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Na França, autoimolação de universitário abre debate sobre precariedade estudantil

Após universitário tocar fogo em si mesmo, situação de precariedade entre estudantes fomenta debates e manifestações na França.

por João Melato | Revista Opera
(Foto: Jeanne Menjoulet)

Em uma sexta-feira, dia 08 de novembro, o estudante universitário Anas K., de 22 anos, ateou fogo contra seu próprio corpo, em uma medida desesperada voltada a chamar atenção à situação de miséria e de precariedade que vivem os universitários na França. O ato aconteceu às 15h, em frente ao restaurante universitário do CROUS (Centro Regional de Obras Universitárias e Escolares) de Lyon. Alertada por SMS, sua companheira mobilizou as forças do socorro, e Anas foi encaminhado ao hospital, onde ainda resiste, mas está entre a vida e a morte. 

Cursando há quatro anos Ciência Política, Anas recebia uma bolsa de 450 euros ao mês, até reprovar pela segunda vez o segundo ano da licenciatura. Então, conforme as regras do estabelecimento universitário, perdeu tanto sua bolsa quanto o direito ao alojamento. Tentava contornar a situação hospedando-se ora na casa dos pais, ora na casa de sua companheira, e segundo aqueles mais próximos dele, não demonstrava sinais de depressão crônica, nem de desespero social: ao contrário, foi descrito à reitora da universidade como um jovem extremamente participativo nas aulas e dedicado, ao mesmo tempo que calmo e construtivo, ao debater com opiniões contrárias, ou seja, que não se encaixava no estereótipo do “sujeito deprimido”.

Militante de uma federação de sindicatos estudantis conhecida como Estudantes Solidári(o/a)s, Anas engajou-se em todas as lutas recentes da organização, e na semana anterior à sua tentativa de suicídio compareceu a reuniões para organizar as atividades de protesto do dia 05 de dezembro, que se voltarão contra a reforma da previdência de Emmanuel Macron. Ele deixou em sua conta pessoal no Facebook uma mensagem explicando suas razões: já lhe era difícil viver com a bolsa de 450 euros, e agora, sem ela, havia tornado-se ainda mais complicado. Ele havia tido a sorte de ter ao seu redor “pessoas incríveis, minha família, meu sindicato”, mas questiona: “devemos continuar a sobreviver da maneira que fazemos hoje?”. 

A reforma da previdência também ocupava suas angústias – “depois dos estudos, quantos anos teremos que trabalhar para uma aposentadoria digna? Será possível cotizar com o desemprego em massa?”. Ele retomava uma reivindicação de seu sindicato: os salários estudantis, e de maneira geral os salários pela vida, “para que não a percamos tentando ganhá-la”. E também propunha a redução da jornada de trabalho para 32 horas semanais, “para que não hajam mais ameaças de desemprego, que todo ano conduz centenas de pessoas à minha situação, pessoas que morrem no silêncio mais profundo.”

Finalizava sua nota de suicídio acusando Macron, Hollande, Sarkozy e a União Europeia de seu assassinato, e pedindo desculpas aos seus camaradas pela situação em que os colocava, mas instigando-os a continuar a luta contra as condições atuais. E exclamava: “Viva o socialismo, viva a autogestão, viva a seguridade social!”. 

Carta de Annas K. escrita antes do estudante se autoimolar.

A precariedade assombra os estudantes franceses 

Definida como a situação onde uma pessoa corre o risco de cair na miséria e na exclusão, e caracterizada pela ausência de seguranças sociais fundamentais que permitam-na exercer seus direitos e deveres, a precariedade que levou Anas à sua medida extrema é uma chaga na sociedade francesa, e especialmente entre os estudantes pós-liceu (aqui compreendidos os universitários, os membros de cursos de preparação para atividades profissionais e culturais e os membros de cursos de preparação para a universidade).

Segundo dados do Insee (Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos) de 2016, 20,8% dos estudantes da França vivem abaixo da linha da pobreza. A pesquisa do Observatório da Vida Estudantil do mesmo ano aponta que apenas 45% dos estudantes considera ter dinheiro para arcar com seus gastos fundamentais, ao passo que 22,7% declararam ter enfrentado problemas financeiros graves durante o ano. A mesma pesquisa aponta que 46% dos estudantes franceses trabalha, e desses, 88,2% estima que essa atividade é indispensável à sua sobrevivência, 17,7% diz que ela tem um impacto negativo nos estudos e 33,5% entende-a como fonte de estresse e de cansaço. No ano de 2016, entre os que responderam a pesquisa, 13,5% deixaram de ver um médico por razões financeiras, número que aumenta para 17% entre os estudantes de origem popular. 

Durante as manifestações contra a precariedade após a ação de Anas, alguns estudantes foram ouvidos pela France TV Info. Entre eles, uma outra militante da Solidári(o/a)s que faz 40 horas semanais de trabalho em dois empregos (sem contar o tempo de estudos), e mesmo assim precisa economizar em alimentação e lazer para poder comprar os livros de seu doutorado em História da Arte, e que desenvolveu fadiga e depressão crônicas devido ao seu ritmo de vida na universidade. Um estudante de sociologia de 19 anos que, apesar de receber bolsa e complementar a renda trabalhando, separa apenas um euro por dia para sua alimentação e uma ex-estudante de sociologia, de 22 anos, que está endividada com sua antiga universidade: beneficiária de bolsa, ela era obrigada a ir às aulas, mas os bicos que fazia para complementar a renda a forçavam a perder algumas aulas – como consequência, é exigido que ela devolva à universidade o dinheiro recebido. 

