco pelas tropas do HTS.(Foto: RS/Fotos Públicas)

Quando as forças rebeldes lideradas pelo Hayat Tahrir al-Sham (Comitê de Libertação da Síria) tomaram Damasco, a capital da Síria, no dia 7 de dezembro de 2024, o então presidente da Síria, Bashar al-Assad, embarcou em um voo para Moscou, na Rússia. Esse foi o fim do comando da família Assad, que começou quando Hafez al-Assad (1930-2000) se tornou presidente em 1971 e continuou com seu filho Bashar a partir de 2000 – um período de 53 anos de governo. O Hayat Tahrir al-Sham (HTS), que tomou Damasco, foi formado a partir dos remanescentes da afiliada da al-Qaeda na Síria, a Jabhat al-Nusra ou Frente Al-Nusra (Frente para a Conquista da Síria), em 2017, e é liderado por seu emir, Abu Jaber Shaykh, e seu comandante militar, Abu Mohammed al-Jolani.

Nos últimos sete anos, o HTS esteve restrito à cidade de Idlib, no norte da Síria. Em 2014, um grupo de veteranos da Al-Qaeda criou a rede Khorasan (liderada por Sami al-Uraydi, o líder religioso), com a intenção de controlar a cidade e os movimentos islâmicos. No ano seguinte, a al-Nusra tentou formar alianças com outras forças islâmicas, como a Ahrar al-Sham, particularmente para o governo da cidade. A intervenção militar russa em 2015 prejudicou a capacidade desses grupos de avançar para além de Idlib, o que levou ao rompimento formal de muitos dos islamistas com a al-Qaeda em 2016 e à criação do HTS em janeiro de 2017. Aqueles que permaneceram ligados à al-Qaeda formaram a Hurras al-Din (ou Guardiões da Organização Religiosa). No final do ano, o HTS tomou a dianteira e se tornou a principal força dentro de Idlib, assumiu o controle dos conselhos locais em toda a cidade e declarou que ela era o berço do Governo de Salvação da Síria. Quando o Exército Árabe Sírio, a força militar do governo, avançou em direção a Idlib no início de 2020, a Turquia invadiu o norte da Síria para defender os islamistas. Tal invasão resultou no cessar-fogo russo-turco em março de 2020, que permitiu que o HTS e outros permanecessem ilesos em Idlib. O HTS reconstruiu suas fileiras por meio de alianças com forças armadas apoiadas pela Turquia e com combatentes de toda a Ásia Central (incluindo muitos combatentes uigures do Partido Islâmico do Turquestão).

A Operação Deterrence of Aggression (Dissuasão da Agressão), lançada pelo HTS em novembro de 2024 com o apoio turco e israelense, varreu a rodovia M5, que liga Aleppo a Damasco, em cerca de 14 dias. O Exército Árabe Sírio se dissolveu diante deles e os portões de Damasco se abriram sem grande qualquer derramamento de sangue.

A blitzkrieg jihadista

A vitória surpreendente do HTS havia sido prevista em novembro por oficiais iranianos, que informaram Assad sobre a fraqueza das defesas do estado devido aos ataques israelenses contínuos às posições do exército sírio, à invasão israelense do Líbano e à guerra na Ucrânia. Quando o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, se reuniu com Assad em Damasco depois que Aleppo caiu nas mãos dos rebeldes, Assad disse a Araghchi que esse fato não era uma derrota, mas um “recuo tático”. Claramente, isso era uma ilusão. Araghchi, sabendo disso, disse a Assad que o Irã simplesmente não tinha a capacidade de enviar novas tropas para defender Damasco. Também ficou claro para o governo de Assad que os russos não tinham a capacidade excedente para defender o governo, nem mesmo a base naval russa em Tartus. Durante o avanço do HTS contra o exército sírio, o enviado presidencial russo para a Síria, Alexander Lavrentyev, disse que havia entrado em contato com o novo governo Trump para discutir um acordo entre “todas as partes” sobre o conflito sírio. Nem a Rússia nem o Irã acreditavam que o governo de Assad seria capaz de derrotar unilateralmente os muitos rebeldes e retirar os Estados Unidos de sua dos campos de petróleo do leste, ocupados pelo país. O acordo foi a saída, o que significa que nem o Irã nem a Rússia estavam dispostos a enviar mais tropas para defender o governo de Assad.

