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Do festejo à espera: as horas após a vitória de Maduro na Venezuela

Desde as 21h já pairava no ar a vitória de Maduro e a derrota da oposição de direita, cuja rejeição dos resultados não surpreendeu ninguém

Zuriñe Rodriguez Lara
Caracas/Venezuela – 28/07/2024 – Presidente da Venezuela Nícolas Maduro votando nas Eleições mais disputadas da Venezuela. (Foto: RS via Fotos Públicas)

Natalia Lopez preparou café, quatro garrafas térmicas no total, e as leva até a porta de casa com a ajuda de seu vizinho. Elas moram muito perto do Palácio de Miraflores, a residência do presidente venezuelano, e “esta noite vai ser muito longa”, dizem elas. Eles querem que todos que forem ao local tomem uma bebida quente porque “a noite em Caracas é fria”, acrescentam. Seus filhos e várias de suas netas estão lá embaixo há algumas horas. Todos são chavistas e já estão comemorando a vitória de Nicolás Maduro, vestidos com camisetas vermelhas e bandeiras venezuelanas. 

São apenas nove horas da noite, mas ninguém questiona o fato de o atual presidente ter renovado seu mandato. Há poucos minutos, Jorge Rodríguez, chefe do comando da campanha de Nicolás Maduro, apareceu diante da multidão e, sorrindo, expressou sua gratidão pelo comparecimento. “Ainda não podemos dar resultados, mas vocês podem ver isso em nossos rostos”, disse ele. Naquele momento, a alegria explodiu na casa de Ignacio Hernández, um trabalhador da PDVSA, a empresa petrolífera da Venezuela. Ele abraçou seus parentes e os organizou para ir ao Palácio Miraflores assim que ouviu a frase de Jorge Rodríguez: “Nós os chamamos para ir ao lugar que vocês já conhecem”. 

Hernández tem o sangue quente, “como um bom caribenho”, e é reflexivo e crítico, “como um bom venezuelano”, descreve ele. É por isso que ele deixa claro que a noite é de comemoração para os chavistas, mas que “a vitória custou muito caro porque as sanções estão nos sufocando e a intoxicação da mídia procura nos desacreditar”. Ele não gosta da interferência de outros países nos “assuntos venezuelanos” e pede que eles “deixem o povo decidir”. No entanto, ele reconhece que há uma oposição que também é muito forte e que com ela “o diálogo é necessário porque a Venezuela merece paz”. 

Em outras partes do país, como na cidade de Barcelona, os partidários de Edmundo González, o candidato da oposição, também estão nas ruas, mais especificamente na porta de algumas seções eleitorais, onde Maria Corina Machado, a figura mais midiática do antichavismo, os convocou. Eles estão exigindo que os relatórios das seções eleitorais sejam entregues às testemunhas e estão começando a falar de fraude eleitoral. O sistema eleitoral venezuelano estabelece que as atas devem ser entregues às testemunhas e aos três partidos com mais votos em cada mesa, uma vez que a contagem digital e manual tenha sido realizada e as atas tenham sido enviadas ao Centro Nacional Eleitoral (CNE). Minutos após a denúncia, no entanto, os membros da oposição e as testemunhas da mesa puderam ser vistos segurando as folhas de contagem em suas mãos e lendo os resultados na frente das pessoas reunidas nos portões da escola. 

Jule Goikoetxea é cientista política e está no país fazendo um trabalho de observação internacional. Ela tem visitado várias escolas em Caracas e pôde estudar o sistema eleitoral venezuelano em detalhes. Ela garante que esse sistema é “um dos mais garantidos do mundo e que o processo de votação foi realizado com todas as garantias democráticas, de modo que o resultado da noite é absolutamente legítimo”. Jorge Freytter, observador internacional e pesquisador da violência política na América Latina, concorda com ela. Freytter, além de visitar escolas, visitou comunas e conselhos no estado de Carabobo, a pouco mais de duas horas de Caracas.

 Leia também – Venezuela: Democracia ou Ditadura? 

Ele atesta “a participação ativa da sociedade e de todas as suas organizações sociais e políticas” em 28 de julho e acredita que “esses resultados põem um fim à interferência ocidental e protegem a soberania nacional” porque “a sociedade venezuelana votou para fortalecer o projeto do socialismo do século 21 representado por Nicolás Maduro. Esse é o mandato das urnas”, conclui. 

Música para Maduro e apelos à paz

Observadores internacionais e convidados também estão chegando ao palácio de Miraflores, descendo de quatro ônibus prontos para acompanhar a contagem dos votos ao vivo da tenda montada pelo governo. Eles são acompanhados pela equipe de coordenação da missão e, quando passam, um corredor improvisado se abre ao som de aplausos. Os presentes agradeceram a presença deles e pediram que ficassem mais alguns dias, “porque ganhamos, mas a oposição não quer reconhecer”, gritou um dos presentes. 

Apenas alguns minutos antes, Edmundo Gonzalez publicou em seu perfil no X que “os resultados são inegáveis e que o país escolheu uma mudança rumo à paz”. Na verdade, meses antes, Gonzalez havia se recusado a assinar o documento de compromisso de reconhecimento dos resultados promovido pelo Conselho Nacional Eleitoral e que o restante dos partidos, com exceção do Soluciones Venezuela, assinou. O fato de que o principal partido de oposição não reconheceria os resultados estava em todas as pesquisas, a questão agora é saber que papel ele desempenhará nos próximos dias. “Não podemos voltar às guarimbas, agora devemos construir a paz”, indaga Natalia López, que parou de distribuir café e agora comemora com os olhos cheios de lágrimas, enquanto aproveita a oportunidade para fotografar os jornalistas que estão do lado de fora de sua casa. “Nunca vi tantos meios de comunicação estrangeiros presentes, espero que digam a verdade”, deseja. 

Chávez presente

A música para e reina o silêncio. O Conselho Nacional Eleitoral está prestes a tornar públicos os resultados e Nicolás Maduro está prestes a aparecer para avaliá-los. Mas antes disso, “há alguém para parabenizar”, avisa um militante do partido de Maduro, o PSUV, de uma van, por meio de dois enormes alto-falantes. 

As eleições coincidiram com o aniversário do nascimento de Hugo Chávez, o principal ideólogo do chavismo, e os parabéns começam a soar, embora com tons de salsa, porque a Venezuela vive tudo de forma musical. “Devemos a Revolução Bolivariana a Chávez e a Maduro sua enorme criatividade para garanti-la, apesar do trabalho árduo que nos deram”, explica Ignacio Hernández, que aproveita a oportunidade para lembrar que “amanhã temos que acordar cedo e ir trabalhar”.  

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À meia-noite, os resultados são anunciados. Nicolás Maduro venceu as eleições com 51,2% e mais de cinco milhões de votos, seguido por Edmundo González, com 44,2% e quatro milhões de votos. A Venezuela está tranquila e na expectativa do que acontecerá nos próximos dias. Ignacio Hernández já está trabalhando na fábrica da PDVSA, cansado e com a garganta irritada. Natalia López voltou a fazer café e, da janela de sua casa, olha para a Avenida Urdaneta, ao lado do palácio Miraflores, que há poucas horas estava cheia de partidários pró-Chávez e que hoje está cheia de motocicletas, carros e transeuntes que voltam à sua vida cotidiana, em um dia diferente, mas normal. 

(*) Tradução de Raul Chiliani

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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