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Como os EUA derrubam governos democraticamente eleitos

Entre 1945 e 1989, os EUA promoveram 64 operações subversivas para mudar governos em outros países com o objetivo de assegurar seus interesses

Frei Betto
(Foto: US Embassy / Flickr)
(Foto: US Embassy / Flickr)

Em agosto de 1953, o mundo testemunhou um evento que marcou profundamente as relações internacionais e a política do Oriente Médio por décadas. O governo democraticamente eleito do Irã, liderado pelo primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, foi derrubado em um golpe orquestrado pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA em parceria com o serviço de inteligência britânico (MI6). A operação, codificada como “Ajax”, não foi um caso isolado; tornou-se um modelo de intervenção que se repetiu em outras nações ricas em recursos naturais.

Dois anos antes, em 1951, Mohammad Mossadegh assumira como primeiro-ministro do Irã após intensa mobilização popular e aprovação do parlamento iraniano. Uma de suas primeiras medidas foi a nacionalização da indústria petrolífera, até então controlada pela Anglo-Iranian Oil Company (AIOC), empresa britânica que há décadas extraía a riqueza do país com benefícios mínimos para a população local.

Para Mossadegh, a nacionalização representava o direito fundamental de um país soberano sobre seus recursos naturais. Ao apresentar o caso à Corte Internacional de Justiça em 1952, ele declarou: “A decisão de nacionalizar a indústria do petróleo é o resultado da vontade política de uma nação independente e livre”.

A resposta britânica foi imediata e agressiva. A Inglaterra impôs um bloqueio econômico ao Irã, liderou um boicote global ao petróleo iraniano e intensificou os esforços para minar o governo de Mossadegh. Paralelamente, os britânicos pressionaram Washington a intervir, alertando sobre o risco de o Irã cair na órbita da União Soviética durante o auge da Guerra Fria.

Inicialmente, o presidente Harry Truman resistiu às pressões para uma intervenção direta.  Mas a eleição de Dwight D. Eisenhower, em 1953, marcou uma mudança radical na postura estadunidense. Seus conselheiros, notadamente o secretário de Estado, John Foster Dulles, e o diretor da CIA, Allen Dulles, adotaram uma abordagem mais agressiva na Guerra Fria e viam com desconfiança o nacionalismo de Mossadegh.

Em junho de 1953, Eisenhower enviou carta a Mossadegh em que deixou claro que ajuda econômica ao Irã dificilmente seria concedida enquanto o país mantivesse controle sobre seu petróleo. Em resposta, Mossadegh alertou que a falta de apoio poderia ter consequências catastróficas, aviso que se revelaria profético.

A operação para derrubar Mossadegh foi liderada por Kermit Roosevelt Jr., neto do presidente Theodore Roosevelt e um dos agentes mais experientes da CIA no Oriente Médio. Os agentes ianques e britânicos empregaram um amplo espectro de táticas de desestabilização: 1) propaganda intensa contra Mossadegh, retratando-o como simpatizante comunista; 2) suborno de políticos, oficiais militares, líderes religiosos e jornalistas; 3) contratação de militantes para organizar protestos e tumultos nas ruas de Teerã; 4) coordenação com oficiais militares leais ao xá Mohammad Reza Pahlavi.

O golpe triunfou em 19 de agosto de 1953. Tanques leais ao xá cercaram a residência de Mossadegh, que foi preso, julgado e colocado em prisão domiciliar, onde permaneceu até sua morte, em 1967.

Embora os documentos oficiais citassem o temor do comunismo como justificativa, historiadores e analistas apontam o petróleo como o verdadeiro motor da intervenção. Ervand Abrahamian, renomado historiador do Irã, afirma que “a principal preocupação não era tanto o comunismo, mas as perigosas repercussões que a nacionalização do petróleo poderia ter em todo o mundo”. O “mau exemplo” precisava ser erradicado…

Menos de um ano após o golpe, o xá, agora firmemente no poder, assinou um novo acordo petrolífero que dividia os lucros do petróleo iraniano entre um consórcio de empresas ocidentais. Empresas americanas, incluindo antecessoras da Exxon, Mobil, Texaco e Chevron, se apoderaram de 40% do petróleo iraniano, enquanto os britânicos (incluindo a Shell) ficaram com outros 40%.