Desde 2011, a força aérea de Israel tem atacado várias bases militares sírias, inclusive bases que abrigavam tropas iranianas. Esses ataques degradaram a capacidade militar síria, destruindo material e equipamentos. Desde outubro de 2023, Israel tem aumentado seus ataques na Síria, inclusive atingindo forças iranianas, defesas aéreas sírias e instalações de produção de armas sírias. No dia 4 de dezembro, os chefes das forças armadas do Irã (Chefe do Estado-Maior General Mohammad Bagheri), Iraque (Major General Yahya Rasool), Rússia (Ministro da Defesa Andrey Belousov) e Síria (General Abdul Karim Mahmoud Ibrahim) se reuniram para avaliar a situação na Síria. Eles discutiram o movimento do HTS para além de Aleppo e concordaram que, com o frágil cessar-fogo no Líbano e as forças enfraquecidas do governo sírio, esse era um “cenário perigoso”. Embora tenham dito que apoiariam o governo de Damasco, não tomaram nenhuma medida concreta. Os ataques israelenses dentro da Síria, enquanto isso, aumentaram a desmoralização dentro do exército sírio, que não foi devidamente reorganizado após o início do impasse com os rebeldes em Idlib em 2017.

Quando a Rússia entrou no conflito na Síria em 2015, o comando militar russo insistiu que o governo sírio não permitisse mais que grupos de milícias pró-governo (como o Kataeb al-Ba’ath e o Shabbiha) operassem de forma independente. Em vez disso, esses grupos foram integrados ao Quarto e ao Quinto Corpo de Exército sob comando russo. Enquanto isso, os oficiais iranianos organizaram seus próprios batalhões de soldados sírios. O declínio dos padrões econômicos dos soldados, combinado com o comando estrangeiro, acelerou a desmoralização. Até mesmo a Guarda Republicana, encarregada de defender Damasco e, em particular, o palácio presidencial, havia perdido muito de seu poder histórico.

Em nenhum momento após 2011 o governo sírio teve o controle total do território do país. Desde 1973, Israel já controlava as Colinas de Golã. Em 2011, a Turquia invadiu as fronteiras do norte da Síria, quando as forças de resistência curda (YPG e PKK) formaram uma espécie de zona de segurança ao longo da fronteira entre a Síria e a Turquia. O noroeste da Síria foi tomado pelos rebeldes, que incluíam não apenas o HTS, mas também uma série de milícias apoiadas pela Turquia. O nordeste da Síria foi ocupado pelos Estados Unidos, que assumiram o controle dos campos de petróleo. Nessa região, as forças norte-americanas enfrentaram o Estado Islâmico, que havia sido expulso do norte do Iraque e do nordeste da Síria, mas que voltavam a aparecer de tempos em tempos. Enquanto isso, no sul da Síria, o governo havia feito uma série de acordos precipitados com os rebeldes para dar uma aparência de paz. Em cidades como Busra al-Sham, Daraa, Houran e Tafas, o governo não pôde enviar nenhum de seus oficiais; essas cidades, como Idlib, ficaram sob o controle dos rebeldes. Quando o HTS atacou Damasco, os rebeldes no sul se levantaram, assim como os rebeldes do extremo leste do país, ao longo da fronteira com o Iraque. A realidade da fraqueza de Assad tornou-se evidente.

A vantagem de Israel

De forma coordenada, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dirigiu-se à área ocupada das Colinas de Golã, que Israel tomou da Síria em 1973, e anunciou: “Este é um dia histórico na história do Oriente Médio”. Em seguida, ordenou que o exército israelense invadisse a zona de proteção estabelecida pela ONU entre a ocupação israelense de Golã e os postos do exército sírio definidos durante o armistício de 1974. Os tanques israelenses entraram na zona rural da província de Quneitra e tomaram a cidade principal. A fronteira entre Israel e a Síria agora foi moldada por essa invasão, já que Israel avançou vários quilômetros para dentro da Síria, tomando quase toda a extensão da fronteira.