O sindicato estudantil

Adepta do sindicalismo revolucionário – uma corrente proletária radical, de longa tradição entre os trabalhadores franceses, que defende a união de todos os trabalhadores em uma federação de sindicatos autônomos – a Solidári(o/a)s é membra de uma federação maior, a União sindical Solidários (SUD), que congrega sindicatos de todas as categorias da classe trabalhadora. A Estudantes Solidári(o/a)s entende os estudantes como “trabalhadores em período de formação”, e classificam atividades estudantis como pesquisa, estágio, produção científica e literária etc. como atividades produtivas de trabalho que devem ser reconhecidas enquanto tal – tanto legalmente quanto em termos da organização de sindicatos de estudantes. 

Na semana seguinte, as autoridades universitárias francesas tiveram que lidar com a explosão do sindicalismo estudantil. Os edifícios do CROUS em Lyon foram fechados por bloqueios tanto na terça quanto na quarta, e pixações de “O CROUS queima, Vidal no meio” foram vistas. Os manifestantes demandam uma abertura ao diálogo sobre a precariedade por parte do governo, que não ocorreu. A ministra da educação superior, Frédérique Vidal, condenou as depredações, a violência e as “ameaças de morte contra autoridades do CROUS”. 

Na quinta-feira, os estudantes do CROUS de Lyon realizaram uma assembleia, e na sexta-feira coletivamente pularam as catracas do restaurante universitário, fazendo com que o almoço de todos fosse gratuito. 

Mas a indignação superou em muito os limites dos sindicalistas da Solidári(o/a)s e da cidade de Lyon. Na noite do 12 de novembro, a grade do Ministério da Educação Superior foi forçada, e, segundo um funcionário do local, estudantes encapuzados levaram embora várias latas de lixo e até mesmo motocicletas. Em Saint-Étienne, cidade-natal de Anas, cerca de cem pessoas fizeram uma manifestação em frente à Universidade Jean-Monnet. Seu primo, Medhi Chaoui, estava presente. Quando marcharam em direção à prefeitura e atrapalharam o trânsito, os manifestantes foram dispersados pela polícia com gás lacrimogêneo, e duas pessoas foram detidas. 

Na universidade de Lile, o lançamento de um livro de François Hollande teve que ser cancelado quando cerca de quatrocentos estudantes invadiram o auditório para protestar contra a precariedade e manifestar seu apoio e solidariedade a Anas. Seus cartazes diziam que “a precariedade mata, a solidariedade faz viver!”. Aos gritos de “Lyon, Lyon, Lyon! Nem esquecer nem perdoar!” e “Hollande assassino!”, os estudantes rasgaram os exemplares do livro e os atiraram por toda a sala. Houve forte discussão com os estudantes que haviam ido assistir à palestra do “socialista”, que respondeu em uma nota, lamentando a violência e dizendo que sempre colocou a juventude e a justiça social à frente de seu governo.

Os políticos lavam as mãos

Não é exatamente verdade o que disse Hollande. Se do ponto de vista discursivo e ideológico o político do Partido Socialista não atacou abertamente as bolsas estudantis (como fez seu antecessor, Nicolas Sarkozy), suas promessas em relação a elas ficaram apenas no discurso. De resto, suas palavras sobre ter colocado a “justiça social” à frente do governo são risíveis, uma vez que entrou para a história como o presidente que implementou a reforma trabalhista mais regressiva que a França vira até então – e a garantiu através de um estado de sítio, depois institucionalizado de forma permanente por Macron [1].

Diversos membros da administração macronista têm tentado minimizar ou mesmo negar abertamente o caráter político da ação de Anas. Gabriel Attal, ministro da Juventude e da Educação, declarou que se suicidar nunca é um ato político. Foi seguido pela Secretária de Estado e porta-voz do governo, Sibeth Ndyane, que coloca em dúvida o caráter político anunciado de suas declarações e ressalta a necessidade de analisar o “contexto psicológico”. 

Para além de extremamente frágeis do ponto de vista teórico, as declarações revelam a indisposição dos membros e representantes da classe dominante francesa em afastar-se do programa de austeridade anunciado há tempos, e que tem deixado milhares de jovens trabalhadores em situação de precariedade. Em 2006 o então presidente Jacques Chirac promulgou uma lei permitindo que jovens trabalhadores fossem demitidos sem justa causa durante os dois primeiros anos de trabalho. Emmanuel Macron também deu sua contribuição a essa situação, diminuindo os recursos destinados à pesquisa e aumentando o custo de vida estudantil, particularmente o custo de manutenção de alojamentos

Já há pelo menos um ano, não só Paris, como toda a França queima. As chamas que o jovem militante revolucionário lançou contra si mesmo são as mesmas que consumiram a Catedral de Notre-Dame e tantos veículos, durante os as manifestações dos “Coletes Amarelos”, no país onde nasceram as doutrinas do socialismo. Não parece haver resolução para o agudo conflito de classes francês que não envolva a destruição política de uma das partes em luta. Falar de precariedade estudantil, de reformas regressivas da previdência social e das graves consequências psicossociais que essas acarretam é uma tema sensível no Brasil: aqui também temos nossos Sarkozy, nossos Hollande e nossos Macron, com contas a acertar. 

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Notas:

[1] – Não é exagero afirmar que a República da França é hoje um Estado policial. As arbitrariedades jurídicas e a violência policial utilizadas contra os manifestantes dos Coletes Amarelos o testemunham com ênfase suficiente.

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