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A segunda prisão de Jair Bolsonaro

A primeira prisão de Bolsonaro o catapultou à política; a segunda dela o retira. Condenado a 27 anos, o capitão pode sobreviver chantageando seu próprio campo

Pedro Marin
Brasília (DF), 26/03/2025 - Ex-presidente Jair Bolsonaro durante declaração a imprensa após virar Réu no STF. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil).
Brasília (DF), 26/03/2025 – Ex-presidente Jair Bolsonaro durante declaração a imprensa após virar Réu no STF. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil).

A história se repete, a primeira vez como farsa: em 1 de setembro de 1986, o capitão Bolsonaro amargou sua primeira prisão, após publicar na revista Veja o artigo “O salário está baixo”, no qual denunciava a perda salarial dos militares pela inflação do governo Sarney. Convém recordar, passados quase 40 anos, seu último parágrafo: “torno público este depoimento para que o povo brasileiro saiba a verdade sobre o que está ocorrendo na massa de profissionais preparados para defendê-lo. Corro o risco de ver minha carreira de devoto militar seriamente ameaçada, mas a imposição da crise e da falta de perspectiva que enfrentamos é maior. Sou um cidadão brasileiro cumpridor dos meus deveres, patriota, e portador de uma excelente folha de serviços. […] Amo o Brasil e não sofro de nenhum desvio vocacional. Brasil acima de tudo.

A punição pela publicação do artigo sofrida pelo capitão de artilharia, então com 31 anos, foi de 15 dias de prisão por quebra de disciplina e hierarquia. Sua recompensa: ter se tornado notável, dentro dos quartéis e fora deles, como um representante das demandas do baixo escalão militar, o que acabaria por lhe garantir uma entrada na política institucional precisamente na transição final da ditadura para a democracia, ainda antes do povo brasileiro eleger diretamente seu primeiro presidente após 21 anos de regime militar.

Como relata Luiz Maklouf em “O Cadete e o Capitão”, a punição ao capitão motivou atos como um protesto de esposas de oficiais do Exército na Praia Vermelha, o endosso público de oficiais do Instituto Militar de Engenharia (IME), o apoio do general da reserva e ex-chefe do Centro de Informações do Exterior (CIEx) do governo Figueiredo, Newton Cruz, e o recebimento de mais de 150 telegramas elogiosos de militares de todo o país. De acordo com documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI) citados por Maklouf, o artigo de Bolsonaro na Veja repercutiu “favoravelmente na grande maioria do público interno do Comando Militar do Leste […] Na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, chegou a ser marcada uma reunião de oficiais para tratar do assunto, posteriormente suspensa pelo comando. Na brigada paraquedista, seus integrantes apoiaram ostensivamente as declarações do referido oficial, havendo comentários como ‘alguém tinha que falar’”. Em unidades militares em Porto Alegre e em Belém também houve manifestações solidárias a Bolsonaro, que levaram à prisão domiciliar de dois oficiais. O artigo do capitão movimentou os quartéis.

Mesmo punido, Bolsonaro voltaria à baila somente um mês após sua prisão. Na última semana de outubro de 1987, na edição 999 da Veja, a repórter Cassia Maria publicou, com informações dadas por Bolsonaro, um plano de militares, liderados pelo capitão, de explodir bombas “em várias unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ) e em vários quartéis”, em um movimento coordenado para exigir aumento salariais ao governo. Para além do plano de Bolsonaro – apelidado “Beco Sem Saída” –, naquelas semanas a indignação salarial explodia em outras revoltas militares: em Apucarana, no Paraná, o capitão Luiz Fernando Walther de Almeida – que seria, décadas depois, indicado a diversos cargos no governo Bolsonaro –, comandou 50 soldados armados rumo à prefeitura da cidade, invadindo-a e apresentando proclamação “contra as autoridades políticas desse país”. No Rio, o capitão Sadon Pereira Pinto seria preso por formalizar uma queixa a seus superiores na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), reivindicando melhores salários e criticando o governo. Vitória dos irredentos: o presidente José Sarney concederia aumento salarial de 110% aos militares.

