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Ed Sheeran num ônibus

Sheeran queria continuar lotando os mesmos estádios e sendo tão rico e querido quanto antes sem precisar falar da barbárie. Isso não é possível, e é uma ótima notícia que ele agora o saiba

Gerardo Tecé
O cantor britânico Ed Sheeran. (Foto: Harald Krichel / Wikimedia Commons)
O cantor britânico Ed Sheeran. (Foto: Harald Krichel / Wikimedia Commons)

Nos primórdios das redes sociais, uma paródia se tornou viral. Um casal de adolescentes – um garoto e uma garota – viajava no ônibus trocando carícias e demonstrações de afeto. Na parada seguinte, um grupo de jovens com vontade de causar confusão entra no ônibus e se aproxima deles. Eles começam a cercá-la, incomodando-a, assediando-a. Para evitar problemas, o namorado solta a mão dela discretamente, vira a cabeça e cobre o rosto com a mão enquanto olha pela janela, fingindo não conhecê-la de jeito nenhum. Nos últimos dias, graças a Ed Sheeran, lembrei-me daquele vestígio arqueológico audiovisual, daquela joia do patetismo.

Se há alguém que ainda não conheça a história, Ed Sheeran é um cantor britânico que, aos 35 anos, já passa metade da vida desfrutando de fama mundial e sucesso financeiro. Um cara com aparência de gente boa que lota estádios na América do Norte e na Europa e que, nas últimas semanas, se viu envolvido, segundo suas próprias palavras, “em um debate acirrado”. “Fui atingido por um debate acirrado”, disse também à namorada – ex-namorada, na verdade – o garoto do ônibus quando os valentões finalmente desceram e ele conseguiu recuperar a voz.

O resumo do que aconteceu é bem conhecido. No meio de sua turnê pelos Estados Unidos, o artista de abertura de Sheeran, um rapper chamado Macklemore, demonstrou seu apoio à Palestina e criticou o genocídio que Israel está cometendo.

Pessoas ricas, promotores e donos de estádios disseram ao bom Sheeran que, ou ele trocava de artista de abertura, ou os shows restantes seriam cancelados. Ao que parece, criticar o assassinato de crianças acabou sendo considerado violento para aqueles que defendem o assassinato de crianças. E Sheeran concordou, virou a cabeça e olhou pela janela porque, nas palavras do próprio cantor, ele não quer que se fale de política em seus shows, mas sim de amor. Matar ou não matar crianças, essas duas opções políticas, ambas respeitáveis. Fico me perguntando se haveria como usar a IA para colocar o rosto de Sheeran naquele vídeo viral. Quando se trata de coisas importantes, o uso da IA é mais do que recomendável.

Depois de se mostrar ao mundo como o ser mais patético do mês de setembro – eu diria da década, mas a concorrência é feroz –, Ed Sheeran descobriu que os possíveis artistas substitutos de Macklemore se recusavam a ocupar o lugar do rapper. Eles recusavam a oportunidade que isso representava para eles de acompanhar um superastro como Sheeran. Até mesmo sua banda, formada por caras que realmente precisam do dinheiro dos shows para pagar seus aluguéis e hipotecas, se despediu dele e desejou sorte em suas tentativas de ganhar fortunas defendendo o amor sem criticar o genocídio. Roger Waters, do Pink Floyd, explicou bem: existem dois tipos de pessoas neste mundo, aqueles que fazem a coisa certa e os idiotas como Ed Sheeran. How I wish you were there, Waters deixou de dizer a Sheeran, referindo-se a Gaza.

O pior dos tempos sombrios não é a escuridão, mas aqueles que afirmam que a penumbra também não é grande coisa. “Obrigado a Ed Sheeran, porque sem pessoas como ele tudo isso não seria possível”, agradeceria Netanyahu em seu discurso como vencedor do Prêmio Nobel pelo melhor genocídio. Em breve.

 Leia também – Gaza: se não é genocídio, é guerra total 

É que Sheeran representa na perfeição o progressista acomodado, aquele espécime que vive na música, nos programas de entrevistas na TV e em nossos grupos de amigos. Que observa as angústias provocadas por essa lei do mais forte, esse auge fascista, mas que não quer que a angústia chegue à sua porta na forma de desentendimentos com o poder.

Pessoas como Sheeran sempre encontram uma maneira de evitar chamar as coisas pelo nome e de serem apontadas. “Não são fascistas, são pessoas descontentes”, “não se deve usar a palavra ‘genocídio’ tão levianamente”, “vamos esperar para ver o que diz o imortal fulano da Academia Brasileira de Letras”. Ed Sheeran queria continuar sendo igualmente rico, lotando os mesmos estádios e sendo igualmente querido sem ter que se posicionar diante da barbárie.

Isso não é possível, e é uma ótima notícia que agora ele o saiba.

CTXT CTXT (Contexto y Acción) é um semanário espanhol fundado em janeiro de 2015 por 14 jornalistas experientes, provenientes de grandes jornais europeus como El País, El Mundo e La Repubblica, que buscam exercer sua profissão com total liberdade, sem estarem vinculados a interesses políticos, editoriais ou empresariais.

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