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Palestina: contra o solucionismo

Há uma projeção na busca por "soluções" rápidas para a Palestina que sejam menos incômodas para os ocidentais do que uma luta anticolonial prolongada e armada

Ed McNally
Bandeiras palestinas no acampamento pró-Palestina na Universidade de Columbia, em Nova York. (Foto: Pamela Drew / Flickr)

“Está ficando cada vez mais nítido”, declarou Anthony Blinken em uma viagem recente a Doha, ao falar de um “caminho prático, com prazo determinado e irreversível para um Estado palestino vivendo em paz lado a lado com Israel”. Os estados-clientes árabes dos Estados Unidos também têm invocado o paradigma de dois Estados, com os sauditas e os cataris enfatizando a necessidade de um “acordo abrangente”. No Reino Unido, David Cameron declarou seu firme apoio à formação de um Estado palestino, enquanto em Bruxelas Josep Borrell insistiu que essa é “a única maneira de estabelecer a paz”. Essas declarações podem ser vistas como uma tentativa frenética de contenção imperial. Se os palestinos não puderem ser totalmente ignorados, como na estrutura dos Acordos de Abraão, é melhor pressionar por um quasi-“Estado” palestino desmilitarizado e fragmentado para que a normalização israelense possa prosseguir em ritmo acelerado. Biden, pessoalmente e politicamente a alguns passos do fim do túnel, está desesperado para implementar a agenda para o Oriente Médio do ex-conselheiro da Casa Branca e genro de Donald Trump, Jared Kushner, após seu fracasso em 7 de outubro.

Como devemos reagir ao retorno inglório e à persistência cadavérica do bi-estatismo? O reflexo mais comum é descartá-lo como uma perigosa “fantasia” imperial, baseada na formalização diplomática do regime de apartheid, e defender um único Estado como a única alternativa realista. Essa última posição foi apresentada formalmente pela primeira vez pela Frente Democrática para a Libertação da Palestina após o Naksa. Em seguida, foi adotada por Arafat e Abu Iyad como a linha oficial da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Na esteira de Oslo, os intelectuais palestinos – Edward Said, Ghada Karmi, Lama Abu-Odeh, Joseph Massad, Ali Abunimah, George Bisharat e Yousef Munayyer, entre outros – retornaram a essa abordagem. Escrevendo em 2002, Karmi observou que, embora a demanda por uma democracia secular “possa parecer utópica”, ela não é mais irrealista do que “o empreendimento sionista de construir um Estado judeu no país de outra pessoa”. No ano passado, ela publicou um livro sobre a “inevitabilidade” de um estado único e democrático.

O reconhecimento de que a solução de dois Estados está descartada é cada vez mais comum em todo o espectro político. Um ensaio publicado na última edição da Foreign Affairs argumenta que “o resultado de falar novamente sobre dois Estados é mascarar a realidade de um único Estado que quase certamente se tornará ainda mais consolidada no pós-guerra”. De modo geral, essa é uma mudança bem-vinda, que reflete a disseminação da solidariedade com a Palestina e o apoio à democracia multiétnica em detrimento do supremacismo sionista. No entanto, há bons motivos para a esquerda ocidental agir com cautela. Dadas as atuais coordenadas regionais, o estado único ainda é a opção mais realista e baseada em princípios? A doença irremediável da sociedade colonial, mais clara e terrível do que nunca, pode ser uma barreira para “um Estado” tanto quanto a geografia colonial arraigada dos Territórios Ocupados é para os “dois Estados”. Se é impossível imaginar a retirada dos colonos da Cisjordânia, certamente é ainda mais difícil prever que os israelenses aceitem o fim do etnonacionalismo e coabitem pacificamente com os palestinos.

