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A guerra implacável contra o Iraque

Ataques dos EUA têm devastado as Forças de Mobilização Popular do Iraque. Mas, nas vielas de Bagdá, as milícias estão à espera

Jasim Al-Azzawi
Forças de Mobilização Popular levantam sua bandeira ao lado da bandeira iraquiana após derrotarem o Estado Islâmico em Fallujah, em junho de 2016. (Foto: Mahmoud Hosseini / TASNIM / Wikimedia Commons)
Forças de Mobilização Popular levantam sua bandeira ao lado da bandeira iraquiana após derrotarem o Estado Islâmico em Fallujah, em junho de 2016. (Foto: Mahmoud Hosseini / TASNIM / Wikimedia Commons)

Há meses que uma guerra se desenrola por todo o Iraque, sem o alarde que outrora acompanhava as campanhas militares americanas na região. Não há jornalistas incorporados fotografando comboios atravessando o deserto, nem discursos presidenciais em horário nobre. Na verdade, aviões de guerra e drones americanos têm desmantelado sistematicamente a infraestrutura das Forças de Mobilização Popular (FMP). As forças americanas realizaram repetidos ataques aéreos contra quartéis-generais das FMP em Bagdá, Mossul e na província de Anbar, assassinando comandantes de alto escalão e reduzindo complexos fortificados a escombros. Os alvos incluíram redes logísticas, depósitos de armas e centros de comando e controle que a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã levou quase uma década para construir. O general Michael Kurilla, antecessor do almirante Cooper no CENTCOM, vinha alertando há anos que Teerã estava sistematicamente “militarizando” esses grupos para que servissem como um elemento de dissuasão avançado contra os Estados Unidos e Israel.

Não são mais proxies

O que os planejadores americanos talvez não tenham previsto é que as facções das FMP passaram esses mesmos anos evoluindo. Elas não são mais um bloco monolítico sob o comando de Teerã. Os comandantes das FMP, falando por meio de intermediários e em raras entrevistas oficiais a veículos de comunicação em língua árabe, são enfáticos nesse ponto. “Somos iraquianos antes de tudo”, disse uma figura sênior à Al Jazeera. “Os americanos acham que podem nos apagar, mas cada ataque apenas aprofunda nossa determinação.” É o tipo de desafio que os comandantes americanos já ouviram antes no Iraque – e que raramente se revelou vazio.

 Leia também – “EUA e Israel cruzaram todas as linhas”: milícia xiita no Iraque fala em “ponto sem volta” após ataque ao Irã 

Michael Knights, pesquisador sênior do Washington Institute for Near East Policy que passou duas décadas acompanhando as FMP, argumenta que os ataques americanos estão produzindo uma consequência indesejada. “As FMP estão se fragmentando sob pressão”, disse ele. “Algumas facções permanecem leais a Teerã, mas outras estão se reorientando como atores nacionalistas. Isso as torna mais difíceis de eliminar – elas estão enraizadas no tecido político e social do Iraque.” Essa fragmentação, paradoxalmente, pode estar agravando o problema. Uma FMP unificada e subordinada ao Irã é, pelo menos, uma variável conhecida. Uma constelação de milícias nacionalistas iraquianas semiautônomas é algo muito mais difícil de deter ou com o qual se pode negociar.

O dilema iraquiano

Bagdá observa tudo isso com um certo alarmismo mal disfarçado. O governo do primeiro-ministro Mohammed Shia’ al-Sudani está preso em um dilema agonizante: depende demais das garantias de segurança e da estrutura financeira de Washington para condenar abertamente os ataques, mas está muito envolvido com as facções políticas das FMP – que ocupam assentos no parlamento e dirigem ministérios do governo – para endossá-los. Parlamentares iraquianos de blocos alinhados às FMP denunciaram as operações como uma violação da soberania iraquiana.

Hayder al-Khoei, analista iraquiano da University College London que assessora governos ocidentais sobre a política para o Iraque, descreveu o dilema com precisão:

“Cada ataque americano cria uma crise política interna para o governo iraquiano. Al-Sudani está sendo chamado a escolher entre seus patronos internacionais e sua sobrevivência política interna. Essa não é uma posição sustentável.”

O ex-embaixador Ryan Crocker, que negociou o Acordo sobre o Estatuto das Forças de 2008 com Bagdá, há muito argumenta que Washington tende a subestimar a fragilidade de seu relacionamento com o Estado iraquiano – e a superestimar a quantidade de pressão que esse Estado pode absorver sem se fragmentar.

O abandono de Teerã

Karim Sadjadpour, pesquisador sênior da Fundação Carnegie para a Paz Internacional que estuda a estratégia iraniana há duas décadas, descreve a situação de Teerã da seguinte forma: “O Irã criou o Frankenstein. As FMP foram concebidas como um instrumento de projeção do poder iraniano, mas desenvolveu seus próprios interesses, economia e identidade política. O Irã ainda pode influenciar esses grupos, mas não consegue mais controlá-los de forma confiável.”

Esse enfraquecimento do controle tem implicações estratégicas: um Irã incapaz de conter seus representantes é também um Irã menos capaz de oferecer a Washington uma saída viável.

Analistas do Institute for the Study of War vêm acompanhando o que descrevem como uma capacidade “regenerativa” dentro do ecossistema das FMP.

“Os EUA estão travando uma guerra de atrito contra redes que se regeneram mais rápido do que podem ser destruídas”, observou um pesquisador sênior do instituto. É uma avaliação sombria, mas nada nova.

Os limites do domínio

A questão mais profunda que a Operação Epic Fury levanta não é se os Estados Unidos podem infligir punição – claramente, podem –, mas se a punição por si só pode remodelar o panorama de segurança do Iraque de forma duradoura. O general aposentado Joseph Votel, que comandou o CENTCOM de 2016 a 2019 e supervisionou a campanha final contra o Estado Islâmico, alertou contra o que chama de “a ilusão da ação decisiva”. “Os ataques aéreos são uma ferramenta, não uma estratégia”, disse ele em um fórum recente. “Todo comandante sabe que não se vence no Iraque a partir do espaço aéreo.”

Colin Clarke, pesquisador sênior do Soufan Center que estuda redes militantes no Oriente Médio, argumenta que a campanha atual pode estar criando as condições para um ciclo de escalada de longo prazo.

“Quando você mata um comandante, não elimina a organização – você desencadeia uma crise de sucessão que muitas vezes gera alguém mais radical e mais determinado a provar seu valor”, disse ele. A história das campanhas americanas de ataques direcionados no Iraque confirma essa observação.

Os indicadores de sucesso do almirante Cooper – aeronaves em solo, navios de guerra ociosos, taxas de lançamento de mísseis reduzidas – medem as capacidades convencionais do Irã. Eles não medem a temperatura nas ruas de Karbala, nem o cálculo de um comandante de batalhão das FMP em Anbar que acaba de ver o funeral de seu superior atrair dez mil enlutados. A guerra silenciosa no Iraque tem menos a ver com derrotar o Irã de forma definitiva do que com remodelar um cenário de segurança que três governos americanos tentaram, sem sucesso, estabilizar. À medida que os ataques continuam e os funerais se multiplicam, o verdadeiro teste pode não estar nas listas de alvos revisadas todas as manhãs em Tampa, mas nos becos de Bagdá, onde os comandantes das FMP se misturam à vida civil – esperando pelo próximo ataque e pela próxima chance de retaliar.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Middle East Monitor

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