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A eleição não acabou

Da força eleitoral no Nordeste ao teto de rejeição do bolsonarismo, os cinco fatores chave que definem a disputa voto a voto na reta final da eleição de 2026

Frei Betto
02.10.2026 — O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha no Rio de Janeiro: o evento "Lula m Belo Horizonte: O Brasil Pronto Pra Mais", realizado na Praça da Liberdade, Belo Horizonte - MG. (Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)
02.10.2026 — O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha no Rio de Janeiro: o evento “Lula m Belo Horizonte: O Brasil Pronto Pra Mais”, realizado na Praça da Liberdade, Belo Horizonte – MG.
(Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)

O resultado do primeiro turno deu a Flávio Bolsonaro vantagem importante: 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. São quase 2,3 milhões de votos de diferença. Seria imprudente minimizar esse resultado. Mas não significa que a eleição está decidida. O segundo turno é outra eleição.

Há pelo menos cinco razões para Lula conservar chances reais de vitória. A primeira, a capacidade histórica de Lula de ampliar sua votação quando a disputa se reduz a dois candidatos. No primeiro turno, parte do eleitorado vota por identidade, protesto ou preferência ideológica. No segundo, a escolha tende a ser mais pragmática: “Quem eu quero que governe o país?”. É justamente nesse momento que os atributos de cada candidato passam a pesar mais do que a simples rejeição ao adversário.

A segunda razão é o eleitorado dos candidatos eliminados do páreo nas urnas. Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e demais concorrentes somaram alguns milhões de votos. Evidente que não serão transferidos integralmente para um dos dois finalistas. Mas Lula tem condições de atrair parcela significativa desse eleitorado, sobretudo entre aqueles que desejam uma alternativa ao bolsonarismo sem necessariamente se identificar com o PT.

A terceira vantagem potencial de Lula está no seu eleitorado social. O presidente continua muito forte entre os mais pobres e no Nordeste. Na pesquisa Datafolha que antecedeu o primeiro turno, Lula vencia Flávio Bolsonaro por ampla margem entre os eleitores de menor renda e entre os nordestinos. Também tinha vantagem expressiva entre os menos escolarizados.

Isso importa porque eleição presidencial se ganha nacionalmente, e não apenas nos segmentos em que o adversário é mais forte. Flávio Bolsonaro mostrou extraordinária capacidade de mobilização entre evangélicos, setores de maior renda e parte do Sul e Sudeste. Mas ainda precisa transformar essa força em maioria nacional.

A quarta razão é o próprio sobrenome Bolsonaro. Ele é uma força eleitoral expressiva, mas também carrega uma rejeição igualmente poderosa. Flávio Bolsonaro não disputa apenas contra Lula; disputa com a memória política dos quatro anos de Jair Bolsonaro na Presidência, a polarização permanente, o desgaste provocado pelo radicalismo e a identificação automática com o bolsonarismo. No primeiro turno, essa identificação significou vantagem. No segundo, pode transformar-se em teto eleitoral.

A pesquisa Datafolha anterior à votação mostrava exatamente o paradoxo de Lula e o candidato do PL terem o mesmo percentual de rejeição: 45%. Ou seja, ambos tinham dificuldades para conquistar novos eleitores. Porém, Lula possui uma característica decisiva: já ocupou a Presidência duas vezes, governa atualmente e pode apresentar ao eleitor uma comparação concreta entre experiências de governo.

A quinta razão é que o segundo turno será também um plebiscito sobre governos. Lula poderá perguntar ao eleitor se prefere a continuidade de seu governo ou a volta de um projeto político identificado com Jair Bolsonaro, agora representado por seu filho. Flávio Bolsonaro, por sua vez, terá de demonstrar que não é apenas o herdeiro político do pai, tem projeto próprio para governar o país. Essa diferença poderá ser decisiva.

O resultado do primeiro turno também revela que Lula não está distante da vitória. Antes da votação, diferentes institutos apontavam cenários de empate técnico entre os dois no segundo turno.

Isso significa que o presidente não precisa fazer uma revolução eleitoral. Seudesafio é conquistar uma parcela dos eleitores que não votaram nele no primeiro turno e, principalmente, evitar perdas entre aqueles que já o escolheram.

Uma variável frequentemente subestimada é a abstenção. Os setores populares, justamente aqueles em que Lula é mais forte, historicamente apresentam maior dificuldade de comparecimento às urnas. Uma campanha capaz de transformar intenção em presença efetiva pode fazer diferença em uma disputa apertada.

Flávio Bolsonaro parte na frente, mas terá de crescer sem ampliar demasiadamente sua rejeição. Lula, ao contrário, pode tentar transformar a eleição em uma escolha entre duas experiências políticas, a continuidade e ampliação de políticas sociais, como o fim da escala 6×1, ou a volta do bolsonarismo que descuidou da população na pandemia e deixou morrer mais de 700 mil pessoas. 

A pergunta decisiva não será mais quem tem a militância mais entusiasmada. Será quem consegue convencer o eleitor que não votou em nenhum dos dois no primeiro turno de que merece governar o Brasil. É precisamente nesse eleitorado que Lula pode encontrar os votos que lhe faltaram para chegar em primeiro lugar.

A diferença entre o primeiro e segundo turno é grande o suficiente para exigir uma campanha competente, mas pequena demais para autorizar qualquer candidato a cantar vitória. Flávio Bolsonaro ganhou a primeira batalha.

Lula ainda pode ganhar a guerra. Vamos trabalhar pelo voto democrático dia 25 de outubro. Votar Lula! Votar 13! 

(*) Frei Betto é escritor, autor do romance “O Voo da Locomotiva” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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