O povo palestino – em Gaza, na Cisjordânia, na Palestina histórica e em al-Shatat – inevitavelmente determinará o telos (sentido) de sua luta. O solucionismo corre o risco de revogar esse princípio básico e até mesmo de fazer julgamentos estratégicos e éticos importantes em nome dos palestinos. Enquanto os modelos de “dois Estados” tendem a negar aos palestinos o direito de retorno, os discursos de “um Estado” podem significar dizer a eles que renunciem à luta pela descolonização, façam amizade com seus opressores e permitam que todos os colonos fiquem. Essas decisões poderiam, em algum momento, ser tomadas pelos próprios palestinos – daí a importância de democratizar suas estruturas políticas nacionais para permitir uma deliberação popular genuína – mas não podem ser pressupostas. Nesse sentido, a valorização das formas políticas de solução completa pode envolver a perda de visão dos primeiros princípios anticoloniais. Ela também pode negligenciar as condições objetivas necessárias para estabelecer uma paz duradoura na região. Pois nenhuma “solução” que não consiga obter o apoio em massa dos palestinos será duradoura, e somente um desfecho que defenda seus direitos inalienáveis pode ter tal apoio democrático.

É com base nisso que organizações como a Palestine Solidarity Campaign da Grã-Bretanha há muito tempo se recusam a assumir uma posição dentro das restrições dos debates solucionistas: um Estado, dois Estados, nenhum Estado. Para elas, o objetivo principal é criar pressão política para corrigir os crimes que fundamentaram a fundação de Israel: a negação do direito dos palestinos à autodeterminação e o retorno dos refugiados. A luta contra essas brutalidades deve preceder o desenvolvimento de projetos políticos para a região; de fato, o curso da primeira invariavelmente determinará a forma da segunda. Como diz o acadêmico palestino Karma Nabulsi: “Sou muito secular em relação à solução que deve ser encontrada. Algumas pessoas estão muito interessadas em dois Estados […] Há aqueles que defendem um Estado binacional. Eu diria que é muito mais simples do que isso. Permitir que a injustiça seja corrigida […] Quando as pessoas puderem voltar para suas casas, deixe que essas pessoas decidam democraticamente, as pessoas que vivem lá, que tipo de estrutura elas querem”.

Essa perspectiva é particularmente relevante para a realidade após o 7 de outubro. Dada a força histórica e a legitimidade popular da resistência armada palestina, não se pode presumir que o estabelecimento de um Estado democrático nas próximas três décadas seja mais plausível do que a libertação de algumas terras palestinas da ocupação colonial. Em 1974, o Programa Político da OLP declarou que a organzação “empregaria todos os meios […] para libertar o território palestino e estabelecer a autoridade nacional combatente independente para o povo em cada parte do território palestino que fosse libertada”. Essa visão, de afirmar o domínio palestino sobre porções de terra liberada, parece agora notavelmente contemporânea. Como demonstrou Tareq Baconi, a concepção estratégica dos fundadores do Hamas não era diferente, pois visava garantir uma “retirada completa da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e de Jerusalém sem desistir de 80% da Palestina”. Abdel Aziz al-Rantisi considerou o sucesso do Hezbollah em forçar os israelenses a saírem do sul do Líbano como um modelo de como essa abordagem poderia funcionar.

Essa trajetória, por mais improvável que seja, pode agora ser mais provável do que a milagrosa desradicalização da sociedade israelense. É claro que as possibilidades continuam assustadoras, principalmente por causa do triunfo das forças contrarrevolucionárias em todo o mundo árabe na última década. Talvez o fator mais consequente e desanimador aqui seja a destruição da sociedade civil radicalizada no Egito sob o governo de ferro de El-Sisi – que, até que seja derrubado, pode muito bem inviabilizar a justiça para os palestinos. No entanto, o quadro é complicado pela diminuição gradual do domínio norte-americano e pela durabilidade impressionante do “eixo de resistência”. Num terreno tão sobredeterminado, não há razão para pensar que a luta palestina se conformará em teleologias ou tipos ideais. Tanto o bi-estatismo imperial quanto as visões mais honrosas da democracia secular anseiam por soluções rápidas: o primeiro espera impor “ordem”, o segundo, acabar com o sofrimento insuportável em Gaza e na Cisjordânia. Mas é vital observar que a maioria das concepções palestinas em relação à luta são temporalmente indeterminadas. Esse é um projeto de libertação nacional que aprendeu a desconfiar de falsas promessas de salvação iminente. Portanto, podemos nos perguntar se não há um elemento de projeção na busca por “soluções” rápidas que sejam mais facilmente assimiláveis e menos incômodas para os ocidentais do que uma luta anticolonial prolongada e armada.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Sidecar O Sidecar é o blog da revista New Left Review, fundado em 2020.

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