A vitória maior, no entanto, não veio com a recomposição salarial. José Carlos de Andrade, chefe da sucursal da Veja no Rio responsável pela publicação do artigo de Bolsonaro na coluna “Ponto de Vista” da revista, em depoimento a Maklouf, não deixa dúvidas quanto ao movimento do capitão: “ele ainda era um total desconhecido fora da caserna, mas quem vivia no meio militar sabia das insatisfações. O Clube Militar, intramuros, dava força aos protestos do jovem capitão. Ele já contava com o apoio de generais de pijama, e não foi num repente que resolveu meter a cara.” Quanto às intenções de Bolsonaro, diz o jornalista: “Eu acredito que tinha projeto para seguir na política partidária, sacado por alguns oficiais que o estimularam a representar a classe verde-oliva, como ponto de partida. Foi o ‘Ponto de Vista’ que projetou nacionalmente”.

Então subcomandante de Bolsonaro, o coronel Edson Bimbi deu, ao menos em parte, razão a Andrade. Mais uma vez citando o livro de Maklouf: “‘Ele falou comigo na segunda-feira, depois da publicação do artigo, ainda na adrenalina, perguntando o que fazer’, lembrou-se Bimbi, hoje advogado e coronel da reserva, em uma entrevista concedida por telefone, de São José dos Campos (SP). ‘O teu caminho é a política’, ele respondeu ao capitão na época. ‘O Bolsonaro era uma liderança carismática para os subtenentes, cabos e soldados”, disse Bimbi.’” Tomando-se essa versão como verdadeira, explica-se a razão para que um capitão, preso por um artigo, tenha revelado para uma jornalista, um mês após sua prisão, seu suposto plano explosivo: não tanto a suposição de que seu movimento rebelde conquistaria aumentos salariais, mas a consciência de que seu caminho era a política. Um caminho que seria frutífero ao capitão.

Maklouf narra ainda o reencontro de Bolsonaro com Ali Kamel, chefe de redação da Veja no Rio de Janeiro nos anos 80, no dia 28 de agosto de 2018, quando o ex-capitão foi sabatinado como candidato à presidência no Jornal Nacional da TV Globo. Bolsonaro teria recordado de sua relação com Kamel no imbróglio das matérias da Veja: “‘A gente se cruzou por telefone ali pelos anos de 1988, não?’ Quem viu a cena, conta que Kamel hesitou uns segundos – não esperava a pergunta – e disse: ‘Sim, sim, eu tinha 25 e era chefe de redação da Veja no Rio’. Bolsonaro respondeu: ‘Sem mágoas, sem mágoas’. Kamel replicou, na hora: ‘Mágoas? Mas como assim? Foi depois daquela reportagem que o senhor se lançou na vida política!’. Bolsonaro riu, a seu estilo, e emendou: ‘É isso mesmo. Sabe que há uns dez anos eu encontrei num aeroporto a Cassia Maria Rodrigues. Eu não a reconheci, tinha muitos anos que não a via. Mas ela disse: ‘Deputado, sou a Cassia, aquela repórter de Veja que denunciou o senhor’. Eu disse para ela: ‘Que denunciou que nada! Você me catapultou para a política’”.

Olhando em retrospecto, foi a primeira prisão do então capitão que permitiu a Bolsonaro se tornar o que tenho insistido em chamar, à luz do esquema teórico de Oliveiros Ferreira, de “totem” do Partido Fardado; sua insistência em ir à imprensa, um mês após sua prisão, com absurdos planos terroristas, aumentando a pressão sobre o governo e dele obtendo uma vitória, consolidou sua futura eleição a vereador do Rio de Janeiro em 1988.

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Nascido do interior das Forças Armadas em oposição ao establishment militar – representado, via de regra, pelo conservadorismo dos escalões superiores, que tendem a evitar, inclusive por autopreservação, processos de ruptura e até de reforma –, o Partido Fardado nada mais é do que um comitê de audazes, dentro das Forças Armadas, que busca, para além da legalidade, da hierarquia e da disciplina, e pela adesão da tropa ao seu movimento, reformar as Forças Armadas, tanto no que tange à sua forma de organização interna quanto no que tange à sua relação com o próprio Estado e a sociedade – o que significa, em última instância, reformar o próprio Estado e a própria sociedade. O Partido Fardado, no entanto, encontra sempre um primeiro problema: a realização de seu programa só pode dar-se por movimento que é, em si, contra a disciplina, a hierarquia, a coesão e a noção de “honra militar”; ao mesmo tempo, sua base social – aquela sem a qual o movimento não pode se realizar – é, por excelência, constituída como disciplinada, coesa, ciosa da honra e comprometida com a hierarquia.