Durante os últimos dias do avanço do HTS rumo a Damasco, a força aérea israelense forneceu apoio aéreo aos rebeldes. Eles bombardearam bases militares e a sede da inteligência síria no centro de Damasco. Com a desculpa de que queriam destruir depósitos de armas antes que os rebeldes os tomassem, os israelenses atacaram bases que abrigavam tropas sírias e estoques de armas que o exército sírio poderia ter usado para defender Damasco (isso incluiu a Base Aérea de Mezzah). As autoridades israelenses afirmaram que continuarão com esses ataques aéreos, mas não indicaram quem eles planejam atingir.

O ataque israelense à Síria se aprofundou durante as manifestações de 2011. À medida que os combates entre os rebeldes e o governo sírio se espalharam pelo sul da Síria, nas proximidades da fronteira israelense, Israel começou a disparar contra as forças sírias do outro lado da fronteira. Em março de 2013, por exemplo, os israelenses dispararam mísseis contra postos militares sírios, enfraquecendo-os e fortalecendo os rebeldes. No final de 2013, Israel criou a Divisão 210, um comando militar especial, para iniciar combates ao longo da linha de armistício entre Israel e a Síria. É importante ressaltar que, quando a organização antecessora do HTS e afiliada à al-Qaeda, Jabhat al-Nusra, começou a avançar ao longo da linha de controle israelense, Israel não os atacou. Na verdade, Israel atacou o governo sírio, abatendo jatos da força aérea síria e assassinando aliados sírios de alto escalão (como o general Mohammad Ali Allahdadi, um general iraniano, em janeiro de 2015, e Samir Kuntar, um líder do Fatah, no final de 2015). Um ex-assessor de imprensa em Damasco me disse que os israelenses efetivamente forneceram apoio aéreo para o ataque do HTS à capital.

O futuro da Síria

Assad deixou a Síria sem dar qualquer notícia. Ex-funcionários do governo em Damasco disseram que alguns altos líderes saíram com ele ou foram para a fronteira com o Iraque antes da queda de Damasco. O silêncio de Assad deixou muitos sírios, que acreditavam fundamentalmente que o Estado os protegeria do ataque de grupos como o HTS, perplexos. Um sinal do colapso do governo de Assad é o fato de sua Guarda Republicana nem ter tentado defender a capital, e o fato de ele ter partido sem nenhuma palavra de encorajamento ao seu povo.

O país está polarizado em relação ao novo governo. Setores da população que viram seu modo de vida ser degradado pela guerra e pelas sanções acolhem a abertura e têm saído às ruas para comemorar a nova situação. O contexto mais amplo do Oriente Médio não é a preocupação mais imediata deles, embora, dependendo das ações de Israel, isso possa mudar. Uma parte considerável está preocupada com o comportamento dos islamistas, que usam termos depreciativos contra os muçulmanos não sunitas, como nusayriyya (para os alauítas, a comunidade da família al-Assad) e rawafid (para a grande população xiita na Síria). Chamar os muçulmanos não sunitas de ahl al-batil ou “os perdidos” e usar um forte linguajar salafista sobre apostasia e sua punição desencadeia o medo entre aqueles que podem ser alvos de ataques. Ainda não se sabe se o novo governo conseguirá controlar suas forças, motivadas por essa ideologia sectária.

Esse sectarismo é apenas a introdução das contradições que surgirão quase que de imediato. Como o novo governo lidará com as incursões israelenses, turcas e norte-americanas no território sírio? Ele buscará reconquistar essas terras? Qual será a relação entre o governo sírio e seus vizinhos, especialmente o Líbano? Os milhões de refugiados sírios voltarão para suas casas agora que a base para sua migração foi removida e, se voltarem, o que os aguardará dentro da Síria? E, principalmente, o que tudo isso significará para o genocídio contínuo dos palestinos pelos israelenses?

(*) Tradução de Raul Chiliani

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