Para estabilizar o novo governo do general Fazlollah Zahedi, a CIA disponibilizou secretamente 5 milhões de dólares nos primeiros dois dias de seu mandato. A agência também treinou e equipou a Savak, temida polícia secreta iraniana que se tornou símbolo da repressão do regime do xá.

O golpe de 1953 destruiu a incipiente democracia iraniana e instaurou 26 anos de governo autocrático do xá Reza Pahlavi. Seu regime foi marcado por repressão sistemática, tortura e execuções de dissidentes, crimes frequentemente cometidos com o apoio técnico e logístico dos EUA.

Em 1979, a Revolução Islâmica varreu o Irã, derrubou o xá e estabeleceu a República Islâmica. Em 4 de novembro daquele ano, a embaixada estadunidense em Teerã foi tomada por estudantes revolucionários, e 52 diplomatas americanos foram mantidos como reféns por 444 dias. Os revolucionários repetidamente citavam o golpe de 1953 como a origem da desconfiança em relação aos EUA.

Décadas se passaram, mas o trauma persiste. Em 2009, Obama reconheceu publicamente a participação dos EUA no golpe, ao afirmar que criara “anos de desconfiança” entre as duas nações. Porém, nenhum ocupante da Casa Branca jamais emitiu um pedido formal de desculpas.

Apenas um ano após o golpe no Irã, a CIA orquestrou na Guatemala a derrubada do presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz. Seu crime, segundo suas próprias palavras, foi ter implementado uma reforma agrária que ameaçou os interesses da United Fruit Company, poderosa corporação ianque com laços estreitos com a administração Eisenhower. O golpe mergulhou a Guatemala em décadas de guerra civil que deixaram 200 mil mortos e desaparecidos.

Em 1973, no Chile, o presidente socialista Salvador Allende, eleito democraticamente, foi derrubado pelo general Augusto Pinochet no golpe patrocinado pelos EUA. Allende havia prometido nacionalizar a indústria de cobre, dominada por corporações americanas como Anaconda e Kennecott. Nixon ordenou que a CIA impedisse a posse de Allende e em seguida determinou que se fizesse “a economia gritar”. O que agora se repete em Cuba.

Patrice Lumumba, primeiro primeiro-ministro democraticamente eleito do Congo independente, em 1960, foi assassinado com o envolvimento da CIA. O governo americano temia que Lumumba desse à União Soviética acesso às vastas riquezas minerais do país, incluindo urânio, crucial para a indústria nuclear.

Entre 1945 e 1989, os EUA promoveram 64 operações subversivas para mudar governos em outros países, inclusive no Brasil (1964), a maioria liderada pela CIA, com o objetivo de assegurar seus interesses.

O historiador Stephen Kinzer observa que o sucesso da Operação Ajax, no Irã , teve um efeito profundo na política externa americana. O que frequentemente se segue a essas intervenções, no entanto, é um padrão de instabilidade, sofrimento humano e ressentimento duradouro contra os EUA. No Irã, o golpe de 1953 não apenas destruiu a democracia, mas também criou as condições que levaram à Revolução de 1979 a décadas de hostilidade mútua e, agora, à guerra movida por EUA e Israel contra o Irã.

Como declarou o próprio Mossadegh em seu julgamento: “Sim, meu pecado… foi ter nacionalizado a indústria petrolífera do Irã e descartado o sistema de exploração política e econômica do maior império do mundo”. Suas palavras ecoam através da história como um lembrete do alto preço pago quando os recursos de uma nação se tornam objeto de cobiça estrangeira.

Agora, a ação terrorista da Casa Branca se repete na Venezuela: sequestra-se um presidente e sua esposa; e declara-se descaradamente que o objetivo não é restabelecer a democracia no país, mas se apropriar das maiores reservas de petróleo do mundo. E o que é trágico – os países ricos, incluindo a Rússia e a China – se omitem em clamoroso silêncio.

Cuba não tem nenhuma riqueza natural que, aos olhos do império, justifique uma agressão. No entanto, possui o simbolismo moral de ser a única nação do hemisfério ocidental independente e soberana. E comete o grave “pecado” de querer uma sociedade sem opressores e oprimidos, o que soa inaceitável para quem acumula riquezas sobre o sofrimento alheio.

(*) Frei Betto é escritor, autor do romance sobre massacre de indígenas “Tom Vermelho do Verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

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