O Partido Fardado portanto busca que amplos setores das Forças Armadas, como militares, rompam com seus próprios princípios constitutivos – daí a importância do totem, aquele que, pela “respeitabilidade” que invoca como indivíduo militar, é capaz de fazer com que a “mole militar”, seguindo-o, rompa com a hierarquia e a disciplina enquanto supõe segui-la. Oliveiros não deixa de notar, no entanto, a debilidade de tal ação: se o Partido Fardado ganha a adesão da tropa e a põe em movimento pelo chamamento do totem, também estabelece, pelo totem, seu limite de ação, na medida em que “por sua posição funcional e pelas condições que cercam sua inserção no meio social e político, os totens são a negação dos ideais do Partido Fardado. É por isso que, necessitando do totem para levar avante a derrubada das muralhas de Jericó, o Partido Fardado não consegue realizar as transformações que teriam sido possíveis – dentro da lógica interna da guerra – a partir da quebra da hierarquia e da disciplina”. 

Em resumo: o Partido Fardado é a negação das ideias constitutivas das Forças Armadas como corporação; para pôr seus ideais em movimento, no entanto, depende da classe militar, ciosa daquelas ideias constitutivas; para fazer prevalecer como movimento a sua negação das ideias constitutivas, portanto, o Partido necessita corporificar num totem a negação de sua própria negação – o que não impede que chegue ao píncaro do poder, remodelando as Forças Armadas-Estado, mas o restringe a parodiar e reproduzir, mesmo na sua ruptura, o conservadorismo típico do establishment militar. É a junção da ação rupturista do Partido incorporada em valores conservadores do totem que tornam o Partido Fardado fenômeno tendente ao extremismo de direita.

As reivindicações salariais públicas de Bolsonaro, sua prisão, o planejamento – real ou farsesco, não importa – de ações explosivas, sua saída do Exército; cada um destes atos não constituíram só reivindicações (vitoriosas) dos baixos escalões contra o governo Sarney; nem foram, simplesmente, atos de insubordinação contra o establishment militar, então conduzindo a redemocratização – ainda que como poder tutelar –, capazes de inspirar outros “atos heróicos” de rebeldia militar; foram também atos pelos quais o próprio capitão conquistou prestígio entre seus pares como herói e representante de sua classe. Bolsonaro tornou-se totem a partir da plataforma do Partido Fardado, e, assim, conquistou seu passe para a política institucional; o Partido, por outro lado, assegurou um representante, a princípio como vereador, depois como deputado, enfim como presidente, na Nova República que o establishment militar dialeticamente ajudou (ou permitiu) consolidar-se e à qual o Partido necessariamente haveria de se opor. A priori, talvez tenha sido a primeira vez em que não foi o totem quem emprestou prestígio ao Partido contra as Forças Armadas, mas sim o Partido quem legitimou o totem contra as Forças Armadas; não como “herói revolucionário” capaz de conduzir a mole militar à ruptura com o establishment militar e o Estado, mas como candidato, capaz de arregimentar votos da mole militar e seu entorno, a princípio contra o establishment militar e ao fim – três décadas à frente – contra a Nova República em si. Com Bolsonaro, o Partido Fardado enfim aprendeu, na saída da ditadura, após acumular três derrotas eleitorais (1945, 1950, 1955) e governar ditatorialmente como extrema-direita militar, a guerrear no campo eleitoral.

A história se repete, a primeira vez como farsa: do ponto de vista tático, o avanço de Bolsonaro na imprensa repetiu perfeitamente o roteiro que o tenente-coronel Antônio Sena Madureira inaugurara na década de 1880 durante a Questão Militar. Herói da Guerra do Paraguai, na qual foi feito prisioneiro pelas tropas de López, assim permanecendo até o fim do conflito, Sena Madureira abriu as disputas da classe militar com o Império em 1883, quando escreve e publica artigo opondo-se a projeto de lei do Visconde de Paranaguá que obrigaria os militares a contribuir com o montepio. Punido por manifestar-se na imprensa, Madureira também é alvo de solidariedade de sua classe; no ano seguinte (não no mês seguinte; nosso capitão foi mais ágil), 1884, volta a causar incidente com o Império, quando leva o jangadeiro Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, a visita à Escola de Tiro do Rio de Janeiro. Sena é punido com transferência para o Rio Grande do Sul, e nova leva de artigos em conflito com o Império e em solidariedade a Sena, assinados por militares, chega aos jornais. O ministro da Guerra, Alfredo Chaves, proíbe aos militares o uso da imprensa – e o também herói do Paraguai e futuro presidente Deodoro da Fonseca surge, defendendo Sena Madureira e escalando a crise. Um ano a frente, em 1885, um coronel membro do Partido Liberal, Augusto da Cunha Matos, abre nova polêmica com o Império, ao denunciar seu comandante, membro do Partido Conservador, como corrupto. Defendendo-se na imprensa, o coronel acaba punido com dois dias de prisão, e Sena Madureira reemerge, defendendo Cunha Matos na imprensa. Em 1886, alunos da Escola Militar da Praia Vermelha fazem uma manifestação em apoio a Deodoro da Fonseca. Em 1887, o marechal chega ao Rio junto de Sena Madureira, e ambos são ovacionados como heróis pelos cadetes. Com a oposição crescendo, D. Pedro II demite o ministro Alfredo Chaves e concede perdão aos três militares: o Partido Fardado consegue sua vitória, mas não recua. Em 12 de fevereiro de 1887, os militares fundam o Clube Militar e elegem Deodoro seu presidente. Dois anos à frente, em novembro de 1889, o Clube será importante instrumento para o golpe que instaura a República.

A história brasileira oferece muitos nomes que consolidaram-se com totens: Duque de Caxias, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca, Eurico Gaspar Dutra, Juarez Távora, Eduardo Gomes. Convém questionar se não oferece muitos outros que, embora não tenham merecido tal título, a ele candidataram-se, na medida em que seguirem tática de tensionamento com os governos e seus superiores hierárquicos pela contínua criação de polêmicas, utilizando a imprensa como suporte. É o que fez Sena Madureira, o que fez Hamilton Mourão, e o que fez – com sucesso – o jovem capitão Bolsonaro nos anos 1980, no que talvez foi a primeira vez que um totem se consolidou não a partir de seus feitos heróicos no ofício militar ou seus ombros estrelados, mas precisamente pelo contrário; por ter sido agitador contínuo do Partido Fardado; e a primeira vez em que tal consolidação não se deu a partir das fileiras das Forças Armadas, mas de fora delas, no Parlamento.

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Oliveiros previu que o partido havia morrido pela reforma militar da ditadura, que ao impor um limite à permanência no generalato, haveria acabado com o surgimento do totem. Pelo contrário, o Partido Fardado somente adaptou sua estratégia – o que, creio, já havia sido feito antes com Getúlio Vargas e Jânio Quadros –, encontrando seu totem não mais na alta respeitabilidade que as estrelas nos ombros e medalhas nos peitos garantem, mas na mera capacidade de, por outros meios, mover a “mole militar”. Que este novo totem tenha sido encontrado nos baixos escalões, em uma figura sem grandes feitos militares, a não ser o de cavar sua própria saída das fileiras do Exército, só demonstra a capacidade de adaptabilidade do partido. Mais, o Partido Fardado provou sua adaptabilidade também à Nova República, efetivamente buscando, na sua ação ilegal – porque feita a partir da posição da burocracia armada – não a ruptura absoluta, certamente, mas ainda assim o poder; ainda que obtido pela via eleitoral. 

A segunda prisão

A história se repete, a segunda vez como tragédia: Bolsonaro mais uma vez será preso. Se na primeira vez a farsa permitiu ao capitão, seguindo o roteiro de Sena Madureira, adentrar a vida institucional do País, da segunda vez a tragédia dela o retira. Mas por quanto tempo?

O homem hoje condenado a 27 anos de prisão cometeu muitos crimes. Os que levaram à sua condenação no STF na última quinta-feira (11): tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. O mais grave de todos: o de haver governado. Crimes estes todos, há de não se esquecer, atribuíveis também à redoma verde-oliva que ascendeu ao poder junto a ele; não só seus ministros-militares, alguns dos quais também punidos no Supremo, mas também os milhares de fardados que conformaram a sua burocracia no Executivo.

Oliveiros já previa que os totens eram transitórios; que tão logo cumprida sua função – mover a mole militar rumo ao poder – poderiam ser descartados. Quem permanece apesar do totem – não temporalmente, mas no poder, muitas vezes conformando novo establishment militar e por vezes ressurgindo em seu intento rupturista – é o Partido. Por quanto tempo o Partido Fardado se manterá inerte? E o descarte de Bolsonaro seria definitivo?

O que a corporação eventualmente não alcança com a tutela, o Partido Fardado busca com a ruptura; o que o Partido Fardado não conquista na ruptura, por vezes é a corporação quem busca com a tutela. O conteúdo das reivindicações é muitas vezes similar; e é idêntico, certamente, o conteúdo de ambas as formas reivindicatórias: a submissão da sociedade à direção estratégica das Forças Armadas. Após adentrar o poder em 2018, o Partido Fardado, em 2025, está adormecido – mas, em seu lugar, o establishment militar mantém o governo Lula sob tutela

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Por sua vez, Bolsonaro sabe que, excluída a possibilidade de eleger um membro de sua família, seja para prolongar sua própria vida política, seja para um dia ver-se livre da jaula, mais vale, preso, seguir pajeando uma fração do Congresso dependente de sua sombra e impedir a ascensão de um substituto.

Abrir os caminhos da presidência para outro significaria sua morte política por duas razões: primeiro, porque substituto algum buscaria, de boa vontade, mover as peças necessárias à libertação do capitão; tal seria como um cão libertar-se da coleira só para buscar a corrente – e Bolsonaro o tem claro. Segundo, porque uma vez substituído, perderia para sempre o suporte de todas as frações burguesas e do Partido Fardado, setores que, apesar de hoje ansiarem por uma alternativa ao capitão, nele apostaram suas fichas em 2018 e em 2022 – não é nada absurdo supor que buscassem ressuscitá-lo se fossem forçados a tanto; e com tais setores movendo-se, também não é nada absurdo supor que o Judiciário se visse forçado a revisar suas decisões. É evidente que a mudança do entendimento na lei reflete, ao menos parcialmente, as mudanças no equilíbrio de poder político. Os meios para uma reinterpretação futura da condenação de Bolsonaro abundam – falta a pressão necessária para que sejam abertos.

Para 2026, o candidato a substituto favorito tem nome, sobrenome e patente: o também capitão do Exército Tarcísio de Freitas, aquele que sagazmente ficou suficientemente perto do líder para aproveitar-se da sua ruína e suficientemente distante para com ela não arruinar-se. Excluída a possibilidade de Michelle ou um dos seus filhos vencerem, é fundamental a Bolsonaro garantir a derrota de Freitas caso este venha a candidatar-se. O valor do capitão Jair aumentaria para aqueles que buscarão uma derrota do petismo nas eleições futuras: as frações financeiro-rentista e o chamado agronegócio; a grande imprensa “democrática”, que hoje, na prática, volta a flertar com o bolsonarismo; uma boa parte da direita parlamentar e também (convém nunca esquecê-lo) o Partido Fardado – enfim, todos aqueles que hoje apostam no segundo capitão teriam na sua derrota o incentivo a buscar ressuscitar o primeiro.

Dado o cenário presente e futuro, a melhor aposta de Bolsonaro será lançar um familiar em 2026, preferencialmente Michelle, ou dar apoio a qualquer um que não vença, mas que também impeça a vitória de um substituto. Impedindo uma candidatura alternativa ou fraturando este campo, contando, enfim, como fator de derrota da extrema-direita, o futuro detento poderia impor as suas condições não só a seus aliados, mas também aos poderosos setores que buscam substituí-lo por alguém mais palatável.

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Convém recordar não só o apoio das elites ao capitão em 2018 – quando só podiam consolar-se eticamente dizendo que “não esperavam” que Bolsonaro fosse fazer tudo aquilo que sempre prometeu fazer –, e de setores relevantes delas em 2022 – quando tinham mais de 700 mil mortos na Covid-19 assombrando aquela sua primeira escolha ética –, mas também a pressão exercida contra o STF em 2018 pelo então comandante do Exército, general Villas Bôas, pela prisão de Lula, para constatar que é possível a Bolsonaro não só sobreviver, mas reabilitar-se, na medida em que atue como chantagista e sequestrador do campo de que ele próprio foi redentor e reorganizador. Como tragédia ou como farsa, afinal, o capitão já fez a história repetir-se antes.

​​(*) Pedro Marin é fundador e editor-chefe da Revista Opera. É editor de Opinião de Opera Mundi, autor de “Aproximações sucessivas – O Partido Fardado nos governos Bolsonaro e Lula III”, “Golpe é Guerra – Teses para enterrar 2016”, e co-autor de “Carta no Coturno – a volta do Partido Fardado no Brasil”.

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